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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

De repente, sem motivo, e sem consciência, enchiam-se-lhe os olhos d'água. As lágrimas doutros tempos eram orvalhos para as boninas de seu gentil sorriso; estas de agora corriam lentamente e deixavam nas faces um brilho lívido.

A família assustou-se com esta mudança. Às perguntas inquietas da mãe, Amália respondia que andava aborrecida; e entretanto recusava as distrações que lhe ofereciam.

Afinal, tendo perscrutado debalde a causa da súbita transformação da filha, D. Felícia a atribuiu a uma dessas moléstias nervosas, a que são muito sujeitas as moças fluminenses, pela falta de educação higiênica.

Resolveu então a família passar algum tempo fora da Corte. Foram para Petrópolis.

Nos primeiros dias, Amália recobrou a sua antiga alegria; e voltou à vida agitada e folgazã. Os passeios de carro descoberto, as apostas a cavalo, e as partidas campestres, reanimaram-lhe o gosto da sociedade e a restituíram ao seu natural.

A moça conseguiu durante alguns dias atordoar-se e submergir as suas recordações num turbilhão de prazeres ruidosos, mas que não lhe davam senão a alegria artificial do momento.

Ao cabo de alguns dias cansou. A tristeza que tinha espancado à força de movimento e agitação voltou, e mais intensa. Com esta vieram as saudades da casa de São Clemente. A moça lembrou-se da sua doce solidão; e desejou-a, como nunca havia desejado os divertimentos.

Fizeram-lhe a vontade. Recolheram-se à Corte depois de um mês de ausência. Por diversas vezes quiseram levá-la para a Tijuca ou para Juiz de Fora; mas ela resistiu sempre e com energia; foi preciso ceder.

A família projetou então uma viagem à Europa, como único meio que lhe restava para salvar a filha querida. Quando os pais comunicaram essa intenção à moça, ela recebeu o anúncio com espanto; depois foi se habituando à idéia, e, em vez de a repelir, já por fim a acolhia favoravelmente, e dizia à mãe, num ingênuo assomo de ternura:

— Não se aflija tanto, mamãe, eu lhe prometo ficar boa com a nossa viagem à Europa.

O Sr. Veiga, pai de Amália, começou a dispor os seus negócios. Contava partir no futuro mês de março, por ser já fim de ano, e não convir, na opinião dos médicos, nem à filha nem a ele, uma transição brusca do nosso verão para o inverno europeu.

D. Felícia depositava grandes esperanças nessa viagem; mas sua convicção era que só o casamento podia restituir a Amália a saúde e a felicidade perdidas.

Desde que voltara de Petrópolis, Amália trazia no fundo d'alma uma esperança, que não se animava a afagar, mas que se derramava por sua mágoa como uma gota de bálsamo. Talvez que tudo quanto vira naquela noite não fosse mais do que um momento de loucura, uma alucinação passageira do marido de

Julieta.

Hermano seduzido por aquela mulher fatal esquecera o seu juramento; mas passada a primeira fascinação, o remorso o tinha pungido; e ele sem dúvida repelira de si com horror a culpada. Amália ia pois achá-lo restituído ao amor puro e legítimo da esposa.

Com efeito o marido de Julieta, quando não saía e ficava em casa a sós, passava as tardes no sítio habitual, junto aos bambus; submerso no mesmo profundo recolhimento, que Amália observara da primeira vez.

A casa continuava solitária, tranqüila, silenciosa, como um retiro; mas à noite ainda aparecia nas janelas de Julieta o clarão sinistro, que batia nos olhos de Amália como o facho lúgubre de um sacrilégio.

Que se estava passando dentro daquele aposento, enquanto ela com os olhos cravados na veneziana feria sua alma de encontro às réstias de luz, que se enfiavam pelas rótulas?

Não poder arrancar esse obstáculo, que lhe ocultava o interior! Já não tinha escrúpulos, já não

considerava essa curiosidade uma indiscrição. Ali não era Amália quem estava, mas Julieta na pessoa dela; Julieta que tinha o direito de defender contra uma intrusa a santidade de seu amor e o recato de sua câmara nupcial.

Esta ansiedade, e as decepções que daí lhe provinham a todo instante, aumentaram a tristeza de Amália; pelo que o Sr. Veiga, cedendo às instâncias da mulher, decidiu a viagem à Europa.

A moça, a quem a idéia de uma separação assustara, compreendeu todavia a necessidade de arrancar-se à fatal dominação que sobre ela exercia aquele homem, a quem não amava, e nem poderia amar nunca.

Ela sentia que faltavam-lhe as forças para conter os impulsos de sua alma; e conhecia o poder da irresistível atração que a prendia ali, e que a trouxera de Petrópolis aonde se tinha refugiado.

Era preciso pois interpor o oceano e afastar-se para longe, onde a maligna influência que a tiranizava não pudesse chegar.

Afinal o acaso favoreceu a curiosidade da moça. Por esquecimento ficara aberta uma janela, não do toucador, mas da sala próxima. Foi o Abreu, ao escurecer, quando andara ali a espanar, que a deixara assim, talvez para arejar o aposento, contando fechá-la mais tarde.

Amália alvoroçou-se com esta circunstância; mas logo conheceu que nada adiantava. Era-lhe impossível distinguir coisa alguma na escuridão da sala. Já ia retirar-se, quando renasceu-lhe a esperança.

(continua...)

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