Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Subir o morro do Castelo, percorrê-lo, estudar, embora muito rapidamente, a sua história e descer enfim desse velho e desprezado ca pitólio da cidade do Rio de Janeiro, sem ter parado, por alguns minutos ao menos, diante do antigo colégio dos jesuítas, fora o mesmo que ir a Roma e não ver o papa.

Paremos, portanto, defronte desse bem pouco bonito e não pouco interessante edifício que se mostra, como todos sabem, e quem quer vê, no morro do Castelo, à mão esquerda de quem sobe pela ladeira chamada no outro tempo do colégio e agora da misericórdia, e tal qual era no século passado, com a exceção de um alegre e elevado terraço que havia na sua extremidade do lado direito, e que recentemente recebeu teto e janelas e oferece novas acomodações na casa.

Não farei uma descrição do edifício, nem levarei os meus companheiros de passeio a visitar suas numerosas salas e seus corredores, que sucessivamente têm ouvido orações e misteriosos conselhos de jesuítas, gemidos de doentes e moribundos, lições de respeitáveis lentes e cantos e risadas de estudantes de medicina, e outra vez lamentos de enfermos e suspiros de agonizantes.

Não farei descrições, repito, e limitar-me-ei a lembrar alguns pontos principais da história dessa casa grande.

Já disse em outro lugar que os jesuítas entraram no Rio de Janeiro com Estácio de Sá, e que arranjaram logo o seu ninho na cidade nascente, fundada por Mem de Sá em 1567.

Da Crônica da Província do Brasil, do padre Simão de Vasconcelos, copio a lembrança desse fato.

“... No coração da cidade deu Mem de Sá sítio, onde os padres escolheram, para fundação de um colégio e logo em nome de S. A. o sereníssimo Rei D. Sebastião, de saudosa memória príncipe liberal, lhe aplicou dote de renda necessária para sustento de até cinqüenta religiosos, que aceitou e agradeceu em nome de toda a companhia o P. visitador Inácio de Azevedo. A escritura autêntica do dito dote se passou depois em Lisboa, firmada pela mão real em 6 de fevereiro do seguinte ano de 1568.”

Os jesuítas foram os mais felizes dos primeiros habitantes da cidade do Rio de Janeiro. Porque, como fica dito, tiveram logo segura a sua subsistência à custa do Estado e puderam muito desembaraçadamente meter mãos às obras do seu colégio, que levantaram e foram au mentando, sem que, contudo, conseguissem acabá-lo todo com a grandeza que tinham planejado, pois que, em 1759, deixaram a igreja apenas começada, e paredes e muralhas imensas que prometiam um edifício majestoso.

Os padres da Companhia de Jesus foram sempre e em toda a parte muito buliçosos e rusguentos, e no Rio de Janeiro achavam-se em luta constante com o povo, e por vezes criaram sérios embaraços ao Governo.

Ligando-se à autoridade eclesiástica, que em compensação apadrinhava os seus interesses temporais, os jesuítas a protegiam em suas pretensões de invadir as prerrogativas do poder civil.

Tratando de aumentar suas riquezss com a posse de extensos territórios, os padres da Companhia rompiam em contestações com o povo, que era apoiado pela Câmara, que chegou uma vez a ser excomungada, e tornavam-se aborrecidos pela sua ambição inexcusável.

E finalmente, defendendo com ardor a liberdade dos índios, que lhes fazia muita conta, servindo aos seus cálculos de poder e de engrandecimento, viam-se constantemente em contendas com os colonos.

Em conseqüência de uma dessas questões de índios, levantou-se uma vez o povo da cidade do Rio de Janeiro (e também em São Paulo, onde a desordem tomou caráter muito mais sério), e os jesuítas viram-se ameaçados no seu próprio colégio.

Eis o caso. Irritados pelo arrojo dos sertanejos paulistas que, perseguindo o gentio, chegavam a ir atacar e escravizar os pobres índios nas próprias missões dos jesuítas, e ainda não menos ressentidos do proceder dos colonos do Rio, que compravam aos paulistas os selvagens escravizados, mandaram os padres da Companhia dois dos seus como emissários, um a Roma e outro a Madri, para trazerem dessas cortes as providências que mais desejavam, e com efeito, receberam em 1640, do papa Urbano VII, a publicação no Brasil da bula de Paulo III a favor dos índios do Peru, declarando incorrerem em excomunhão os que cativassem, vendessem, traspassassem ou se servissem dos índios.

Era então Governador do Rio de Janeiro Salvador Correia de

Sá e Benevides, homem distinto, valente capitão e chefe severo, e o Padre Albernaz exercia também nesse tempo o cargo de administrador eclesiástico e mostrava-se muito favorável aos padres da Companhia.

A bula foi apresentada a Albernaz e os jesuítas exultavam já com o seu triunfo, quando saíram a campo com embargos a Câmara e o povo, e este, não contando muito com a justiça oficial, foi de voz em grita reunir-se em frente do colégio, mostrando-se sinistramente disposto a dar uma lição tremenda aos filhos de Loiola.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...167168169170171...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →