Por Aluísio Azevedo (1890)
Branca! Ela deveria estar em poder do príncipe. E era preciso reavê-la. Para isso não havia brutalidades e violências que produzissem resultado. Ele tinha necessidade de fazer-se manhoso e hipócrita. D. Pedro seria agora o seu mestre. Ele soubera tão bem compor a fisionomia traidora e fazer-se amigo e confidente naquela recente viagem a Santos, que bem valia a pena imitá-lo.
E, depois... depois, quando à força de vigilância e de astúcia ele tivesse descoberto o esconderijo onde o príncipe lhe guardava a filha, quando tivesse abraçado Branca, quando readquirisse a posse daquele amor imaculado e puro, ideal e santo de pai, depois... viria a luta, luta de gigantes, para a qual ele traria toda a energia do seu temperamento e toda a audácia nunca desmentida do seu viver.
Não lhe bastava a morte de d. Pedro. D. Pedro era valente. E, para ele, a morte era apenas esse fatal desenlace da vida que não assusta aos fortes e que o homem procura muitas vezes.
Para que matá-lo?! Embora o horóscopo fatídico da cigana aí estivesse a dizer que um dos dous devia morrer pela mão do outro, ele não queria matar o príncipe. Queria-o miserável e vencido, morto no seu orgulho, arrastando uns dias infaustos de vilipêndio, martirizado por essa angústia de abatimento que é o suplício dos fortes.
E, horrivelmente calmo, como o espetro sinistro das vinganças, ele cortou as trevas da noite com um gesto largo de ameaça.
X
PARA VINGAR
O Satanás vivia infeliz nas suas pesquisas para descobrir o paradeiro de Branca. Por mais que se fizesse a sombra de d. Pedro, por mais que o seguisse em todas as costumeiras migrações noturnas, por mais que se lhe pusesse debruçado sobre o espírito a acompanhar-lhe a sucessiva eclosão de idéias, não conseguira nunca descortinar um bocadinho desse mistério, que ficava para além sepulto no abismo apavorante dos segredos.
Vinham-lhe por vezes dúvidas, suspeitas de que d. Bias tivesse mentido, vontade de sujeitá-lo a um novo inquérito, planos de prendê-lo e de arrancar-lhe a verdade até mesmo pela tortura.
Mas d. Bias desaparecera. Ninguém mais o encontrava, nem lá na bodega do Trancoso, nem pelos outros lugares por onde ele gostava antigamente de passear a sua longa durindana ferrugenta. Fizera-se caseiro. E, ali nos fundos do convento do Carmo, enlevava-se todo no amor da sua encarcerada, contente da vida, porque a Domitila nada resolvia sobre a infeliz louca, porque davam-lhe bom repasto, e porque estava a seguro de um encontro com o escultor.
Falto dessas informações, desse caminho único para a descoberta da verdade, o Satanás tinha também, por vezes, ímpetos de interpelar o príncipe, de ir diretamente a ele para a luta suprema das vinganças paternas. Aproveitaria o ensejo de uma alta noite, naquela hora em que os dous costumavam estar sozinhos, e em que o vinho e a mulher fazem a palavra expansiva e franca, volutuosamente escorregando pela língua para o diálogo amigável das confissões. E então seria brutal, violento como um pai ultrajado que se arma com a plenitude dos seus direitos e com o instinto das suas obrigações.
Oh! ele bem saberia ritmar a grande vibração sonora das suas reclamações e dos seus discursos, ele bem saberia como falar com a voz repassada de confrangimento, pontuada de gritos e de imprecações. Para isso bastava que deixasse transbordar toda inteira a dor sofrida que lhe ia na alma.
Mas não convinha. D. Pedro não se sujeitaria a ouvi-lo, e nem tinha remédios para curar-lhe o sofrimento, porque não há bálsamo que chegue para suavizar a ferida feita nesse amor de pai, imaculado e puro, divinal e casto.
Por isso, ele, Satanás, queria a vingança.
Os sucessos políticos, cuja confidência lhe era diariamente feita e em que andava completamente envolvido, vinham servir-lhe, a mais não ser, nessa obra sinistra de vinditas que estava longamente planejando. Eles eram a apoteose do príncipe que o povo aclamava; podiam tornar-se a derrota do seu orgulho e a morte para sempre da sua individualidade sepultada nas trevas de um cárcere.
E o Satanás sonhou primeiro com a reação portuguesa. As tropas lusitanas ainda estavam aqui, luzidias e valentes, bem afamadas na disciplina e respeitadas pelo povo.
Bem certo que Jorge de Avilez quietava-se irresoluto, não sabendo que partido eleger, receoso de optar entre as cortes e o príncipe herdeiro de Bragança. Para determiná-lo a uma reação pronta e imediata, o Pallingrini teve então uma dessas idéias diabólicas, que só a ele podiam acorrer. E numa carta incisiva que dirigiu ao general português, narrou a história de uns amores de d. Pedro, que tinha penetrado até a câmara nupcial do tíbio comandante lusitano.
Este, ferido em seus brios e em sua honra, louco de dores, preparou-se então para reagir. Mas abortou logo em princípio o movimento que projetara. A milícia, principalmente a milícia de Niterói, cercou a divisão lusa e obrigou-a a capitular e ir aquartelar-se na Armação, até que se aprestassem vapores para recambiá-la para a Europa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O esqueleto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7409 . Acesso em: 18 mar. 2026.