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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Entrando na choupana, viu Ricardo o Simão deitado em uma esteira sobre a cama de varas da altura de um palmo apenas. A magreza extrema, a atonia e lividez do semblante, estavam indicando uma moléstia grave. A mulher, sentada defronte em um toco de pau, cismava na sua vida enquanto descansava um momento da lida de cada dia. Era ela quem valia agora à desgraçada família com seu trabalho e sua diligência. 

- Então que é isto? disse o moço correndo os olhos do marido à mulher.

- O Simão anda bem doente! 

- Que tem? 

- Nada, nada, meu senhor. Isto vai assim mesmo até acabar de uma vez. A mulher levantou os ombros: 

- Ninguém lhe tira aquilo da cabeça. 

- Mas o que sente? perguntou Ricardo ao doente. 

- Eu sei! 

- É assim uma fraqueza, que já nem se pode levantar, respondeu a mulher. Há uma semana que está aí, nessa cama, que nem ata, nem desata. 

- Não tem tomado remédio? 

- Que há de tomar, meu senhor? 

Ricardo achou-se embaraçado na resposta; nada absolutamente entendia de medicina, ciência aliás em que todos arranham seu tanto. Tirando da carteira uma nota de dois mil-réis, pô-la na mão da mulher do pescador.

- É D. Joaquina que lhe manda! 

- Deus lhe há de pagar a ela as esmolas que nos tem feito, disse a Gertrudes. 

- E como vão agora? Têm sido mais felizes? 

- Qual, meu senhor! O quebranto não nos deixa. A pescaria... não se fala; depois que Simão caiu de cama, ainda eu fui deitar a rede com o pequeno; mas é à toa! As bananeiras enfezaram de uma vez. Se não fossem uns pintos... Que para bem dizer não foram os pintos, mas a cachorrinha. Se não fosse isso, a gente já estava morta de fome. 

- Então sucedeu-lhe alguma coisa boa? Sinal de que a fortuna está voltando. 

- Foi boa e foi má; porém no final de contas saiu pelo melhor. Imagine o senhor que a muito custo eu tirei uma ninhada de pintos, que estavam-se criando muito espertinhos. Sempre eram uns cobrinhos... Mas um dia apareceu aqui uma moça a cavalo, bem vestida, com uma velha gorda e mais um português que é um espirro de gato. Eles já tinham passado na véspera e estiveram falando com o pequeno. Então salta do colo da moça uma cachorrinha, e vai-se aos pintos e mata a todos, um por um. 

- Uma cachorrinha branca felpuda, que tem brincos de ouro? 

- Isso mesmo. O senhor conhece? É muito bonitinha; mas também nunca vi uma demoninha assim.

- Então matou-lhe os pintos? 

- Um por um. E a moça ria que era um gosto, dando estalinhos nos dedos; mas depois que a cachorrinha acabou de matar os pintos, então a senhora ficou muito zangada e ralhou bastante com ela. Disse que tinha pena do que sucedera, e mandou entregar a Simão um dinheiro para pagar os pintos. Foi dinheiro que chegou para a gente viver até agora.

- E depois? A moça? 

- Esteve atirando no capim umas moedinhas de prata; a cachorrinha de aposta com os pequenos corria para apanhar: aquele que achasse ganhava. Uma vez o Pedrinho quis tomar da cachorrinha; mas ela ia mordendo-o na mão. Se não fosse a moça que acudiu tão depressa com o chicotinho! 

Enquanto Ricardo conversava com a Gertrudes, e o Simão ouvia mergulhado no mesmo torpor, dois meninos e uma menina, acocorados a um canto, cochichavam entre si. A penúria tinha apagado naquelas crianças a vivacidade natural da infância. Havia no seu gesto e semblante um espasmo de tristeza, que afligia. 

Enfiando a vista pelo buraco da parede, as crianças se agitaram com certa curiosidade tímida, despertada por alguma coisa que tinham visto. O rumor de passos de animais indicava a chegada ou passagem de pessoas a cavalo.

- Mamãe! disse uma das crianças.

- A moça!... acrescentou a outra. 

Gertrudes reclinou-se, para estender a vista pela abertura da porta. Ricardo imitando seu movimento reconheceu Guida, acompanhada pela habitual comitiva. 

O moço ergueu-se contrariado. 

- Adeus. Voltarei depois. 

- Não quer ver a moça? Ela é bem bonita. 

- Já a conheço; e por isso não quero que me encontre aqui. Sairei pelo fundo. 

- Mas então o melhor é ficar aqui dentro porque ela não se apeia. 

Nisto a Gertrudes que se chegara à porta voltou ao moço:

- Ora, está vendo! Que artes desta moça! 

A Guida tinha dirigido “Edgard” para o lugar onde estava a secar a mesquinha louça da pobre gente, e o elegante cavalo divertia-se em espedaçar desdenhosamente com a pata cada um dos pratos. 

Os meninos assistiam à cena admirados; Guida ria-se como uma criança; a inglesa despedia da garganta uma cascata de “ohs!” e o Sr. Daniel impassível estava mentalmente calculando o custo da louça quebrada. 

Ricardo viu esta cena pelas fendas da choupana. Quando não houve mais nada a quebrar, Guida, sofreando com força o cavalo, exclamou com um fingido assomo de mau humor: 

- Este cavalo é insuportável! Está sempre fazendo destas! Não posso mais aturá-lo! 

(continua...)

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