Por Aluísio Azevedo (1884)
A criada recuou estupefata. Agora o seu rico amo lhe parecia simplesmente doido. Que diabo queria dizer aquilo?!...
O Borges compreendeu o espanto da rapariga e disfarçou:
— Sim; sim! Não era uma simples questão de lá ir!... Isso seria o menos.
Puf!
— Então? animou-se a perguntar Cecília.
Mas é que eu queria entrar sem que minha mulher contasse comigo, percebe?...
A criada fez-se vermelha.
— Vosmecê então desconfia de minha ama?! Que aleive, meu Deus! Uma injustiça assim! Desconfiar de uma senhora que é mesmo um anjo! Uma senhora que...
— Não! não é isso, filha! Quem lhe falou aqui em desconfiança?! Ninguém desconfia de sua ama. Está a tomar o pião à unha! — ninguém conhece melhor minha mulher do que eu!
— Ah! respirou a criada, credo! até me deu uma coisa na boca do estômago!
— Está claro que sua ama, nesse sentido, é o beijinho das esposas! Não tenho que me queixar, graças a Deus! Mas eu queria lá ir, sem que ela me esperasse; percebe? É uma fantasia como outra qualquer!... Vosmecê nem tem que se comprometer com isso... Ela, no fim de contas, é minha mulher, que diabo!
— Meu amo quer que eu lhe arranje a chave do quarto?...
— Qual! Isso não adianta nada! Ela tem um ferrolho, fechadinho por dentro.
— É exato, é! disse a criada, lembrando-se de já ter visto o tal ferrolho.
— Pois aí é que bate o ponto! Trata-se de arranjar os modos de abri-lo por dentro, sem que ela o saiba, compreende?
A criada ficou a pensar. Mas para que exigia o amo semelhante coisa?... A senhora podia ficar maçada e voltar-se contra ela!...
— Não tenha receio! disse o Borges. Eu respondo por tudo! Valha-me Deus!
não é nenhum crime querer um homem entrar no quarto da sua mulher!...
— Vosmecê então promete?...
— Que a não deixo ficar mal? Ora! nem tem que saber!...
— Não e isso... digo: ajudar-me no meu...
— No seu casamento?... Pode ir descansada, contanto que arranje o que lhe disse.
Ficou assentado que Cecília nessa noite se esconderia no quarto da senhora, e, quando esta já estivesse dormindo, abriria cautelosamente o tal ferrolho, que ela, por cautela, untaria previamente com azeite. E se a criada guardasse bem o segredo de tudo isso, nem só teria o seu enxoval prometido, como ainda havia de chimpar um par de brincos à moda.
— Mas veja lá agora se vai dar com a língua nos dentes!...
Foram as últimas palavras de Borges.
A criada saiu dali para ir ter com o Roberto.
— Esta noite não te posso aparecer senão mais tarde, disse-lhe ao vê-lo.
Tenho que ficar no quarto da senhora.
— Há alguma novidade?
— Não! É cá uma coisa. É cá um negócio com o patrão! — E ria-se. — Eu não te posso dizer mais nada!...
— Olé! Então, é coisa de segredo?...
— Estou a dizer que é, homem!
— Segredo! Você tem segredos com o patrão?!
— Mau, que me tomas o pássaro no ar! Eu nada tenho com o patrão! Tenho é de ficar no quarto da senhora!
Roberto mordeu a ponta do bigode:
— Tu premeditas alguma, raio de uma peste! Já! dessem bucha p'r'aí, se não queres que eu te faça falar por outro modo!
— Mas é, que eu não te posso dizer nada! Só o que te afianço, é que as coisas vão mudar de figura! Não tens mais razão de demorar o nosso casamento; o amo cai com o enxoval e ainda com uma ajuda de custas! Heim? que te parece?
— Parece que tudo isso me cheira a patifaria! Donde saiu agora essa bondade do patrão?!
E vendo que a criada não respondia:
— Não tencionas desembuchar, criatura?!
— É que se dou com a língua nos dentes, vai tudo por água a baixo!
— Ora, deixa-te de tolices e conta lá o que houve! Bem sabes que entre nós não há segredos!
— E antes houvesse! Mal fiz eu em permitir umas certas coisas antes do casamento!... Se não fosse isso, você com certeza não me trataria desse modo, e já teria me levado à Igreja!
O Roberto sacudiu os ombros.
— É! fez Cecília, muito queixosa. Até aqui toda a dificuldade era o enxoval; venho dizer-lhe que o patrão se encarrega disso, e você, em lugar de despachar-se por uma vez, ainda me dá muxoxos e põe-se a desconfiar de mim! Tola fui eu em ir atrás de cantigas! Diabo do traste!
— Deixa-te tu de cantigas e vamos ao que interessa!... Despeja p'r'aí o que houve!
— Não despejo nada! Você não me merece coisa alguma, é um velhaco; enquanto eu me fiz tesa, não lhe faltaram maneiras; agora é isto que se vê!...
E começou a chorar:
— É preciso não possuir um bocado de consciência para enganar desta forma uma pobre rapariga, que nunca teve pecha que lhe botassem.
— Guarda as lamúrias para outra ocasião, filha!
— Pois se é como eu digo!... Ingrato! Se eu não o quisesse tanto, não estava agora aqui me arreliando!
— Deixa-te de asneiras... fez o criado, passando-lhe por condescendência a mão na cabeça. Não te podes queixar — eu também gosto de ti!
— Sim, sim: mas o casamento não ata nem desata! dizia ela, soluçando.
— Ora! E que teríamos lucrado nós em nos termos já casado?...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.