ASSIS, Machado de. Linha reta e linha curva. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1871.
Por Machado de Assis (1871)
A letra vai disfarçada como a sua, e, como na sua carta, deixo a assinatura em branco.”
Esta carta foi entregue à viúva na mesma tarde. À noite, Azevedo e Adelaide foram visitá-la. Não puderam dissuadi-la da idéia da viagem para a Corte. Emília usou mesmo de uma certa reserva para com Adelaide, que não pôde descobrir os motivos de semelhante procedimento, e retirou-se um tanto triste.
No dia seguinte, com efeito, Emília e a tia aprontaram-se e saíram para voltar para a corte.
Diogo ficou em Petrópolis ainda, cuidando em aprontar as malas... Não queria, dizia ele, que o público, vendo-o partir em companhia das duas senhoras, supusesse coisas desairosas à viúva.
Todos estes passos admiravam Adelaide, que, como disse, via na insistência de Emília e nos seus modos reservados um segredo que não compreendia. Quereria ela por aquele meio de viagem atrair Tito? Nesse caso era cálculo errado; visto que o rapaz, naquele dia como nos outros, acordou tarde e almoçou alegremente.
- Sabe, disse Adelaide, que a esta hora deve ter partido para a cidade nossa amiga Emília?
- Já tinha ouvido dizer.
- Por que será?
- Ah! isso é que eu não sei. Altos segredos do espírito de mulher! Por que sopra hoje a brisa deste lado e não daquele? Interessa-me tanto saber uma coisa como outra.
No fim do almoço Tito, como quase sempre, retirou-se para ler durante duas horas.
Adelaide ia dar algumas ordens quando viu com pasmo entrar-lhe em casa a viúva, acompanhada de um criado.
- Ah! não partiste! disse Adelaide correndo a abraçá-la.
- Não me vês aqui?
O criado saiu a um sinal de Emília.
- Mas que há? perguntou a mulher de Azevedo, vendo os modos estranhos da viúva.
- Que há? disse esta. Há o que não prevíamos... És quase minha irmã... posso falar francamente. Ninguém nos ouve?
- Ernesto está fora e o Tito lá em cima. Mas que ar é esse? - Adelaide! disse Emília com os olhos rasos de lágrimas, eu o amo! - Que me dizes?
- Isto mesmo. Amo-o doudamente, perdidamente, completamente. Procurei até agora vencer esta paixão, mas não pude; e quando, por vãos preconceitos, tratava de ocultar-lhe o estado do meu coração, não pude, as palavras saíram-me dos lábios insensivelmente...
- Mas como se deu isto?
- Eu sei! Parece que foi castigo; quis fazer fogo e queimei-me nas mesmas chamas. Ah! não é de hoje que me sinto assim. Desde que os seus desdéns em nada cederam, comecei a sentir não sei o quê; ao princípio despeito, depois um desejo de triunfar, depois uma ambição de ceder tudo, contanto que tudo ganhasse; afinal não fui senhora de mim. Era eu quem me sentia doudamente apaixonada e lho manifestava, por gestos, por palavras, por tudo; e mais crescia nele a indiferença, mais crescia o amor em mim.
- Mas estás falando sério?
- Olha antes para mim.
- Quem pensara?...
- A mim própria parece impossível; porém é mais que verdade... - E ele?...
- Ele disse-me quatro palavras indiferentes, nem sei o que foi, e retirou-se. - Resistirá?
- Não sei.
- Se eu adivinhara isto não te insinuaria naquela malfadada idéia.
- Não me compreendeste. Cuidas que eu deploro o que acontece? Oh! não! Sinto-me feliz, sinto-me orgulhosa... É um destes amores que brotam por si para encher a alma de satisfação: devo antes abençoar-te...
- É uma verdadeira paixão... Mas acreditas impossível a conversão dele?
- Não sei; mas seja ou não impossível, não é a conversão que eu peço; basta me que seja menos indiferente e mais compassivo.
- Mas que pretendes fazer? perguntou Adelaide sentindo que as lágrimas também lhe rebentavam dos olhos.
Houve alguns instantes de silêncio.
- Mas o que tu não sabes, continuou Emília, é que ele não é para mim um simples estranho. Já o conhecia antes de casada. Foi ele quem me pediu em casamento antes de Rafael...
- Ah!
- Sabias?
- Ele já me havia contado a história, mas não nomeara a santa. Eras tu? - Era eu. Ambos nos conhecíamos, sem dizermos nada um ao outro... - Por quê?
A resposta a esta pergunta foi dada pelo próprio Tito, que assomara à porta do interior. Tendo visto entrar a viúva de uma das janelas, Tito desceu abaixo a ouvir a conversa dela com Adelaide. A estranheza que lhe causava a volta inesperada de Emília podia desculpar a indiscrição do rapaz.
- Por quê? repetiu ele. É o que lhes vou dizer.
- Mas antes de tudo, disse Adelaide, não sei se sabe que uma indiferença, tão completa, como a sua, pode ser fatal a quem lhe é menos indiferente?
- Refere-se à sua amiga? perguntou Tito. Eu corto tudo com uma palavra. E voltando-se para Emília, disse, estendendo-lhe a mão:
- Aceita a minha mão de esposo?
Um grito de alegria suprema ia saindo do peito de Emília; mas não sei se um resto de orgulho, ou qualquer outro sentimento, converteu essa manifestação em uma simples palavra, que aliás foi pronunciada com lágrimas na voz:
- Sim! disse ela.
Tito beijou amorosamente a mão da viúva. Depois acrescentou:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)