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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Vê a Gula a vitória da inimiga,

E, a figura do físico tomando,

À casa voa do abatido Almada,

E depois de operar um breve exame

Aos aflitos amigos afiança

A vida do prelado; e sem deter-se

Com escrever fantásticas receitas,

Nem pedir chochas drogas de botica,

Manda que o cozinheiro sem demora

Uma gorda galinha ponha ao fogo,

E a tempere, segundo as regras d’arte.

Prontamente obedece o fiel servo,

E pouco tarda que um guloso aroma

A casa toda invada, e subtilmente

Na atmosfera da alcova se derrame.

Prodígio foi! Nos lábios do doente,

Como alvejar costuma no horizonte

Dentre as sombras noturnas a alvorada,

Um sorriso desponta; e pouco a pouco

As pálpebras se vão arregaçando,

Quais as cortinas de nublado inverno

Que, à criadora luz do sol nascente,

A verdura da serra e da campanha,

E enfim o rosto da azulada esfera,

Lentamente esvaindo-se descobrem.

XIV

Neste ponto na alcova entra o copeiro

A galinha trazendo e o grosso caldo;

E o prelado sentando-se na cama,

A convite de todos logo bebe

O caldo em quatro goles, e trincava

O tenro peito da ave, quando a idéia

Do congresso fatal lhe sobe à mente;

Do peito arranca um lânguido suspiro,

E, reprimindo as lágrimas exclama:

“Ah! se eu de todos esperar devia

Tão cruel decisão, reitor ingrato,

Tu só me espantas, único me feres,

Que eu tinha o voto teu e o teu abraço,

E nisso confiado me entretinha

Em saborear a próxima vingança.

Agora, que mortal salvar-me pode

De tão grande vergonha? Oh! quem dissera

Que o destemido Almada, cujo nome

Nas asas voa da ligeira fama,

Os mares assustados atravessa,

Lisboa assombra e desnorteia o mundo,

A tamanha baixeza chegaria

Que os alheios esforços mendigasse?”

XV

Um profundo suspiro a voz lhe embarga;

E enfim rompendo dos fulmíneos olhos

Precipitadas lágrimas lhe banham,

Pela primeira vez, as faces pálidas,

Que inda nessa manhã vermelhas eram.

Correm todos ao leito a consolá-lo,

E ali lhe juram que a final vitória,

Ou eles morrerão naquela empresa,

Ou ela há de caber ao grande Almada.

Estavam neste ponto, quando a Ira,

Invisível entrando, e vendo a Gula,

Tenta roubar-lhe o infeliz prelado,

Em cujo peito uma faísca lança.

Já vermelho, já trêmulo, no leito

Ele a agitar-se todo principia.

Mas a astuta rival da feroz culpa,

Para o golpe atalhar subitamente

Do mísero prelado se aproxima

E toda a raiva lhe converte em fome.

XVI

As recatadas sombras, entretanto,

O espaço tomam, que o brilhante globo

De vida e luz encheu. Raros luziam

No firmamento os pregos de diamante

Com que a mão criadora do universo

Fixou a tela azul da larga tenda

Em que apenas um dia nos sentamos,

Os que viemos do nada, os que apressados

Vamos em busca da encoberta terra

Da eternidade. Nem acesa fora

A saudosa lâmpada da noite,

Tão buscada das musas que suspiram

Suas quimeras, seus afetos castos,

E amam dizer aos solitários ecos [22]

De que mágoas teceu ímpia fortuna

0 viver que os afronta. Rijo vento

Empuxava de longe opacas nuvens

Que a tempestade próxima traziam,

Como se nessa tenebrosa noite

Em perturbar a doce paz da vida,

Coos homens apostasse a natureza.

XVII

Livre do abalo grande que o prostrara,

O prelado cogita uma vingança.

Os amigos convoca, e todos juntos,

Com aquela energia e vivo empenho

Que aos seus alunos a Lisonja inspira,

Um meio buscam de vingar o Almada.

Com gênio de água, o douto Vilalobos

Os olhos deita a Roma, e quer que ao papa

Se faça apelação; mas o Cardoso

De cuja intrepidez e sangue frio

Nem o próprio diabo se livrara,

A excomunhão propõe dos santos frades,

Governador, Senado e povo inteiro.

Timidamente o abelhudo Nunes

Insinua o perdão; assaz punido

Lhe parece o ouvidor; toda a cidade

A força do prelado conhecera

Indomável, terrível; era tempo

De regressar à santa paz antiga.

Tais idéias o adulador Veloso

Com escárnio refuta; d'almas fracas

Foi sempre a mole paz recôsto amigo

Não das que o fogo endureceu na guerra,

Como a dele, que as iras arrostara

De todos os senados do universo

A exigir-lho o prelado. Convencido,

Êstes conceitos tais escuta Almada

E tendo meditado longo tempo,

Um recurso lhe lembra decisivo,

A garganta concerta, e desta sorte

A falar principia: “Companheiros...”

XVIII

Neste ponto um trovão estala e troa;

E do conselho aos olhos aparece

Sem do tecto cair nem vir do solo

Uma torva e magníssima figura

De longas barbas e encovados olhos

Que a rigidez marmórea traz na face.

E o trêmulo Congresso encara e exclama:

“Basta já de lutar! Se tu, prelado,

E vós, teimosos servidores dele,

Na guerra prosseguirdes que ameaça

A doce paz quebrar deste bom povo,

Sabei que a mão severa do destino

Nos volumes de bronze uma sentença

Contra vós escreveu. Dos vossos cargos

Perdereis o exercício, e sem demora

Ireis pregar a fé entre os gentios,

As tribos afrontar e as frechas suas,

Fomes, sedes curtir, vigílias longas,

Que o castigo serão da vossa teima”.

XIX

Isto dizendo, desaparece o vulto

(Que era nem mais nem menos a Preguiça).

Então os reverendos assustados

Pela terra se lançam, e batendo

Nove vezes nos peitos, nove vezes

O duro chão, em lágrimas, beijando,

Pedem ao céu que dos eternos livros

Riscado seja o bárbaro decreto.

FIM

DO POEMA “O ALMADA”

NOTAS DO AUTOR

O ALMADA

CANTO I

(continua...)

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