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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

O primeiro desses quadros representa o incêndio do recolhimento e capela de N. S. do Parto, lendo-se abaixo da pintura a seguinte nota: “Fatal e rápido incêndio o que reduziu a cinzas em 23 de agosto de 1789 a igreja, suas imagens e todo o antigo recolhimento de N. S. do Parto, salvando-se unicamente ilesa dentre as chamas a milagrosa imagem do mesma Senhora.”

Cumpre observar que nesta nota vem marcado o dia 23 de agosto, como aquele em que teve lugar o incêndio. É um erro a que deu causa o haver-se ateado o fogo nas primeiras horas do dia 24. Todos os cronistas marcam o mesmo dia e a mesma data que marquei, exceto o padre Luís Gonçalves dos Santos, que, nas suas Memórias, diz na noite de 23 para 24 de agosto de 1787, o que é erro ainda maior.

O segundo quadro representa a capela e o recolhimento já reedificados, e traz, como o primeiro, a sua nota: “Feliz e pronta reedificação da igreja e todo o antigo recolhimento de N. S. do Parto, começada no dia 25 de agosto de 1789 e concluída em 8 de dezembro do mesmo ano.”

Nestes painéis se descobrem as figuras do vice-rei Luís de Vasconcelos e do mestre Valentim, e são ainda mais apreciáveis, e o serão dobradamente para os vindouros, porque aí se podem estudar os trajos da época desenhados com fidelidade e beleza.

Estes dois painéis e o retrato de Luís de Vasconcelos são do mestre Leandro Joaquim.

Além das obras de arte que acabo de mencionar há na sacristia uma porção de parede coberta de pés e pernas, mãos, cabeças, seios e até meninos de cera, cumprimentos de promessas devotas e agradecidas à bondade e misericórdia divina. São os testemunhos em cera dos milagres que têm dado assunto a mil epigramas de certos viajantes que, quanto menos observam, mais falham.

A capela propriamente dita contém, além do altar-mor, onde é adorada N. S. do Parto, mais quatro altares, e ainda um portátil, do lado da Epístola, e uma capelinha de N. S. das Dores, do lado do Evangelho.

A imagem de N. S. do Parto ainda hoje é, e deve ser sempre a mesma que foi salva das chamas.

Os quatro altares laterais têm um painel de Santa Cecília e alguns outros, que são todos obra de Leandro Joaquim.

Duas palavras sobre este artista.

Leandro Joaquim foi contemporâneo do célebre Manuel da Cunha, que pintou o teto da capela do Senhor dos Passos na capela real e hoje imperial. Teve um pincel suave, como diz o Sr. Porto Alegre, e deixou muitos quadros na igreja de S. Sebastião do Castelo, na de N. S. do Parto, conforme acabamos de ver, e provavelmente em outras.

Nada mais sei de Leandro Joaquim, e pena é que tão pouco se sabia dos nossos artistas.

Acabemos com o estudo da capela.

O coro chama agora, e por último, a nossa atenção. Encontram-se aí, embora em quase abandono, os sinais postremos do antigo recolhimento.

O coro da capela, aberto aos músicos que devem acompanhar com seus cantos as solenidades religiosas, está colocado entre um outro, defendido por grades de pau, que era o coro das recolhidas, e o locutório, que se mostra ainda no fundo da capela, vedado por grades também de pau.

O locutório servia também de comungatório às recolhidas e, além de comungatório, de sepulcrário a essas pobres criaturas.

Hoje em dia, está o antigo locutório reduzido a armazém de trastes velhos. Quem entra, porém, ali, ainda vê no meio de cadeiras e de armários desconjuntados o esquife em que eram por algumas horas depositados os cadáveres das recolhidas que morriam, e ainda pode contar as sepulturas que as esperavam, cárceres da morte preparados no seio de um cárcere da vida.

Não tenho mais que descrever. Restam-me, porém, algumas, bem poucas, recordações a deixar aqui registradas.

A capela de N. S. do Parto já teve o seu tempo de esplendor.

Celebravam-se nela festas pomposas, sendo entre outras muito notável a de Santa Cecília, cujo culto os músicos tinham e têm tomado a seu cargo.

Ouviram-se nessa capela os nossos principais oradores sagrados. Mas, por certo, que não se pode contar no número deles um padre Fuão de tal Macedo, que andava de hábito de Rilhafoles, e que ali ia pregar muitas vezes com o fim de doutrinar o povo.

Esse padre Macedo não pregava sem ajudante, e o seu ajudante era sempre algum menino por ele industriado.

O padre subia ao púlpito, e em baixo do púlpito postava-se o menino.

Começava o orador o seu discurso, e imediatamente estabelecia um diálogo com o ajudante, que em caso de aperto, por esquecimento do seu papel, tinha o recurso de responder a tudo, bradando: “Sim, padre! Sim, padre!”

Ainda vivem pessoas que ouviram alguns desses sermões em diálogo, pregados pelo padre Macedo.

(continua...)

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