Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Henrique — Ainda não acabei. Lembrou-me depois, que eu deveria apresentar-me hoje aqui, e patenteando o crime projetado, e nomeando os criminosos, dizer a meus tios: “Eis aí as brilhantes relações de que vos ufanais! Eis a vossa sociedade que arremeda o que não é! Eis aí os vossos falsos nobres, ridículas caricaturas daqueles, com quem procuram confundir-se; ei-los! São infames réus da polícia, são...”
Anastácio — Tempo perdido! Os três figurões chamar-te-iam caluniador e Maurício correria a dar um abraço a Frederico; Hortênsia a trocar um beijo com Dona Fabiana, e um criado viria mostrar-te a porta da rua.
Henrique — Mas também nenhum desses pensamentos foi aceito pelo meu coração: em qualquer deles transpirava um desejo de vingança, generosa embora, e a vingança, oh!...não cabe em um coração que está cheio de amor! Meu tio, eu quero salvar Leonina, mas quero salvá-la sem que uma suspeita, uma simples dúvida possa deixar a mais leve nuvem no límpido céu da sua vida...quero salvá-la ficando para todos imaculada a sua pureza; quero salvá-la sem que ela o perceba, sem que se fale no seu nome, sem que ela tenha de corar ante a idéia do atentado, de que ia ser vítima; quero salvá-la, como um pai salvaria sua filha!...não quero nem o abatimento da soberba, nem a confusão do crime, nem a vingança, nem a gratidão; quero a reputação de Leonina intacta, e o seu nome saindo de todos os lábios que o pronunciaram, suave como uma harmonia de Haydn, puro e celeste como a oração de um anjo.
Anastácio — Excelente; mas havemos de levar ao fim a obra modificando um pouco as tuas idéias poéticas. Já fui delegado de polícia em Minas, e quando me denunciavam que s e pretendia cometer algum roubo, a minha regra era apanhar os ladrões com a mão na ratoeira.
Henrique — Mas se um descuido qualquer...
Anastácio — Já cumpriste o teu dever; o cumprimento do meu começa agora. Hás de dar-me amanhã algumas lições de baile mascarado. Uma dificuldade única me embaraça...Com hei de eu tolerar a presença desses tratantes, que vêm hoje aqui jantar?...Já, porém, que é preciso fingir, já que no meio desta gente sem fé, os próprios homens honestos devem às vezes trazer uma boa máscara no rosto, verão para quanto presta este velho roceiro!
CENA VI Anastácio, Henrique e Leonina.
Leonina — Meu padrinho...meu padrinho...(Vendo Henrique) Ah!...
Anastácio — Assustou-se?...pois o rapaz não é feio.
Henrique — Minha senhora...
Leonina — Perdão, eu pensava que meu padrinho estava só.
Anastácio — Mas achaste-me bem acompanhado, o que é ainda melhor. Que é
isto?...parece que choraste, Leonina?...
Leonina — Não...não chorei...
Henrique — Eu me retiro... (Anastácio o suspende, segurando-lhe na mão).
Anastácio — Vieste para confiar-me um segredo, podes falar; em vez de um, tens a teu lado dois amigos.
Leonina — Meu padrinho...
Henrique — Eu a deixo em liberdade, minha senhora; sei bem que não tenho direito algum à sua confiança...(Indo-se).
Anastácio — Tu o deixas ir, Leonina?...
Leonina — Senhor...meu primo, fique.
Anastácio (À parte) — Com tenho domesticado este bichinho!...(A Leonina) Fala...
Leonina — Ah! Meu padrinho...tenta-se contra a minha felicidade, contra o futuro da minha vida...
Anastácio — Como?...
Leonina — Querem casar-me com um homem grosseiro e mau, cuja única recomendação é a riqueza...
Henrique (À parte) — Meu Deus!
Anastácio — O comendador Pereira...
Leonina — Ele mesmo!
Anastácio — Que dizes tu a isto, Henrique?...
Henrique — Meu tio!
Leonina — Meu padrinho!
Anastácio — Creio que ninguém se lembrará de casar-te contra a tua vontade, e menos de te impor à força um marido...
Leonina — Oh! mas meu pai pede, minha mãe chora, e um pai que pede, obriga: uma mãe que chora, impõe!...
Anastácio — E além disso trata-se de um fidalgo da gema; e um fidalgo, ainda que seja estúpido, grosseiro, e ainda mesmo tratante, é sempre um fidalgo, minha afilhada!
Henrique — Senhor...meu tio...atenda que ela chora!...
Leonina — Veja, meu primo, ele zomba de mim, quando as lágrimas correm de meus olhos!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.