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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Carolina – Não amo a ninguém! Sou livre! (Caminhando para a porta vê Margarida que entra pelo braço de Araújo, recua com espanto).

CENA X

(Os mesmos, Margarida e Araújo)

Carolina – Ah! Esqueci que ainda tinha mãe!

Margarida – Carolina!

Luís– Tardaste muito!

Araújo – Apesar de toda a sua coragem, faltavam-lhe as forças! Que te disse ela?

Luís – Cala-te!

Margarida – Carolina!... Não falas à tua mãe? Não me queres conhecer?... Depois de tanto tempo!... Tens medo de mim?... Não penses que vim repreender-te.... acusar-te! Já não tenho forças!... Vim pedir-te que me restituas a filha que perdi! Queria ver-te antes de morrer... Eu te perdôo tudo... Não tenho que perdoar... Mas fala-me... Olha-me ao menos!... Mais perto! Quase não te vejo!... As lágrimas cegam... e tenho chorado tanto!

Carolina – Minha mãe!...

Margarida – Ah!...

Carolina – Oh! não!

Margarida – Que tens?

Carolina – Tenho vergonha!

Margarida – Abraça-me! Deus ouviu as minhas orações! Achei enfim a minha filha!...minha Carolina!

Carolina – Não estás mais zangada comigo?

Margarida – Nunca estive! Tinha saudades! Porém agora não nos separaremos mais nunca. Vem!...

Carolina – Para onde?

Margarida – Para a nossa casa; hás de achá-la bem mudada. Mas tudo voltará ao que era. Estando tu lá, a alegria entrará de novo; seremos muito felizes, eu te prometo.

Carolina – Está tão fraca!...

Margarida – Contigo sinto-me forte! Já não estou doente: vê! (Dá um passo e vacila)

Carolina – Nem pode andar!... Mas tenho ai o meu carro.

Margarida – Teu carro!...

Carolina – Sim! Ainda não viu? É muito bonito.

Margarida – Todas estas riquezas que compraste tão caro e com tantos sofrimentos custaram à tua mãe, já não te pertencem, Carolina, atira para longe de ti estes brilhantes!... Não te assentam!

Carolina – Minhas jóias!...

Margarida – Oh! Não lamentes a sua perda! Beijos de mãe brilham mais em tuas faces do que esses diamantes. Tu eras mais bonita quando íamos à missa aos domingos.

Carolina – Pois sim! (Afasta-se)

Luís (à Margarida) – Era a minha última esperança!

Margarida – Não falhou, o coração me dizia...

Carolina (no espelho) Não! Não tenho coragem!

Margarida – Que dizes?

Carolina – Perdão, minha mãe! É impossível!

Margarida – lembra-te, minha filha, que é a tua desonra que tu mostras a todos!

Carolina – Que importa?... Minhas jóias!... Tão lindas!... Sem elas, o que serei eu? Uma pobre moça que excitará um sorriso de piedade!... Não! Nasci com este destino! É escusado.

Luís – (à Margarida) - Foi irritá-la!...

Margarida (à Carolina) – Escuta! Não exijo nada! Não quero saber de coisa alguma! Faze o que quiseres; mas deixa-me acompanhar-te; deixa-me viver contigo: eu partilharei até mesmo a tua vergonha.

Carolina – Nunca! minha mãe! Seria profanar o único objeto que eu ainda respeito neste mundo. Adeus...

Margarida – Carolina...

Carolina – Adeus... e para sempre!

Margarida – Ah!... (Desmaia)

Luís – Assim, depois de ter desconhecido o pai, e abandonado a filha, repele a mãe!

Carolina – Como há pouco me repeliram.

ATO TERCEIRO (Em casa de Carolina. Sala rica e elegante)

CENA I

(Carolina, Helena, Meneses e Araújo)

Carolina – Dize alguma coisa, Sr. Araújo.

Araújo – Prefiro ouvir.

Carolina – Como está o seu amigo?

Araújo – Bem, obrigado.

Carolina – Por que ele não veio?

Araújo – Deve saber a razão.

Carolina – Ele foge de mim; não é verdade?

Araújo – Creio que foi a senhora que fugiu dele.

Meneses – Que é feito do Pinheiro?

Carolina – Não sei.

Helena – Anda por aí. Depois que deitou fora a fortuna do pai vive tão murcho!

Meneses – Está pobre!

Helena – Não tem vintém.

Araújo – Ninguém pode melhor dizê-lo do que a senhora.

Carolina – Explique-se.

Araújo – Este luxo explicará melhor. Quem lho deu?

Carolina (subindo) – Não me recordo.

Helena (na janela, à Carolina) – Não passeias hoje? A tarde está tão linda!

Carolina – Talvez.

Araújo – Vou me embora.

Meneses – Tão depressa?... Para isso não valeu a pena incomodar-nos.

Araújo – É verdade! Mas convidei-te para esta visita, só por um motivo.

Meneses – Qual?

Araújo – Luís pediu-me que soubesse notícias dela. Vim buscá-las eu mesmo, para dá-las exatas.

Meneses– Pois então demora-te; talvez ainda tenhas que ver.

Helena – Olha! Lá vai aquela sujeita!

Carolina – Quem?

Helena – A mulher do Fernando, a quem pregaste aquela peça!

Carolina – Lembro-me.

Helena – Que bem feita coisa!

Meneses – O quê?

Helena – É uma história muito engraçada. O senhor não sabe?

Meneses – Não. Conta, Carolina.

Carolina – Não estou para isso. Se queres conta tu, helena.

Araújo – É melhor.

Helena – Foi no último dia de grande gala que houve...

Araújo – O dia 7 de setembro.

Helena – Isso mesmo. O Fernando por pedido da mulher veio à cidade de propósito para comprar um bilhete de camarote do Teatro Lírico. Os cambistas lhe fizeram dar cem mil-réis por um de segunda ordem... Número?...

Carolina – Não me lembro.

(continua...)

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