Por José de Alencar (1861)
Miranda — Realmente para um homem do teu caráter a posição é terrível. Faltar aos seus compromissos.
Alves — Ver declarar-se a falência da sua casa, e apesar de sua boa fé, fica sujeito a suspeitas injustas! Isso tem-me feito sucumbir! O prejuízo enfim, vá feito. Tenho forças para suportar a pobreza.
Miranda — Oh! A pobreza não assusta aos homens honestos. Dá-lhes estímulo ao contrário. Mas, dize-me que posso eu fazer em teu favor?
Alves — Obrigado por esta palavra! Não esqueci o oferecimento sincero que me fizeste na ocasião de minha partida; mas, se não o lembrasses, não teria ânimo.
Miranda — Sim, eu te disse que podias recorrer a mim, no caso de qualquer embaraço...
Alves — É o que eu faço e com bastante acanhamento. Nestes negócios vexo-me mais em dirigir-me a um amigo, do que a um estranho, a quem obrigo a minha firma, e não o meu reconhecimento.
Miranda — Não devias ter acanhamento comigo. A minha fortuna estava toda à tua disposição...
Alves — És um verdadeiro amigo.
Miranda — Atende! Não mereço os teus elogios. O que eu te oferecia há um ano não o posso agora.
Alves — Perdeste a fortuna?
Miranda — Não a tenho.
Alves — Mas tuas propriedades, tuas apólices.
Miranda — Vendi-as todas.
Alves — E o produto?
Miranda — Não sei!...
Alves — Roubaram-te?...
Miranda — Não.
Alves — Mas como se consome assim mais de cem contos de réis em um ano!...
Miranda — A vida é cara na atualidade... A política faz descuidar os negócios... Mil cousas que fora longo dizer!
Alves — Ah! Desculpa-me! Vejo que te incomodo!
Miranda — Não! O que sinto é não poder servir-te.
Alves — Por isso não deixaremos de ser amigos... Nada valho e agora menos; mas sou sempre o mesmo: na fortuna como na adversidade. Ao menos a franqueza acharás sempre em mim.
Miranda — Agradeço-te. Se alguma vez recorresse aos meus amigos, não lhes faria a injúria de duvidar de sua palavra; nem exigiria deles os motivos de seu procedimento. Há reservas que se respeitam.
Alves — Acabemos com isso, Miranda. Perca-se tudo embora; mas o que eu não quero perder é a tua amizade.
Isabel — Senhor Alves.
Alves — Perdão, minha Senhora.
Isabel — Atenda-me um instante. Eu lhe explico!
Alves — Não é necessário.
Isabel -— Não posso deixar que o Senhor conserve uma queixa de seu amigo e por minha causa... Foi um erro meu; as mulheres são às vezes tão imprudentes...
Miranda — Não se trata disso agora.
Isabel — Tive a fraqueza de falar na riqueza de meu pai, uma vez que meu marido não quis satisfazer um capricho meu, uma extravagância... Ele perdoou-me; mas jurou que não tocaria nessa fortuna... Compreende agora... um escrúpulo... uma susceptibilidade... Dele pois, ou de mim, aceite, Senhor Alves.
Alves — Não devia duvidar de ti!... (A Isabel) Eu admiro e agradeço, minha Senhora. Mas não posso aceitar sem o consentimento de Miranda. (Entra Henrique)
Miranda — Ela pode dispor livremente do que lhe pertence, Alves.
Isabel — Ouve? Não deve recusar.
Alves — Mas, D. Isabel, eu tenho escrúpulos... Luto com embaraços; posso ser infeliz, e causar-lhe graves prejuízos.
Isabel — Que importa!... Então deverei tudo a meu marido. É um orgulho de mulher, Senhor Alves.
Alves — Pois bem, se for absolutamente necessário, aceitarei. Vou amanhã à Corte! verei o estado dos meus negócios e me resolverei.
CENA VIII
Os mesmos e Henrique
Henrique — Oh! Estás de volta enfim.
Alves — É verdade! E venho achar-te casado e feliz. O que são protestos de homem solteiro! (A Miranda) Na véspera de minha partida disse-me que nunca se casaria; e isso com um tom que me Convenceu.
Miranda — E um mês depois estava casado!
Henrique — Todos fazemos o mesmo. Quando se protesta é porque já o negócio está decidido.
Alves — Fizeste bem; o casamento é uma necessidade.
Henrique — Aos trinta anos: antes é um luxo. (Vão se afastando)
Alves — Estarás arrependido?
Henrique — Não! Minha mulher vive satisfeita de seu lado, eu gozo de toda a liberdade... Nem um aborrece ao outro. Compreendemos o casamento, não achas?
Alves — Teu tio me parece que o compreende de outra maneira!
Henrique — Temos gênios tão diferentes! Já sei que ficas conosco alguns dias.
Alves — Não posso nem passar a noite aqui; tenho que pôr em ordem as contas de minhas cobranças para amanhã seguir. (Afastam-se)
Miranda (a Isabel) — Obrigado, Senhora. (Aperta a mão)
Isabel — Me agradece, meu Deus!... Mas eu sinto não possuir outra fortuna para ter a felicidade de perdê-la, Senhor!
CENA IX
Isabel e Clarinha
(No fundo do portão vê-se Henrique, Augusto e Alves)
Clarinha — Bela!... Não viste Henrique?
Isabel — Está aí conversando com o Senhor Alves.
Clarinha — Não sei quem é?
Isabel — Um amigo de Augusto. Vamos ter com ele?
Clarinha — É o que faltava!... Chegou depois de dois dias e ainda nem me procurou!...
Isabel — Chegou agora mesmo!... Olha! ali vem ele.
Clarinha — Deixa-me só! Se estiveres aqui, ele nada me dirá!
Isabel — Tens razão. (A meia voz a Henrique) Clarinha está zangada: abraça-a.
Henrique — Adeus, Clarinha!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.