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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Ela prevê que o homem não se modificará fisicamente com o novo estado que começa no leito nupcial; ele era já um homem e continua a ser um homem como dantes. E ela? ela vai transformar-se toda, invadida pelo amor até às entranhas; ela sabe já que os seus delicados pomos virginais avultarão, adquirindo novas curvas; que os seus estreitos quadris de donzela ganharão voluptuosas protuberâncias; que o seu fino pescoço de criança vai carnear-se, formando uma garganta cheia de ondulações misteriosas e sedutoras, um branco e tépido ninho para os beijos dele; e que seus olhos se rasgarão, banhados de novos fluidos de volúpias, e que seus olhares serão outros e outros os seus sorrisos, depois do amor consumado; e que seu ventre enfim vai ser consagrado pela maternidade, e seu sangue transformar-se em leite e seu amor transformar-se em vida.

Oh! Pertence-lhe o amor muito mais do que ao homem! O amor no homem é um incidente e nela é um destino, é a missão principal de sua vida. O amor pode nascer ou não no homem e pode abandoná-lo sem deixar sinal de raízes; na mulher apodera-se de todo o seu ser, invade-lhe as entranhas, e nelas cresce, enfolha, floreja e frutifica. E por isso, porque nesse amor de uma donzela entra já a idéia do sacrifício de todo o seu corpo; por isso que ele é mais da terra, mais natural e mais humano; por isso esse amor é sem dúvida melhor que o amor do homem, pois que este precisa para manter-se dos socorros da ilusão e do ideal.

E é por isso ainda que nós mulheres amamos, relativamente, com mais igualdade e mais firmeza que o homem. Em qualquer casal é sempre ele o que primeiro afrouxa de entusiasmo no amor, sendo aliás quem principia com mais intensidade e com mais ímpeto; ao passo que a mulher, passiva desde o berço, escrava por natureza, só chega, em geral, a enfastiar-se do seu companheiro, quando este já não preenche, como homem, os requisitos de sedução, que no mister procriador a natureza exige em benefício do filho.

Esta última razão é um dos pontos capitais da insignificância do casamento como ele está instituído. O encanto, que namora, que aproxima dois indivíduos de sexo oposto, empenhados inconscientemente na formação de um novo ser, é coisa muito mais importante do que parece à primeira vista.

Para que o filho saia um ente perfeito — forte, inteligente e belo — é indispensável que venha em conseqüência de um perfeito amor. A natureza, sempre amiga e previdente, prepara o terreno para os amantes que têm de pagar o delicioso tributo da reprodução — dá à juventude os atrativos da beleza e a sedução da força e da inocência, como dá à flor o brilhante matiz, a frescura e o perfume, com que ela chama o trêfego inseto condutor do pólen. Mas, quando assim não seja, quando mulher ou homem não tenha algum deles verdadeiros atrativos e reais encantos, o amor, isto é, o instinto da conservação da espécie, substitui no espírito do outro, com a imaginação, os sedutores atributos que faltam na pessoa amada.

“Quem o feio ama, bonito lhe parece”, diz o provérbio, e diz a verdade.

Não é, pois, indispensável, para a perfeição do filho, que a mulher seja deveras formosa e o homem um perfeito ideal do amor; indispensável é que eles se amem de fato, porque, se assim acontecer, no momento capital da irresistível atração de um para o outro, ela representa para ele a primeira mulher do mundo, a mais sedutora, a mais terna, a mais amável, e ele representa para ela o melhor dos homens, o mais nobre, o mais apaixonado e o mais digno do seu amor.

Nestas condições, o filho será por força de regra, não como são os pais, mas um ente tão perfeito como eles mutuamente se julgavam, convictos, na providencial ilusão do seu desejo. Donde se conclui que a formação de um filho, rigorosamente perfeito, isto é, que a garantia da seleção humana e o aperfeiçoamento da espécie, dependem mais da imaginação dos pais do que das suas verdadeiras virtudes e das suas qualidades físicas.

Mas, pergunto eu agora, essa ilusão pode existir sempre, entre os dois mesmos indivíduos, durante toda a sua existência íntima de casados? Depois do nascimento e da amamentação do primeiro filho, o homem continuará a ver na esposa a mais desejável de todas as mulheres, e ela continuará a ver no marido o melhor e superior de todos os varões?

Não! Para isso seria preciso a possibilidade de um novo período de fascinação amorosa, de namoro, e uma nova expectativa de lua-de-mel. Para isso seria preciso que os dois se desejassem de novo como se desejaram da primeira vez, e que se atirassem de novo nos braços um do outro, com o mesmo primitivo entusiasmo, com o mesmo ardor, com a mesma ilusão.

Ora, como não é possível obter de novo essa ilusão, todo o casal, depois de criado o primeiro filho, compõe-se de dois desiludidos.

(continua...)

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