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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Rocha Pita, ainda mais positivo, tratando da fundação da cidade do Rio de Janeiro, escreve o seguinte: “Deu-se-lhe o nome de S. Sebastião, a cujo patrocínio atribuíram todos aquela vitória, em que houve indícios certos (como é tradição constante) que fora nela capitão, sendo por muitas pessoas visto no combate pelejar diante dos portugueses um mancebo tão valoroso quanto desconhecido, que a piedade e a devoção julgou ser o glorioso santo ao qual haviam tomado por protetor, memória que sempre conservou aquela cidade nos cultos de padroeiro que lhe dedica.”

Entrego a tradição aos meus companheiros de passeio tão fielmente como a recebi. Dei aos pais a criança, e portanto, estou livre de toda a suspeita de paternidade.

Mas não se comem trutas a bragas enxutas. S. Sebastião tornara invictos, porém não invulneráveis, os portugueses. Estácio de Sá foi na peleja ferido no rosto por uma flecha, e morreu depois de não poucos dias de sofrimento, recebendo sepultura sob o teto de palha da igreja que levantara.

Mem de Sá, que era obrigado a voltar para a cidade do Salvador, capital do Brasil, resolveu primeiro mudar da Praia Vermelha para melhor posição o assento da nova cidade, e acertou escolhendo um monte que depois se chamou do Castelo, e a praia que lhe fica vizinha. Deu logo princípio aos trabalhos, e retirando-se, enfim, nomeou governador do Rio de Janeiro outro sobrinho seu, Salvador Correia de Sá.

Indubitavelmente o novo governador, Salvador Correia de Sá, prestou muitos serviços e mostrou-se digno da honra que lhe fizera e da confiança que depositara nele seu tio. Mas esta sucessão de parentes não sei se trouxe consigo um cheirinho de mau agouro... Dir-se-ia que o Rio de Janeiro estava destinado a ser uma espécie de feudo de um círculo privilegiado. Eu embirro com o domínio dos sobrinhos de seu tio sobre qualquer terra e qualquer povo. É uma simples embirração. Vamos adiante.

Roma não se fez num dia, e portanto, não é de admirar que a cidade do Rio de Janeiro não se fizesse em um ano.

Salvador Correia de Sá animou os colonos portugueses, excitou-os a levantarem suas cabanas e deu-lhes bom exemplo, construindo no morro do Castelo o seu primeiro palácio, que, sem dúvida, foi de pau-a-pique e teto de palha. Os jesuítas arranjavam o seu ninho no Rio de Janeiro, tendo um dos olhos fito no gentio, o outro no futuro e a alma ocupada ao mesmo tempo do serviço espiritual de Deus e das conveniências temporais deste mundo. Eram (e dizem que continuam a ser) uns padres que sabiam arranjar perfeitamente os seus negócios, adorando a Deus e entendendo-se com o Diabo.

A nova cidade ia-se desenvolvendo. Construíam-se casas no morro do Castelo e perto do mar no sítio ocupado depois pela Santa Casa da Misericórdia e em suas circunvizinhanças.

A nascente e já desprezada povoação da Praia Vermelha ficou sendo chamada Vila Velha, até que esse mesmo nome perdeu com o desaparecimento das cabanas que a formavam e que pouco e pouco foram caindo.

O que eu não sei ao certo, mas admito como provável, é que Salvador Correia de Sá mandasse levantar no morro do Castelo alguma capela provisória. Mas é positivo que desde logo esse ativo governador meteu mãos à obra de uma nova igreja mais decente feita de grossa taipa, como permitiam as circunstâncias do tempo. Infelizmente, porém, esses trabalhos pararam com a terminação do seu primeiro governo.

No ano de 1568, ou no seguinte, Cristóvão de Barros veio substituir a Salvador Correia de Sá, e não deixou seu nome lembrado por feito algum importante no governo da nascente cidade. Em 1574 o Dr. Antônio Salema sucedeu a Cristóvão de Barros, trazendo o elevado caráter de governador-geral das capitanias do sul do Brasil, e cuidou mais em matar e escravizar índios do que no culto divino. Entendeu lá para si o sabichão magistrado que era menos digno do seu alto poder acabar a casa começada para S. Sebastião do que incendiar aldeias de gentio, fazer horrorosas matanças nesse rude povo e lançar em cadeias de nefanda escravidão alguns mil caboclos que caíram em suas mãos, quando ele já estava bem farto de sangue. Não construiu, destruiu. A beca do famoso magistrado deixou no Rio de Janeiro um rasto de sangue e de horrores. Era uma beca que levava fogo na cauda.

Dizem que o Dr. Antônio Salema foi um grande civilizador e que pôs tudo em boa ordem nos seus domínios. Ah! meu Deus quanto aleive se tem levantado às idéias de civilização e de ordem! Eram capazes de dar patente de civilizador a um tigre, e de chamar ordeiro a um algoz!

Em 1578, Salvador Correia de Sá, tornando a ser encarregado do governo do Rio de Janeiro, deu novo impulso à obra da igreja que mandara construir no alto do morro do Castelo, e conseguiu enfim vê-la de todo acabada no ano de 1583.

Foi esta a segunda igreja de S. Sebastião no Rio de Janeiro.

(continua...)

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