Por Machado de Assis (1876)
Quais são os seus sentimentos atuais em relação a Helena? Oh! não precisa franzir a testa nem fazer esse gesto de aborrecimento. Tudo são meras aparências. Não creio que seja absolutamente amiga dela; mas não pode negar que a antipatia desapareceu ou diminuiu muito.
Diminuiu, talvez.
E com razão. Pensa que também eu não tive repugnâncias, depois que ela aqui entrou? Tive-as; mas se não houvessem desaparecido, — desapareceriam hoje de manhã.
Como?
Estácio referiu à tia a cena do capítulo anterior e as palavras que lhe dissera Helena.
D. Úrsula sorriu ironicamente.
Não a impressiona isto? perguntou Estácio.
Não, respondeu D. Úrsula com decisão; a frase de Helena é achada em algum dos muitos livros que ela lê. Helena não é tola; quer prender-nos por todos os lados, até pela compaixão. Não te nego que começo a gostar dela; é dedicada, afetuosa, diligente; tem maneiras finas e algumas prendas de sociedade. Além disso, é naturalmente simpática. Já vou gostando dela; mas é um gostar sem fogo nem paixão, em que entra boa dose de costume e necessidade. A presença de outra mulher nesta casa é conveniente, porque eu estou cansada. Helena preenche essa lacuna. Se alguma coisa, entretanto, a podia prejudicar nas nossas rela- ções é esse dito.
Estácio tomou calorosamente a defesa da irmã.
O que eu lhe contei, disse ele, foram apenas as palavras. Não pude nem poderei reproduzir a expressão sincera com que ela as proferiu, e a profunda tristeza que havia em seus olhos. Não lhe nego que, ao vê-la mudar tão depressa e entrar alegre na sala, senti tal ou qual abalo de dúvida, mas passou logo. Ela tem o poder de concentrar a amargura no coração; também a dor tem suas hipocrisias...
Mas que dor? que amargura? interrompeu D. Úrsula. A dor de ser legitimada? a amargura de uma herança?
Estácio protestou calorosamente contra aquele caminho que a tia dava às suas idéias; enfim pediu-lhe que interrogasse com cautela a irmã.
Um homem, concluiu ele, é menos apto para obter tais confissões; uma senhora, respeitável e parenta, está mais no caso de lhe captar a confiança e obter tudo. Quer incumbir- se desse delicado papel?
Pedes muito, respondeu D. Úrsula. Verei se te posso dar metade disso. Era só o que tinhas para dizer?
Só.
Uma criancice! Eu tenho coisa mais séria. O Dr. Camargo escreveu-me; trata-se...
Não precisa dizer mais nada, interrompeu Estácio; lá vem ele. Camargo aparecera efetivamente a vinte passos de distância.
Doutor, disse D. Úrsula, logo que este se aproximou deles, chega um pouco fora de propósito. Eu mal tive tempo de assustar meu sobrinho, que ainda não sabe o que o senhor lhe quer.
Saberá agora; é só bastante que a senhora lhe diga que me aprova.
Completamente.
Trata-se... disse Estácio.
De uma conspiração; todos conspiramos em seu benefício.
D. Úrsula retirou-se para casa; os dois ficaram sós. Uma vez sós, Camargo pousou a mão no ombro de Estácio, fitou-o paternalmente, enfim perguntou-lhe se queria ser deputado. Estácio não pôde reprimir um gesto de surpresa.
Era isso? disse ele.
Creio que não se trata de um suplício. Uma cadeira na Câmara! Não é a mesma coisa que um quarto no Aljube1...
Mas a que propósito.
Esta idéia apoquentava-me há algumas semanas. Doía-me vê-lo vegetar os seus mais belos anos numa obscuridade relativa. A política é a melhor carreira para um homem em suas condições; tem instrução, caráter, riqueza; pode subir a posições invejáveis. Vendo isso, determinei metê-lo na Cadeia... Velha. Fala-se em dissolução. Para facilitar-lhe o sucesso, entendi-me com duas influências dominantes. O negócio afigura-se-me em bom caminho.
Estácio ouviu com desagrado as notícias que lhe dava o médico.
Mas, doutor, disse ele depois de curto silêncio, houve de sua parte alguma precipitação. Pelo menos, devia consultar-me. Do modo por que arranjou as coisas, quase me acho desobrigado de lhe agradecer a intenção. Quanto a aceitar, não aceito.
Camargo não perdeu a tramontana; deixou passar por cima da cabeça a primeira onda de desagrado, surgiu fora e insistiu tranqüilamente:
Vejamos as coisas com os óculos do senso comum. Em primeiro lugar, não creio que tenha outros projetos na cabeça..Talvez.
— Edificado em 1733, para servir de prisão para eclesiásticos que incorressem em delitos graves. Com a chegada de D. João VI ao Brasil (1808), o Aljube transformou-se em cadeia comum. A partir de 1840, desapareceu, dando lugar, inicialmente, ao Tribunal do Júri, e, ao fim, a um cortiço.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.