Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Realmente, em um país governado pelo sistema absoluto, não se podia ferir de um modo mais positivo e forte do que o fez o desembargador Petra um escandaloso patronato dos grandes.
Também é verdade que o severo magistrado contava na corte uma numerosa falange de furiosos inimigos. Mas tinha por si a confiança do príncipe real, e zombou sempre de todos eles.
Creio que por hoje basta de passeio. Mas, desta vez, fecho o segundo parêntesis que abri, e prometo que dora avante divagarei muito menos.
III
O antigo convento dos carmelitas exige agora também um breve estudo. Fazendo parte do palácio desde 1808, não pode ficar esquecido sem ofensa à exatidão histórica.
Um simples passadiço converteu aquele edifício de casa de frades em paço real; mudando-lhe, porém, a natureza, não lhe pode mudar o parecer, e o antigo convento conservou e conserva ainda a primitiva feição monástica que o apresenta sempre arquitetonicamente desarmonizado com o palácio a que se ligou.
É um aditivo que não tem relação alguma com o corpo a que foi adicionado: é um adjetivo que não concorda com o seu substantivo nem em gênero, nem em caso, nem em número: discordância completa no que diz respeito à arquitetura.
Mas pouco importa isso. Hoje em dia já estamos acostumados com essas extravagâncias que das obras de pedra e cal passaram a fazer-se sentir em obras de um outro gênero. É raro o ano em que não vemos determinarem-se discordâncias tão notáveis como aquela. Não há lei de orçamento de receita e despesa do Império que não arraste uma cauda de aditivos que se harmonizam tanto com ela como o antigo convento do Carmo com o resto do palácio.
Ao menos, porém, em 1808, uma necessidade indeclinável impôs a anexação que deu lugar àquela desarmonia arquitetônica, e atualmente nada pode desculpar a abusiva repetição dessas discordâncias administrativas.
Ora, eis aí. Insensível e involuntariamente começo a divagar outra vez! Bom foi que a tempo o conhecesse para não me adiantar muito.
Aqui vai em poucas palavras o que era o antigo convento do Carmo. Creio que não haverá quem possa notar nele mudanças sensíveis operadas nestes cinqüenta e dois anos já passados: conservou-se quase absolutamente o mesmo, o que entre nós não admira em uma casa, mas admiraria muito em um homem, porque os homens...
Pior! O antigo convento do Carmo nada tem de comum com os homens políticos.
O edifício que asilava os carmelitas começa na extrema da rua da Misericórdia, um pouco adiante da esquina da rua da Assembléia, dantes chamada da Cadeia, estende-se por toda a largura do largo do Paço até à entrada da rua Direita, onde termina com a igreja que, acompanhando o destino do convento, passou a ser capela real, como é ainda hoje capela imperial.
Pela frente da praça apresenta o edifício, além do pavimento inferior, dois andares que tinham janelas com balcões de ferro e rótulas de madeira, e que eram duas ordens de dormitórios.
Vinha logo em seguida a igreja de Nossa Senhora do Carmo, que é a capela imperial. Em primeiro lugar, levanta-se a torre, cuja entrada, que era a portaria do convento, é precedida por um alpendre sustentado por colunas de pedra. A torre é quadrangular e terminada superiormente por uma abóbada pontiaguda, em cujo cimo se observa um globo que serve de apoio ao símbolo da redenção. Um galo metálico, que é atravessado pelo pé da cruz, gira horizontalmente, obedecendo à ação dos ventos, e indica a direção destes.
Segue-se à torre uma capelinha consagrada ao Senhor dos Passos.
Três portas dão entrada para o templo. Sobre o pavimento dessa levanta-se um outro com pilastras, entre as quais abrem-se três janelas de peitoril. Acima deste pavimento ainda um terceiro, sobre o qual está montada a empena que remata em seu ápice pela cruz, e lateralmente por vasos de pedra que coroam as pilastras extremas. Entre as pilastras que sustentam a empena estavam as armas reais, como hoje estão as imperiais.
Antes de penetrar no interior da capela imperial, devo fazer duas observações: A primeira refere-se a uma alteração por que passou o antigo convento há cinco anos. A segunda não passará de uma pergunta filha da minha ignorância, e de uma idéia inocente que despertou em meu espírito o galo metálico da capela.
Há cinco anos reinava epidemicamente na capital do império a febre das empresas. O pensamento era bom, o desejo do progresso material justificadíssimo; o excesso, porém, a que se chegou fez da saúde moléstia. Tratou-se também com ardor nessa época de abrir até ao largo do Paço a rua do Cano, que devia ser toda de novo disposta, ladeada de casas magníficas, alinhada, embelecida e transformada na mais elegante das ruas da cidade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.