Por José de Alencar (1853)
fronte sobre as mãos enclavinhadas, como absorvido em fervente oração.
Não rezava, não; bem o quizera; mas um tropel de pensamentos se agitava em seu espirito abatido, que o arrastava ao passado, e o fazia reviver os annos devolvidos.
Repassava na mente seu viver de outrora, e acreditava que Deus lhe enviára do céo um anjo da guarda para o salvar. No caminho da perdição, elle o encontrára sob a fórma de uma gentil criança; e desde esse dia sentira despertarem em sua alma os estímulos generosos, que o vicio n'ella havia sopitado.
Mas porque,tendo-íhe enviado essa celeste mensageira, lh'a negára Deus quando a quiz fazer a companheira de sua vida, é unir ao d'elle d seu destino?
Ahi lembrou-se que já uma vez Deus a quizera chamar ao céo, e só pela poderosa intercessão de Nossa Senhora da Gloria a deixara viver, mas para outro.
— Antes não houvesseis attendido ao meu rogo, Virgem Santíssima! balbuciou Ayres.
N'esse instante Maria da Gloria, de joelhos aos pés do sacerdote, voltou o rosto com subito movimento e fitou no cavalheiro estranho olhar, que a todos surprehendeu.
Era o momento em que o padre dirigia a interrogação do ritual, e Ayres, prestes a ouvir o sim fatal, balbuciava ainda:
— Morta, ao menos ella não pertenceria a outro.
Um grito repercutiu pelo ambito da igreja. A noiva cahíra desmaiada aos pés do altar e parecia adormecida.
Prestaram-lhe todos os soccorros; mas embalde. Maria da Gloria rendêra ao Creador sua alma pura, e subíra ao céo sem trocar a sua palma de virgem pela grinalda de noiva.
O que tinha cortado o estame da suave bonina? Fôra o amor infeliz que ella occultava no seio, ou a Virgem Santissima a rogo de Ayres?
• São impenetraveis os divinos mysterios, mas podia nunca a filha ser a esposa feliz d'aquelle que lhe roubára o pai, embora tudo fizesse junto depois para substituil-o?
As galas da boda se trocaram pela pompa funebre; e á noite, no corpo da igreja, ao lado da eça dourada via-se ajoelhado e immovel ura homem que ali velou n'aquella posição, até o outro dia.
Era Ayres de Lucena.
XVII
O ERMITÃO
Dias depois do funesto acontecimento, a escuna Maria da Gloria estava fundeada no seio que forma a praia junto ás abas do morro do Catette.
Era o mesmo lugar onde vinte annos antes se fazia a festa do baptismo, no dia em que se dera o caso estranho do desapparecimento da imagem da Senhora da Gloria, padroeira da escuna,
Na praia estava um ermitão vestido de esclavina, seguindo com o olhar o batel que largára do navio e singrava para terra.
Abicando á praia saltou d'elle Antonio de Caminha, e foi direito ao ermitão a quem entregou a imagem de Nossa Senhora da Gloria.
Recebeu-a o ermitão de joelhos e erguendo-se disse para o mancebo :
— Ide com Deus, Antonio de Caminha, e perdoai-me todo o mal que vos fiz. A escuna e quanto foi meu vos pertence : sêde feliz.
— E vós, senhor Ayres de Lucena?
— Esse acabou; o que vêdes não é mais que um ermitão, e não carece de nome, pois nada mais quer e nem espera dos homens.
Abraçou Ayres ao mancebo, e afastou-se galgando a ingreme encosta do outeiro, com a imagem de Nossa Senhora da Gloria cingida ao seio.
Na tarde d'aquelle dia a escuna desfraldou as velas e deixou o porto do Rio de Janeiro onde nunca mais se ouviu falar d'ella, sendo crença geral que andava outra vez encantada pelo mar oceano, com seu capitão Ayres de Lucena e toda a maruja.
Poucos annos depois dos successos que ahi ficam relatados, começou a correr pela cidade a nova de um ermitão que apparecêra no outeiro do Catette, e fazia ali vida de solitario, habitando uma gruta no meio das brenhas, e fugindo por todos os modos á communicação com o mundo. Contava-se que, alta noite, rompia do seio da mata um murmurio soturno, como o do vento nos palmares; mas que applicando-se bem o ouvido se conhecia ser o canto do terço ou da ladainha. Esse facto, referiam-no sobretudo os pescadores, que ao sahirem ao mar, tinham muitas vezes, quando a briza estava serena e de feição, ouvido aquella reza mysteriosa.
Um dia, dois moços caçadores galgando a ingreme encosta do outeiro, a custo chegaram ao cimo, onde descobriram a gruta, que servia de refugio ao ermitão. Este desapparecêra mal os presentiu ; todavia puderam elles notar-lhe a nobre figura e aspecto veneravel.
Trajava uma esclavina de burel pardo que lhe deixava ver os braços e artelhos. A longa barba grisalha lhe descia ate o peito, misturada aos cabellos cahidos sobre as espaduas e como ella hirtos, assanhados e cheios de maravalhas.
No momento em que o surprehenderam os dois caçadores, estava o ermitão de joelhos, diante de um nicho que elle proprio cavára na rocha viva,
e no qual via-se a imagem de Nossa Senhora da Gloria, allumiada por uma candeia de barro vermelho, grosseiramente fabricada.
Na gruta havia apenas uma bilha do mesmo barro, e uma panella na qual extrahia o ermitão o azeite da mamona, que macerava entre dois seixos. A cama era o chão duro, e servia-lhe de travesseiro um toro de páu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.