Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

Era o centro de gravidade das almas daqueles miseráveis; para ele convergiam todos aqueles sentidos cariados e todos aqueles corações sujos - pátria, família, aspirações, glória, tudo, tudo se resumia no punhado de moedas.

Não se ouvia palavra.

Como estátuas movediças, atiravam à boca escancarada da fera os seus bens, os do filho, o futuro da própria família e da alheia.

E a fera, como uma vala de cemitério, ia sorvendo em silêncio tudo o que lhe lançavam, enquanto todos jaziam a meditar, que também a gente medita para fazer o mal.

Todavia, toda e qualquer consciência tem horror ao jogo; a ninguém incomoda tanto o tapete verde como ao próprio jogador - enquanto lança à sorte o que possui, calca aos pés a pobre consciência, que, ao lado das escarradeiras, dorme ébria e envergonhada debaixo da mesa.

O salão principal do baile oferecia um espetáculo inteiramente oposto ao que acabamos de esboçar.

Não se ouvia aqui o ressonar pesado do jogo, sentia-se a febre vertiginosa da dança; aqui era tudo delírio e loucura. A atmosfera morna, pesada, abafadiça, e de um branco opaco, enervava a cabeça e dilatava os sentidos.

A atmosfera de um baile daquela ordem, no seu apogeu, afeta singularmente a economia animal dos moços. O coração como se derrete ao calor dos galanteios, dos perfumes, das luzes, dos vinhos, dos vapores estimulantes que exalam os corpos cansados das mulheres e derrama-se por todo o corpo como um filtro diabólico e sensual, que percorre e excita os tecidos orgânicos, precipitando as suas competentes funções; o exercício da valsa dá ao coração formas extravagantes e caprichosas — fá-lo pular, estremecer e palpitar; e, conforme as impressões que recebe, informa-se, dilata-se, encolhe e chega a tomar formas.

A gente mais facilmente ama nessas ocasiões porque a atmosfera e o cansaço aceleram os fenômenos vitais. Em tais circunstâncias uma resistência é quase impossível - afinal o corpo descai e languesce — voluptuosamente; percorre todos os membros uma moleza gostosa e doentia; sentimos cócegas nos cantinhos da boca e no interior das ventas; o rosto afogueia-se, desfalece a energia; o hálito queima; os dedos criam uma sensibilidade igual à da língua; o vítreo dos olhos raiase de sangue e faz-nos ver tudo por um prisma vermelho e fantástico.

O ópio não produz efeitos tão deslumbrantes.

Quanto mais a gente dança, quanto mais se agitam os membros estafados, tanto mais se envenena o ar; as flores terminam a obra roubando o pouco oxigênio que resta na atmosfera. Resulta de tudo isto um ar viciadíssimo e tão gasto e condensado que se pode comer em vez de respirá-lo.

Quanto mais tempo dura o baile e com ele a aglomeração e o exercício, tanto maior e mais veemente é a necessidade de respirar, e então sorve-se com sofreguidão o ar e o pó já muito usados por todos.

Os pulmões aspiram e expelem sempre o mesmo ar e o mesmo pó.

O ar é como um pensamento e o pulmão é como um cérebro, acontece que o mesmo ar penetra, como uma idéia geral, todos os pulmões, e esse ar ou essa idéia única corre toda a sala, entra por todos, domina quem a recebe e acaba por formar, identificando toda a sociedade - um só pulmão e uma só cabeça, isto é, uma só vontade e um só querer.

Eis aí o que era um baile em casa de Maffei. Simplesmente uma reunião de moços de ambos os sexos, metidos numa sala bem fechada, onde dançavam, pulavam, cansavam e apodreciam, como muitas maçãs em um cesto, onde é bastante haver uma podre para contaminar e corromper as outras.

Esse contato infernal era uma lógica conseqüência do ar viciado e da simpatia.

E tanto é assim que em algumas ocasiões não queremos tomar parte num divertimento que nos parece mau, e, uma vez entrados, empenhamo-nos nele tanto como os que lá estavam; veja-se de parte de um baile e este se nos afigurará uma reunião de doidos. Num combate se verifica a mesma coisa - travada a luta são todos bravos; nos cárceres são todos maus; nos hospitais são todos doentes; em um naufrágio são todos religiosos e assim por diante.

O ar sempre transmite a quem o respira o caráter do lugar em que se acha, como no leite a ama transmite à criança, que amamenta, todos os seus males físicos e morais.

Para fazer um homem mau é bastante obrigá-lo a respirar com os maus.

E há quatro anos os pulmões da bela Rosalina enchiam-se com o mesmíssimo ar que uma roda má e corrupta até as pontinhas dos cabelos, sorvia e expelia por todos os poros.

CAPÍTULO IV

Mas que roda era essa tão esquisita?

Donde vinha semelhante gente, e para onde se destinava?

Vinha do nada e caminhada para o nada, pouco mais ou menos...

— De quem ou de que se compunha?

De restos.

Expliquemo-nos.

Em todas as grandes capitais, há deste gênero de boêmios aristocráticos, que Dumas Filho, referindo-se aos de Paris, intitula Demi-Monde, espécie de ilha flutuante, que bóia à flor da sociedade universal.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1516171819...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →