Por Bernardo Guimarães (1872)
– Não tenha susto, meu tio; queria somente desabusar este novilho; este diabo está muito arisco; precisa levar todos os dias uma boa esfrega; senão tão cedo não serve para o carro.
– Não duvido, meu sobrinho; mas não é quebrando-lhe as costelas nesse chão duro, que virá a servir. Por favor modere essas esfregas, que são mais de matar, que de amansar.
– Não tenha cuidado, meu tio; estou muito acostumado a lidar com este bicho... Viu, minha prima, como se joga um pealo bem jogado?
O amalucado rapaz vingava-se assim nos pobres bois da raiva, com que estava contra Paulina e Eduardo, e enquanto assim desabafava procurando atrapalhá-los escutemos a curta conversação, que tiveram à sombra da gameleira, conversação a cada passo interrompida pelos gritos e algazarras do atabalhoado primo. Foi Paulina quem a encetou pelo seguinte modo:
– Como lhe vi aqui tão sozinho e tão triste, sr. Eduardo, tomei a liberdade de vir trazer-lhe estas laranjas para se refrescar e também se distrair com elas. Bem vejo, que é fraca distração, mas ao menos enquanto as descasca....
Ora, d. Paulina!... um presente de suas mãos seria bastante para acabar com toda a minha tristeza, no caso que eu tivesse tristeza no coração. Acha então a senhora, que ando triste?
– Muito, e cada vez vai-se tornando mais triste, e não é de hoje que reparo isso.
– Deveras, minha senhora?... pode ser, e nesse caso será já o efeito da saudade, que hei de levar deste belo sítio, e das pessoas, que nele moram.
Este princípio não estava mau, e Paulina a estas últimas palavras do mancebo sentiu ameigar-se-lhe o coração ao sopro de uma aura de esperança.
– Não parece, – replicou Paulina; o que pelo contrário me parece certo, é que as saudades que tem da sua terra, não lhe dão muito tempo para pensar em nós.
– Oh! perdão, d. Paulina; a senhora me faz grande injustiça: não sou ingrato a tal ponto, que as saudades dos meus e da minha terra me risquem da memória pessoas, a quem devo tantas finezas, e as quais sempre trarei gravadas no coração. Lembro-me na verdade sempre e com muita saudade de minha bela Franca; tenho lá minha mãe, parentes, amigos, e...
Eduardo interrompeu-se e suspirou.
– E mais alguma coisa, não é assim? atalhou Paulina esforçando-se por sorrir, porém com o coração num susto, numa ansiedade como quem espera a sentença, que vai decidir de todo o seu futuro.
– Sim, senhora; e mais alguém, – respondeu Eduardo com acento melancólico, – para que hei de eu negá-lo, e sempre que olho para a senhora, me lembro de uma moça que lá conheço.
– Então parece-se comigo?
– Alguma coisa... ao menos na formosura. Linda como ela, só a senhora e mais ninguém.
– Que lisonja! murmurou Paulina, que cada vez se tornava mais pálida e estava branca como papel.
– Lisonja não, senhora. Eu pensava, que não seria possível encontrar no mundo criatura tão bela como Lucinda; depois que vi a senhora, desenganei-me, e falo sinceramente e com o coração nas mãos, se não quisesse tanto bem a Lucinda, teria impreterivelmente de amar a senhora...
– Quem sabe!... disse automaticamente Paulina, desconcertada, trêmula e sem já saber o que dizia. – Então o senhor quer muito bem a essa moça?
– Muito! muito! – disse Eduardo com exaltação e sem reparar na crescente perturbação de Paulina. Amo-a sincera e ardentemente, e nunca, nunca hei de deixar de amá-la.
– Feliz mulher!... mas dizem que os moços todos são tão inconstantes...
– Pode ser... mas eu... eu nunca serei infiel... porém d.Paulina!... que tem?.. está tão pálida e trêmula! Meu Deus! está sofrendo alguma coisa?...
– Não é nada; replicou Paulina esforçando-se por mostrar-se tranqüila; – quando o sol entra, este sereno da tarde sempre me faz calafrios. É bom que me recolha. Boa-noite, sr. Eduardo.
Roberto, que com suas algazarras e proezas com os bois nada tinha conseguido no intuito de perturbar o colóquio de Eduardo e Paulina largara o laço, e saindo sem ser notado para fora do curral, e cozendo-se com a cerca do mesmo viera sutilmente postar-se junto deles, de modo que sem ser visto podia otimamente espreitá-los e escutá-los. Chegou justamente a tempo de ouvir clara e distintamente aquelas palavras de Eduardo – Amo-a muito; amo-a sincera e ardentemente, e nunca, nunca hei de deixar de amála. – Supõe para logo que eram dirigidas a sua prima, e não quis ouvir mais. Desta vez não pôde conter-se, rangeu os dentes enfurecido, e sem atender a consideração alguma puxou pela faca, que sempre trazia à cinta, e ágil como um gato saltou de um pulo para dentro do curral.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.