Por José de Alencar (1857)
ALFREDO - É verdade; aqui dorme-se, porém sonha-se com a felicidade; no salão vive-se, mas a vida é uma bem triste realidade. Ao invés de um piano há uma rabeca, as moças não falam de modas, mas falam de bailes; os velhos não dissertam sobre a carestia, mas ocupam-se com a política. Que diz deste quadro, Sr. Azevedo, não acha que também vale a pena de ser desenhado por um hábil artista, para a nossa "Academia de Belas-Artes?" AZEVEDO - A nossa "Academia de Belas-Artes?" Pois temos isto aqui no Rio?
ALFREDO - Ignorava?
AZEVEDO - Uma caricatura, naturalmente... Não há arte em nosso pais.
ALFREDO - A arte existe, Sr. Azevedo, o que não existe é o amor dela.
AZEVEDO - Sim, faltam os artistas.
ALFREDO - Faltam os homens que os compreendam; e sobram aqueles que só acreditam e estimam o que vem do estrangeiro.
AZEVEDO (com desdém) Já foi a Paris, Sr. Alfredo?
ALFREDO - Não, senhor; desejo, e ao mesmo tempo receio ir.
AZEVEDO - Por que razão?
ALFREDO - Porque tenho medo de, na volta, desprezar o meu país, ao invés de amar nele o que há de bom e procurar corrigir o que e mau.
AZEVEDO - Pois aconselho-lhe que vá quanto antes! Vamos ver estas senhoras!
ALFREDO - Passe bem.
CENA XIV
Os mesmos, CARLOTINHA, HENRIQUETA
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Já tão cedo? Que horas são, Sr. Azevedo?
ALFREDO - Nove e meia.
AZEVEDO - Quase dez. Como passa rapidamente o tempo aqui! (Entra na sala.)
CARLOTINHA - Então! Demora-te mais algum tempo. Sim?
HENRIQUETA (baixo) - Para quê?... Ele nem me fala!
ALFREDO - Minhas senhoras! Boa noite, D. Carlotinha.
CARLOTINHA - Adeus, Sr. Alfredo. Mamãe já lhe disse que a nossa casa está sempre aberta para receber os amigos.
ALFREDO Se eu não temesse abusar...
CARLOTINHA (estendendo-lhe a mão) - Até amanhã!
ALFREDO - Boa noite! (Sai.)
CENA XV
CARLOTINHA, HENRIQUETA
CARLOTINHA - Olha, Henriqueta! Tu não tens razão! Eduardo te ama, ele já me disse. Se hoje não tem falado contigo, é porque teu pai... teu noivo... não sei a razão! Mas deixa-te dessas desconfianças.
HENRIQUETA - Entretanto, depois de dois meses, ele devia achar um momento para ao menos dizer-me uma palavra que me desse esperança; porque, Carlotinha, se esse casamento era uma desgraça para mim, agora, que tu dizes que ele me ama, tornou-se um martírio! Não sei o que faça... Quero confessar a meu pai!... E tenho medo!... Já deu sua palavra!...
CARLOTINHA - A tua felicidade vale mais do que todas as palavras do mundo.
HENRIQUETA - Tu não sabes!...
CARLOTINHA - Ah! Aqui está Eduardo!
CENA XVI
As mesmas, EDUARDO.
EDUARDO - Enfim, posso falar-lhe, D. Henriqueta?
CARLOTINHA - Ela já te acusava!
EDUARDO - A mim!
HENRIQUETA - Eu não; disse apenas...
CARLOTINHA - Disse apenas que tu ainda não tinhas achado um momento para dar-lhe uma palavra... de amor!
HENRIQUETA - De amizade! Foi o que eu disse.
EDUARDO - E tem razão; mas quando souber o motivo me desculpará.
HENRIQUETA - Ainda outro motivo!
EDUARDO - Sim; desta vez não é um engano, é um dever.
HENRIQUETA - Ah! uma promessa, talvez...
CARLOTINHA - Que lembrança!...
EDUARDO - Disse um dever; um dever bem grave, mas que tem um rostinho muito risonho; olhe. (Amimando a face de CARLOTINHA.) HENRIQUETA - Carlotinha?
CARLOTINHA - Ah! Quer-se desculpar comigo! Pois vou-me embora!
HENRIQUETA (sorrindo) - Vem cá!
EDUARDO - Deixe; ficaremos sós.
CENA XVII
EDUARDO, HENRIQUETA
EDUARDO - Henriqueta, me perdoa?
HENRIQUETÂ - Perdoar-lhe!... Eu é que devia ter adivinhado!
EDUARDO - E eu não devia ter compreendido que entre duas almas que se estimam não é preciso um intermediário? O amor que passa pelos estranhos perde a sua pureza... Carlotinha já lhe disse o que aconteceu?...
HENRIQUETA - Sim; ela me contou tudo, mas pareceu-me que me tinha enganado. Duvidei...
EDUARDO - Como?... Duvidou de mim!...
HENRIQUETA - Durante toda esta noite, não é a primeira vez que nos falamos e, entretanto, devíamos ter tanto que dizer-nos... Um tão longo silêncio...
EDUARDO - Não lhe dei já a razão?... Antes do meu amor, a felicidade de minha irmã. É um pequeno segredo que ela lhe contará, se já não lhe contou. Precisava tranqüilizar o meu espírito, porque não desejo misturar uma inquietação, um mau pensamento, às primeiras expansões do nosso amor!
HENRIQUETA - Ah! Carlotinha também ama! Ainda não me confiou seu segredo!... Ela ao menos tem um irmão que lê em sua alma; há de ser feliz!...
EDUARDO - E nós, não o seremos?
HENRIQUETA - Quem sabe!
EDUARDO - Este casamento é impossível!
HENRIQUETA - Por quê?
EDUARDO - Porque vou confessar tudo a seu pai, e ele não sacrificará sua filha a uma palavra dada.
HENRIQUETA - E se recusar?
EDUARDO - Então respeitaremos sua vontade.
HENRIQUETA - Sim, ele é pai, mas...
EDUARDO - Mas o amor é soberano; não é isso, Henriqueta?
HENRIQUETA - E não se... vende!
EDUARDO - Que dizes? Compreendo!
HENRIQUETA - Não, Eduardo, não compreenda, não procure compreender! Foi uma idéia louca que me passou pelo espírito; não sei nada!... Uma filha pode acusar seu pai?
EDUARDO - Não; mas pode confiar a um amigo uma queixa de outro amigo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.