Por Aluísio Azevedo (1884)
— Uma súcia! uma cambada! sintetizava ele. — Se fosse preciso despedir dali os que não prestam, não ficaria nenhum!
O outro protestava, gritando e batendo punhadas sobre a mesa. Havia já dois copos quebrados.
O criado trouxera a sobremesa, – uma salada russa.
Paiva pediu gelados e quis que lhe dessem uma omelette au rhum. “Não podia passar sem isso ao almoço!” Suavam.
Amâncio tornava-se expansivo: falou de seus amores na província; contou as suas intenções a respeito da mulher do Campos.
Ela parece que o que tem é medo, dizia. – Mas eu sou perseverante! Espero!
— Menino, segredou-lhe o Paiva. — Vai aproveitando, porque é isso o que se leva deste mundo!
— E o mais são histórias!...concluiu o filho de Vasconcelos.
E fazia-se muito fino, perigoso, e continuava a parolar com embófia, loquaz um pouco sacudido pelo almoço.
Coqueiro estudava-o de socapa, a seguir-lhe os gestos, a fariscar-lhe as intenções. Dos quatro era o único que não estava tonto: seus olhos, pequenos e de cor duvidosa, conservavam a mesma penetração e a mesma fixidez incisiva de ave de rapina; sua boca estreita, bem guarnecida e quase sem lábios, tinha o mesmo riso arqueado, mal seguro e frio, de quem escuta e observa.
Era de altura regular, compleição ética, rosto comprido, de um moreno embaciado, pouca barba, pescoço magro , nariz agudo, mãos pálidas e secas, voz doce e cabelo muito crespo, de colorido incerto, entre castanho e fulvo. Tinha vinte e sete anos, mas aparentava, quando muito, vinte e dois.
O Paiva erguera-se para fazer um bestialógico, e soltava de enfiada frases sonoras e ocas de sentido: ouvia-se falar em “gazofiláceos, camelos da Patagônia e constelações híbridas do mapa-múndi”. Simões, o macambúzio, derreara a cadeira contra a parede e jazia a palitar a boca, estendido para trás, em uma posição de homem farto: barriga ao vento, braços moles e um olhar muito pando, que se lhe entornava por todo o rosto em sorrisos de preguiça. Amâncio reatava a sua conversa com o Coqueiro.
— É como lhe digo, recapitulava este. — Aquilo não é um hotel, é uma – casa de família! Não temos hóspedes, temos amigos! Minha mulher é quem toma conta de tudo!...E dando à voz um tom grave: — Ela é muito asseada, muito exigente em questões de comida! Você não imagina!...Ao almoço temos três pratos, a escolher, leite, chá ou café, e vinho ;pelo almoço pode calcular o que não será o jantar! — E depois é preciso observar a qualidade dos gêneros!...enfim, só mesmo você indo ver!
Amâncio reprometia.
— Fica-se muito melhor em uma casa de família, continuava o outro. A vida em hotel ou a vida em república é o diabo: estraga-se tudo, — o estômago, o caráter, a bolsa; ao passo que ali você tem o seu banho frio pela manhã, torradas à noite e, se cair doente (o que lhe não desejo), há quem o trate, quem lhe prepare um remédio, um caldo, um suadouro, um escalda-pés...Olhe! até, se você quiser eu...
Mas a porta abriu-se com violento empuxão, e uma mulher loura, gorda, vestida de seda amarela, precipitou-se no gabinete, espavorida, a soltar gritos.
Vinha-lhe no encalço um sujeito idoso, cheio de corpo, o chapéu a ré, o olhar desvairado e convulso.
— Podes ir para onde quiseres, que eu não te deixo! berrava ele em fúria, a dardejar o guarda-chuva sobre as costas da perseguida; esta corria de um lado para outro, procurando escapar-lhe, mas o sujeito agarrou-a pelos cabelos e consegui trazê-la contra si, levando os dois aos trambolhões tudo o que encontravam no caminho.
Em menos de um segundo era completa a desordem no gabinete. Caíram cadeiras; a mesa estremeceu com um encontrão, e a saleira e duas garrafas perderam o equilíbrio e tombaram, varrendo copos e esmagando pratos. O tal guarda–chuva havia num dos golpes espatifado os globos do candeeiro, e um dos fragmentos do vidro fora de encontro ao espelho e o fizera em pedaços.
— Isto não tem jeito! Gritou o Paiva ao homem. — O senhor faz mal em invadir desta forma um gabinete ocupado!
Mas o invasor já não ouvia coisa alguma e acabava de sair aos pescoções com a sujeita.
Paiva atirou-se-lhe à pista, armado de uma garrafa. O gerente do hotel apareceu, porém, cortando-lhe o passo e pedindo-lhe, por amor de Deus que não fizesse caso, que deixasse lá os dois se esbordoarem à vontade!
— Era o costume! Acabariam por entender-se perfeitamente!.
— O senhor então acha que isto é razoável?! perguntou o Paiva furioso. — Não, decerto!
E o gerente dava aos rapazes toda a razão: Deviam estar maçados, mas que tivessem paciência! que desculpassem! Não fora possível evitar tão grande sensaboria: O Brás, em questões de mulheres, perdia sempre a cabeças! E ele não sabia que diabo de rabicho tinha o basbaque pelo demônio da Rita Baiana, que, de vez em quando, era aquilo!
— Pois que se vá enrabichar para o diabo que o carregue!
— Decerto, decerto! apoiava o gerente, procurando acalmar o estudante.
— Ajuste as contas onde quiser, menos nos gabinetes ocupados pelos outros!
Arre!
— É exato! Os senhores têm todo o direito, mas por quem são, não façam caso! Não façam caso.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.