Por José de Alencar (1873)
Pouco demorou-se a matrona. Empurrando o rapaz à frente do genro, disse-lhe:
— Aí o tem; há de ser preciso tosá-lo seu tanto, que está muito peludo.
E voltando sobre os pés, foi-se a Sr.ª Romana à sua obrigação.
— Peludo!... resmoneou o tabelião entre dentes; quando eu o acho delambido demais! Todavia hei de pô-lo a jeito.
Esticou-se o Sebastião no tamborete, equilibrando o gancho dos óculos em cima do beque, abriu a boceta com um estalo sonoro, e sorvida em cada venta a pitada mestra com um estrépito solene, dirigiu a palavra ao Ivo que o estava espreitando através do acanhamento de se ver metido naquela arriosca.
— Com que então, moço, você quer ser da obrigação deste cartório?
— Se for do gosto de Vossa Mercê; que eu estou pronto a ser não só da obrigação, mas também da devoção.
— Como se entende isto?...
— Saberá Vossa Mercê que isto subentende-se.
— Fale-me raso e chão, moço; que eu não sou homem de remoques.
— Com perdão de Vossa Mercê eu queria dizer que hei de esforçar, não só pela vontade de ganhar, senão pelo gosto de o servir.
O tabelião fungou o resto da pitada, arregaçando as ventas; o que nele equivalia a interjeição de suspeita e desconfiança.
— As falas não são más, resta ver as obras.
Metendo uma costaneira de papel entre o índice e o máximo da mão esquerda, com a direita escolheu na pilha de bacamartes que tinha ao lado um volume.
— Tire-me o traslado desta escritura, disse o Sebastião Ferreira abrindo o volume no lugar onde estava marcado com uma tira de couro.
— É para copiar palavra por palavra? perguntou o Ivo, que não sabia o que era traslado.
— E sem faltar uma vírgula.
— Em que letra quer Vossa Mercê que eu copie? Em letra redonda, cursiva, grifa, itálica ou bastarda?
— Hem! hem! fez o tabelião; embasbacado com aquela nomenclatura. Nada, moço; aqui não se querem dessas artes e novidades; que são boas para copistas de pergaminho. Escreva-me letra de mão e bem corrida, como está aí nas notas.
Ajoelhou-se o Ivo do outro lado da mesa, e sacando do bolso o seu tinteiro de chifre e a pena de ganso bem aparada, preparou-se a tirar o traslado do bacamarte reclinado diante dêle sobre um enorme cunhete de jacarandá. Tinha o rapaz a maior confiança no seu bonito talhe de letra e esperava sair-se bem das provas; mas surgiu-lhe um embaraço com o qual não contava, e que o fez descoroçoar da empresa.
Era a escrita do Sebastião Ferreira a mais tabeliosa que se pode imaginar; dificilmente conseguiam os velhos escreventes meter-lhe o dente. Uma linha tremida estendendo-se horizontalmente, e com umas pontas que lhe saíam para cima e para baixo, tal era o aspecto desse gregotim indecifrável.
Debruçado sobre o bacamarte, o Ivo concentrava todos os esforços para destrinçar aquele texto emaranhado, e já lhe corria o suor pela testa abaixo, sem que tivesse conseguido soletrar duas palavras.
Extenuado, reconhecendo a impossibilidade de penetrar jamais o sentido daquele hieróglifo, assentou o rapaz dar de mão à empresa, e voltou-se para o tabelião na intenção de comunicar-lhe a resolução em que estava. Mas o Sebastião Ferreira, de todo entregue ao desempenho do ofício, não dava fé, nem do que ia pelo cartório, nem mesmo da presença do Ivo, ali, a dois passos dele.
Ficou pois o rapaz com os olhos pregados no tabelião, acompanhando-lhe a pena que ringia sobre o papel e à esperta da primeira pausa, para encartar a sua despedida. No mais atento de sua observação estremeceu de susto.
Na porta a que dava costas o tabelião, se abrira uma fresta por onde enfiou o olhar curioso de um cantinho apenas dos mais lindos olhos castanhos, que dar-se podem. Se não fosse a volta da testa de marfim que aparecia no batente da porta, o rapaz não se teria apercebido da aparição.
Esqueceu o Ivo tudo, o cartório onde estava, o tabelião e mais o seu gregotim, para espreitar aquele cantinho de olho que o espiava pela fresta da porta. Era ele capaz de jurar que a dona do olhar de maliciosa se estava rindo dos apertos em que o via.
Com receio de que o surpreendesse o Sebastião no mais doce de seu enlevo, arranjou-se de novo o Ivo em posição de escrever, puxou à frente o grosso in-fólio para lhe servir de baluarte contra os óculos do tabelião, e assentou no alto do papel, segundo as regras caligráficas, a mão pronta a lançar o rasgo da primeira letra no mais asseado bastardo.
Mas sentiu certas cócegas nas pontas dos dedos, e sem saber como, achou-se a fazer a bico de pena a cópia-fiel daquela fresta da porta, onde aparecia o céu de uma testa de marfim, e um olhar, que era a estrela do tal céu.
Bem percebeu Marta pelos modos, que o moço lhe estava tirando as feições; e escondeu-se de vergonhosa, mas para voltar logo depois, descobrindo um pouquinho mais do rosto. Disfarçava a sonsa, fingindo-se atenta para outro ponto da sala, e a descuido mostrava o lindo perfil; até que de repente sumia-se, como se então somente descobrisse o Ivo a observá-la.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.