Por Aluísio Azevedo (1887)
As duas saíam em passo de quem vai espairecer um pouco pelas imediações de casa, mas a certa distância aceleravam a marcha, apressavam-se, conversando em segredo em segredo os seus assuntos religiosos. A rapariga, à medida que se aproximava do templo, ia ficando excitada, palpitante, olhando repetidas vezes para trás, como se receiasse que a seguissem. Afinal chegava, ofegante, com o coração na garganta e, depois de verificar que não erra seguida por ninguém, entrava na igreja, trêmula e assustadiça, como se entrasse no latíbulo de um amante. E aquele silêncio das naves; aquela meia sombra em que rebrilhavam os ouros dos altares; aquela solidão compungida; o ar fresco dos lugares de teto muito alto; tudo isso lhe punha no corpo um meigo quebranto de volúpia sobressaltada.
Ajoelhava sempre num ponto certo; tinha já a sua imagem predileta, era um grupo de Mater Dolorosa, de tamanho natural, com o Cristo deitado ao colo, morto, todo nu, os braços pendentes, o sangue a escorrer-lhe pelas faces e pela ebúrnea rigidez do corpo. Adorava este Cristo, amava-o, preferia-o, tinha íntimas predileções por ele; achava-o mais formoso do que todas as outras imagens sagradas. Embriagava-se com ver-lhe aquele rosto muito pálido, aqueles olhos de pálpebras mal fechados, adormecidos no negrume dos martírios, aqueles lábios roxos, imóveis, aqueles longos cabelos que lhe caíam pelos ombro, aquela barba nazarena que parecia ter bebido de cada mulher da terra uma lágrima de amor.
E Ela, no murmúrio das suas orações, dizia-lhe ternuras de esposa; pedia-lhe consolos e confortos, que ele não lhe podia dar; falava-lhe com o magoado orientalismo do "Cântico dos Cânticos"; e suas palavras eram quentes como beijos e ternas e doloridas como suspiros de quem ama. Por aquela imagem querida acentuava na sua imaginação e melancólica figura desse ente perfeito e desejado, de que na Bíblia lhe falavam as filhas de Jerusalém. Era esse o amado que, em sonhos, lhe pedia para pedir a porta, porque lhe estavam correndo pelos anéis do cabelo as gotas da noite; esse era o amado cândido e rubicundo, escolhido entre milhares; era esse, cujos olhos são ternos e doces, nem como as pombas que, tendo os ninhos ao pé do regato das águas, estão lavadas em leite e se acham de assento junto das mais largas correntes dos rios; era esse o amado, cujas faces são iguais a canteiros de flores aromáticas e cujos lábios destilam a mais preciosa mirra; era esse de mãos superfinas, feitas ao torno, cheias de jacintos; esse de ventre de marfim, guarnecido de safiras; esse de pernas de mármore sustentadas sobre bases de ouro; esse que era escolhido como os cedros e cuja figura a chorosa e lânguida sulamita comparava ao Líbano.
Era esse que ela supunha amar; a quem supunha dar tudo o que seu coração e alma possuíam; e, vendo-se descoberta e proibida de ir às místicas entrevistas com ele, foi tomada por um grande desgosto, sobrevindo as convulsões, e tendo de guardar a cama por muitos dias, porque lhe apareceu então uma febre de caráter especial, apresentando todos os sintomas da pirexia comum, mas que todavia não se subordinava aos medicamentos que a esta combatem.
— Ora aí tem! É a febre histórica! Classificou logo o Dr. Lobão. E, em resposta às perguntas do Conselheiro, despejou um chorrilho de nomes técnicos, dizendo que: "Aquilo não podia ser febre tifóide, nem ter sua origem na flegmasia encefálica, nem tão pouco na alteração de algum órgão esplâncnico, porque uma meningite, ou uma encefalite ou mesmo a febre tifóide comum não poderia chegar àquele grau, por que não havia doente capaz de resistir!"
O certo é que Magdá, ao levantar-se da tal febre, estava reduzida a uma fraqueza extrema. Voltaram-lhe a dor da espinha, a tosse e a inapetência completa; se insistia em comer, vomitava incontinente. O Dr. Lobão, na sua venerável pretensão de médico antigo, declarou sem cerimônia que, "pela contração tônica dos músculos, pressentia a aproximação da letargia".
— A letargia! Agora é que eram elas! Aí estava o que ele menos desejava que viesse!
Depois de praguejar contra todo mundo e ralhar cuidadosamente com o Conselheiro, aconselhou a este que levasse a doente para outro arrabalde mais campestre, onde não houvessem igrejas perto de casa e onde ela pudesse estar mais em liberdade e mais em movimento. E, logo que se sentisse melhor, convinha despertar-lhe o gosto por qualquer ocupação manual. "Nada de belas artes, nem leituras! Exclamava o cirurgião. — Jardinagem, serviço de horta, jogos de exercícios, como o bilhar, a caça, a pesca! E passeios! Muitos passeios ao ar livre, pela fresca manhã, sem chapéu, sem muito medo de apanhar sol! E, se os passeios fossem depois de um banho bem frio — melhor seria! Era preciso que Magdá não deixasse de tomar ferro e aquele xarope de Easton, que ele receitara. Na alimentação devia procurar sempre comer um pouco de carne sangrenta, mariscos, e tomar bom vinho Madeira."
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.