Por Visconde de Taunay (1871)
Deixando a Machorra, adotara-se a ordem compacta. Dos dois lados da coluna, e para lhe facilitar o movimento, os atiradores, que a flanqueavam, cortavam a macega; pois mudara a natureza do terreno. Não mais tínhamos a grama curta e fresca dos prados que acabávamos de atravessar. Estava o solo coberto desta perigosa gramínea que atinge a altura de um homem, e a que chamam macega, e cujas hastes duras e arestas cortantes tornam, em muitos lugares do Paraguai, a marcha tão penosa. Transpusemos o Apa em frente a Bela Vista; o 20.° de infantaria de Goiás formava a vanguarda, sob o comando do capitão Ferreira de Paiva. Avançando á frente dos batedores, a quem comandava, jovem e valente oficial, de nome Miró, fadado á morte próxima, víamos o velho Lopes, apressurado, montando belo cavalo bafo um daqueles animais que o filho e os companheiros deste haviam tomado aos paraguaios.
Estava no auge da alegria, o olhar como o de um rapineiro, a fitar Bela Vista, que começávamos a avistar. De repente, no momento em que acabávamos de chegar ao seu lado, percebemos que a fisionomia se lhe anuviara: "A perdiz, dissenos, voa do ninho e nada nos quer deixar, nem os ovos". Mostrava ao mesmo tempo tênue fumo que subia aos ares. "São as casas de Bela Vista que incendiaram".
Foi a noticia levada ao Coronel que, avisado também por um sinal do alferes Porfirio, do batalhão da frente, fez acelerar a marcha. Começamos a correr, precipitando-se a linha dos atiradores do 20.° para o rio; mas a sua frente já se antecipara pequeno grupo de que fazia parte o nosso guia. Com grande espanto nosso não pareciam os inimigos pretender disputar-nos o passo; retiravam-se do Apa como já se haviam afastado da Machorra, indo estacar a uma distância bastante grande, imóveis sobre os cavalos.
Cabia-nos, pois, o feliz ensejo de ser os primeiros a atravessar a fronteira, pisar á esquerda do Apa e sentir sob os pés o solo paraguaio.
Transposto o rio, galgamos num ápice uma eminência que nos ficava fronteira, e nos proporcionou a vista próxima da fortaleza e da aldeia: ambas ardiam. Pelo interior e vizinhança vagavam ainda paraguaios a pé, retardados pelo pesar da presa que nos abandonavam e a ira que os levava a tudo devastar. Outros, em maior número, e a cavalo, retiravam-se desordenadamente.
Pôs-se o nosso guia a provoca-los com assobios e apóstrofes de desprezo, ante as quais difícil nos foi conter o riso. Teriam podido volver sobre nós estes robustos cavaleiros, e com as possantes montarias e pesados sabres facilmente destroçar o nosso pequeno grupo, a meio montado e mal armado, como nos achávamos.
Mas tal idéia não nos ocorria e a Lopes ainda menos. Este intrépido velho quase sempre nos precedera na carreira, a galope; e por mais esforços que fizéssemos, a todo o instante redobrava de velocidade, pensando na mulher, duas vezes agarrada e arrastada prisioneira para o Paraguai, em todos os seus, nos amigos e companheiras de existência, com ela prisioneiros. Mil recordações de atrocidades antigas e recentes lhe incutiam violenta sede de vingança.
Uma vez efetuada a passagem pelo corpo de exército, o forte, que apenas consistia em sólida estacada de madeira, foi ocupado, assim como a vila, por grande destacamento. A linha de atiradores do 20.° batalhão, formada à esquerda, pôs-se em movimento para ir atacar os paraguaios imóveis. Vimos, então, que haviam arvorado alguma coisa branca. Não tardamos, porém, a perceber que se afastavam devagar, tendo em mente, atrair-nos para algum mato, onde caro pagaríamos excesso de confiança em sua lealdade. Soubemos tarde que tal lhes fora, com efeito, o plano. Acreditavam precisar de algumas vitimas para coonestar uma retirada por demais precipitada e que não podia deixar de atrair a cólera dos chefes fossem quais fossem, aliás, as ordens deles recebidas.
Assim se passou 21 de abril; os dias imediatos consagramo-los ao repouso e exame da situação. Todo o corpo de exército transpusera a fronteira e acampara ao sul da fortaleza, ali apoiando a ala direita, ao passo que a esquerda se prolongava pela mata do rio. Reinava, então, no acampamento abundância de víveres frescos. Deles tínhamos a maior necessidade; e a nossa gente pôde gozar dos últimos bons momentos que a sorte nos reservara. Parecia nosso chefe mais sereno do que habitualmente, mostrando-se até confiante. Começou qualificar a coluna expedicionária: Forças em operações Norte do Paraguai e todos os seus ofícios, como aliás, imita-lo, todas as nossas cartas, destinadas a Mato Grosso, Goiás e ao Rio de Janeiro (confiadas a Loureiro, que então de nós se despediu) traziam no sobrescrito: Império do Brasil.
No entanto, do alto do morro da Bela Vista, viam-se de dia numerosos cavaleiros inimigos, de sentinela ao pé de grandes buritis. À noite ousavam alguns acercar-se do acampamento ainda mais.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.