Por Aluísio Azevedo (1881)
Pelas quatro horas da madrugada, Manuel, impressionado, porque, de todas as vezes que acordava, via luz no quarto do hóspede e ouvia-lhe o som dos passos trôpegos e vacilantes, e sentia-lhe os gemidos abafados e o vozear frouxo e doloroso, não se pôde ter e levantou-se. “Terá alguma coisa o José?...” pensou ele, embrulhando-se no lençol e tomando aquela direção. A porta achava-se apenas no trinco, abriu-a devagar e entrou. O viúvo, ao sentir alguém, voltou-se assombrado e dando com o fantasma que lhe invadia a alcova, recuou de braços erguidos, entre gritos terror. Manuel correu sobre ele; mas antes que se desse a conhecer, já o assassino de Quitéria havia caldo desamparadamente no chão.
Fez-se logo um grande motim por toda a casa, que era nesse tempo no Caminho Grande, e na qual os caixeiros do negociante ainda não moravam com o patrão. A boa Mariana acudiu pronta cheia de zelo. “Um escalda-pés! depressa!” dizia, apalpando os contraídos e volumosos pós do cunhado. Tisanas, mezinhas de toda a espécie, foram lembradas; pôs-se em campo a medicina doméstica, e, daí a uma hora o desfalecido voltava a si.
Mas não pôde erguer-se: ficara muito prostrado. À síncope sobreveio-lhe uma febre violenta, que durou até à noite, quando chegou afinal o Jauffret.
Era uma febre gástrica, explicou este. E mais: que a moléstia; requeria certo cuidado — muito sossego de espírito! Nada de bulha, principalmente!
José, malgrado a recomendação do médico, quis ver o filho. Abraçou-o soluçando, disse-lhe que estava para morrer. E no outro dia ainda de cama, perfilhou-o; pediu um tabelião, fez testamento e, chorando, chamou Manuel para seu lado.
— Meu irmão, recomendou-lhe. Se eu for desta... o que é possível, remete-me logo o pequeno para a casa do Peixoto em Lisboa.
Terminou dizendo “que o queria — com muito saber — que o metessem num colégio de primeira sorte. Ficava ai bastante dinheiro... não tivessem pena de gastar com o seu filho; que lhe dessem do melhor e do mais fino”. Estas coisas fizeram-no piorar; já todos os choravam como morto, e, pelos dias de mais risco, quando José delirava na sua febre, apareceu em casa do Manuel o pároco do Rosário; vinha muito solicito, saber do estado do seu amigo José “do seu irmão” dizia ele com uma grande piedade.
E daí, não abandonava a casa. Prestava-se a um tudo, serviçal discreto, às vezes choramingando porque lhe vedavam a entrada no quarto do enfermo Manuel e Mariana não se furtavam de apreciar aquela solicitude do bom padre, o interesse com que ele chegava todos os dias para pedir noticias do amigo. Dispensavam-lhe um grande acolhimento; achavam-no meigo, jeitoso e simpático.
— É um santo homem! dizia Manuel convencido.
Mariana confirmava acrescentando em voz baixa:
— Por adulação não é, coitado! Todos sabem que o padre Diogo não precisa de migalhas!...
— É remediado de fortuna, pois não! Mas, olhe, que sabe aplicar bem o que possui...
Seguia-se uma longa resenha dos episódios louváveis da vida do santo vigário; citavam-se rasgos de abnegação, boas esmolas a criaturas desamparadas, perdões de ofensas graves, provas de amizade e provas de desinteresse. “Um santo! Um verdadeiro santo!”
E assim foi o padre Diogo tomando pé em casa de Manuel e fazendo-se todo de lá. Já contavam com ele para padrinho de Ana Rosa; esperavam-no todas as tardes com café, e à noite, nos serões da família, marido e mulher não perdiam ocasião de contar as boas pilhérias do senhor vigário, glorificar-lhe as virtudes religiosas e recomendá-lo às visitas como um excelente amigo e magnífico protetor. Um dia em que ele, como sempre, cheio de solicitude, perguntava pelo “seu doente” disseram-lhe que José estava livre de maior perigo e que o restabelecimento seria completo com a viagem à Europa. Diogo sorriu, aparentemente satisfeito; mas, se alguém lhe pudesse ouvir o que resmungava ao descer as escadas, ter-se-ia admirado de ouvir estas e outras frases:
— Diabo!... Querem ver que ainda não se vai desta, o maldito?... E eu, que já o tinha por despachado!...
No dia seguinte, dizia o velhaco ao futuro compadre: — Bom, agora que o nosso homem está livre de perigo, posso ir mais sossegado para a minha paróquia... Já não vou sem tempo!...
E despediu-se, todo boas palavras e sorrisos angélicos, acompanhado pelas bênçãos da família.
— Senhor vigário! gritou-lhe Mariana do patamar da escada. Não faça agora como os médicos, que só aparecem com as moléstias!... Seja cá de casa! —Venha de vez em quando, padre! acrescentou Manuel. Apareça!
Diogo prometeu vagamente, e nesse mesmo dia atravessou o Boqueirão em demanda da sua freguesia.
Essa noite, nas salas de Manuel, só se conversou sobre as boas qualidades e os bons precedentes do estimado cura do Rosário.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.