Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
O morro do Castelo não se chamou nem havia razão para ser chamado do Castelo, nos primeiros tempos. O padre Simão de Vasconcelos, falando da fundação do colégio dos jesuítas na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, não dá nome ao sítio onde se estabeleceu o colégio, e a carta régia da rainha regente, que permitiu tal fundação, diz apenas “um segundo colégio na capitania de S. Vicente”. E assim o diz, porque o Rio de Janeiro estava dentro dos limites dessa capitania.
Morro do S. Sebastião foi, sem dúvida, o primeiro nome que recebeu o monte, berço primitivo da capital do império do Brasil, e assim se encontra ele designado em algumas memórias e documentos antigos. Donde lhe veio tal denominação é tão claro que nem tomo o trabalho de explicar.
Quando começou esse morro a chamar-se do Castelo não sei bem, mas é de supor que fosse no primeiro quarto do século décimo sétimo, depois que o governador Martim de Sá fez construir uma fortaleza na eminência do monte, com grande circunferência, diz Rocha Pita, e feita em um semicírculo pela parte da cidade, e pela outra fechada com a torre da pólvora.
Esta obra de defesa foi cerca de cem anos depois desprezada, e aí se colocou em tempos muito mais próximos o telégrafo, tendo sido antes de 1711 construída outra praça mais ampla e mais regular, dentro da qual, e no meio de um espaçoso pátio, se abriu uma profunda e famosa cisterna.
Pouco mais ou menos nesta mesma época, isto é, logo depois do ataque da cidade do Rio de Janeiro pelos franceses comandados por Duclerc, levantou-se um reduto que cobria o desembarque nas praias de Santa Luzia e de N. S. da Glória, e como fosse dedicado a S. Januário, deu-se a essa parte do monte que fica da igreja de S. Sebastião, ou Sé Velha, para o lado do convento da Ajuda o nome de S. Januário. Mas houve por isso mesmo não pouca gente que chamasse indistintamente todo o morro ora do Castelo, ora de S. Januário.
No reduto de S. Januário estabeleceu-se o laboratório de fogos artificiais, como diz Pizarro.
Vivemos, graças a Deus, em tempos de perfeita paz, e em que não há receios nem de invasões de inimigos externos, nem do flagelo de guerras civis. Dessas fortalezas restam, pois, unicamente vestígios, e no leito da primeira que se construíra no Castelo vê-se hoje um jardim modesto que, em letras de verde relva, se anuncia dedicado ao belo sexo pelo diretor do telégrafo ali levantado, o excelente velho coronel Gabizo, que, apesar dos seus cabelos brancos e avançados anos, folga ainda de ver engraçados e alegres ranchos de moças bonitas, aprazendo-se e passeando nos seus domínios.
Com efeito, o telégrafo do Castelo, com seu jardinzinho e seu pátio, suas ruas e sua fonte, e sobretudo, com a sua feliz situação, avassalando a cidade do Rio de Janeiro e a magnífica baía de Niterói, é um dos mais freqüentados e estimados passeios da capital, e principalmente aos domingos e dias feriados não há tarde em que uma multidão festiva, ruidosa de contentamento e atraída pelo mais formoso panorama, não vá aproveitar-se das inocentes e suavíssimas delícias que lhe facilita o sempre obsequiador coronel Gabizo, ali no trono dos seus estados telegráficos.
Naquele sítio aprazível e encantador os olhos têm sempre um quadro admirável a contemplar na majestosa natureza do Rio de Janeiro, os ouvidos têm às vezes segredinhos misteriosos e ternos a roubar a namorados que se atraiçoam em seu embevecimento, os corações perigos a correr expostos à impressão das graças e da beleza de mil jovens interessantes e lindas, que bebem a água da Carioca, água encantada e mimosa que, conforme dizem muitos, e entre esses Rocha Pita, é fama acreditada em seus naturais que “faz vozes suaves nos músicos e mimosos carões nas damas”. E os pulmões, enfim, exultam, respirando um ar livre, puro, suave e bem diverso daquele com que a ilustríssima Câmara Municipal infecciona e envenena o respeitável público nas ruas imundas da cidade.
Ah! Eu contava despedir-me do morro do Castelo neste primeiro passeio à Sé do Rio de Janeiro, e reconheço agora que não se deixa este célebre monte com duas razões e meia.
Tenho ainda muito que dizer a respeito dele. Mas é de regra que não se faça um longo discurso sem molhar a palavra. A regra é parlamentar. Foi estabelecida na Câmara temporária, adotada por unanimidade de votos no Senado, e portanto, posso bem admiti-la nos meus passeios.
Vou beber um copo d’água.
No corpo legislativo quem paga os copos d’água (e são caros como brilhantes sem jaça) é o tesouro público. Neste meu passeio quem mo vai pagar é o meu velho amigo o coronel Gabizo.
Descansem, pois, os meus companheiros de passeio, enquanto molho a palavra.
II
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.