Por Aluísio Azevedo (1882)
Comparai os dois sentidos. De um lado o desafeiçoado pândego, que vive au jour le jour, comprando fôlego a fôlego a sua vida inútil e egoísta; de outro lado o trabalhador modesto, que moureja durante o dia para prover a subsistência da mulher que ama e a dos filhinhos que à noite o esperam. Um vai aos teatros, bebe, ri, galanteia as mulheres, mas volta para a cama do hotel em que mora ou da amante que lhe pertence na ocasião, com o corpo cansado e gasto e a alma desconfortada e fria. Tudo lhe causa aborrecimento, tudo o enche de tédio: os amigos, os prazeres e o próprio vício. Acorda sempre de mau humor, não encontra em coisa alguma um lado que o seduza e prenda. Enquanto o outro, o burro de carga, aquele que durante o dia, em vez de gastar, ganhou; aquele que devia ao chegar à noite sentir-se cansado e indisposto, esse entra em casa quase sempre cantarolando e sempre sorrindo; abraça a mulher, beija os filhos, afaga o cão, dá uma vista de olhos pelo jardim e assenta-se ao lado dos seus para cear, feliz, confortado, fortalecido pela dignidade do seu esforço, abençoado por aqueles que vivem da sua atividade e do seu amor, e afinal deita-se a dormir, tranqüilamente, com o coração despreocupado, o sangue fresco e a consciência lisonjeada.
Tais foram as considerações que fez Gregório, quando se sentiu só e desamparado de qualquer afeição doméstica.
Que terrível noite a primeira que ele passou depois que partiu a família com quem morava! Tudo lhe parecia triste e insociável; tudo o encarava com uma fisionomia dura e antipática; os mesmos trastes da casa, dantes tão familiares e amigos nas conversas de depois do jantar, se mostravam agora concentrados e macambúzios, como se tivessem alguma razão de queixa contra ele; parecia que os moradores haviam morrido todos e que andavam seus espíritos a pairar nos ares silenciosamente, como o fumo preso dentro de uma sala.
Foi nestas circunstâncias que viu pela primeira vez Clorinda e que aceitou sem discutir o convite para jantar aos domingos em casa do Dr. Roberto.
Gregório sonhara quanto não seria bom fazer existência ao lado de uma mulher moça, bonita e carinhosa.
— Definitivamente era preciso casar! pensava ele; aquela vida miserável de homem solteiro não lhe poderia convir! ganhava o bastante para si e para a mulher; não tinha por conseguinte razões que o forçassem a contrariar as suas aspirações
e... diga-se tudo, o seu amor, porque afinal de contas já não podia imaginar a felicidade senão já amava Clorinda e em companhia dessa criatura adorável.
A viúva, sem que ninguém lho dissesse, compreendeu e avaliou tudo o que se passava no espírito do seu amante.
Como mulher de experiência, adivinhara, ao primeiro sintoma dos novos amores de Gregório, a tempestade que se armava, e, ainda como mulher de experiência, tratou de disfarçar o seu sobressalto e desviar a nuvem carregada de eletricidade.
Mas tudo foi debalde: pouco depois Gregório pediu Clorinda em casamento e as coisas tomaram o caminho que o leitor já conhece.
Mal sabiam, coitados! o que lhes estava reservado ainda!
CAPÍTULO VII
APALPADELAS
Júlia, ao sair da secretaria de polícia, levava o coração encharcado de sobressaltos; as dúvidas, os terrores, as saudades do amante, enchiam-na toda de uma grande tristeza histérica.
Entrou em casa sem dar uma palavra à criada, que a seguia com os olhos espantados. Depois, arremessou o chapéu, a capa, e afinal a roupa, e deitou-se de bruços na cama, a soluçar desesperadamente.
Às sete horas da manhã, quando a criada penetrou no seu quarto, para lhe entregar um papel que vinha da polícia, achou-a já de pé e vestida em trajos de sair.
— Que mais teremos?! perguntou ela consigo, sem disfarçar o aborrecimento.
Era uma nova intimação policial.
— Ainda está aí o portador disto? perguntou à criada, depois de correr os olhos pelo papel que tinha nas mãos.
— Não, senhora; retirou-se.
— Bem. Eu saio depois do almoço. Olha, se na minha ausência vier procurar-me quem quer que seja, dize-lhe que tenha a bondade de esperar um pouco. Não me demorarei.
Mal tinha acabado de pronunciar estas palavras, quando vibrou fora a campainha. A criada correu ao portão, e voltou logo, dizendo que um homem de meia idade e bem vestido procurava pela senhora.
— Faze-o entrar para a sala.
E a criada fez entrar o Dr. Roberto.
— Desculpe-me, se tomo a liberdade de incomodá-la, minha senhora sem ter a honra de conhecê-la, mas desde ontem que ando doido por saber qualquer notícia a respeito de Gregório; e, já porque me consta que ele não lhe é igualmente indiferente, como porque sei que V. Exa. conversou com a noiva e conversou também com a polícia, não resisti ao desejo de vir pessoalmente pedir-lhe que me diga com franqueza o que é feito desse pobre moço, a quem estimo como se fosse meu filho. Ia ser seu padrinho de casamento e fui por bem dizer o padrinho do seu amor...
— Ah!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.