Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
Misericórdia! que enormíssimo tratante é o Sr. velho Nunes! — afável, obsequiador, loquaz, insinuante, sabe um por um todos os segredos das traficâncias que desmoralizam o povo: tem falsificado documentos, rasgado e sumido folhas de autos, já furtou a firma de um juiz, já solicitou pró e contra em mais de vinte causas, tem comprometido interesses, demolido fortunas, e ainda não entrou na casa de correção!... aluga-se, quando não lhe convém vender-se, e vende-se apenas lhe chegam ao preço; tem de seu mais de cem contos de réis torpemente adquiridos, e é usurário de profissão; surrava os escravos sem piedade, vendeu-os todos há poucos meses, arremata outros em praça para vendê-los em breve prazo, e é entusiasta da emancipação; é cabalista admirável de eleições, tem sido eleitor por todos os partidos, e votado como eleitor nos candidatos que lhe compraram os votos por dinheiro, e por transações que valem dinheiro. Exalta os gozos suaves e a santidade do lar doméstico, e no lar doméstico dá pancadas na mulher, que o teme e que o detesta, e vive em guerra aberta com a filha porque ela em doces e costuras que faz ganha somente bastante para se vestir.
E, o que é mais, eu me vi, eu me encontrei e me reconheci nos cálculos da mente do velho Nunes!... elo sabe melhor do que eu a quanto chega a minha fortuna, planeja explorá-la em seu proveito, desacreditar, infamar meu irmão, ou negociar com ele em meu prejuízo, e finalmente concebeu a idéia de casar-me com sua filha!!!
Tive horror do execrável Nunes, a quem mais nunca darei o nome de velho amigo; senti-me, porém, desconsolado e triste, descobrindo tanta malvadeza, em quem supunha tanta bondade e virtude.
É ainda uma desilusão! é ainda um turvo desengano a arrastar-me à desconfiança e talvez em breve ao aborrecimento dos homens.
Sai do júri mais sombrio e abatido do que os réus que por ele acabavam de ser condenados.
XII
É claro que não procurei mais encontrar-me com o velho Nunes, e aproveitando a lição desse novo desengano, compreendi que me cumpria ser ainda muito mais cauteloso na escolha do meu procurador, e principalmente na eleição da minha noiva.
Empreguei quatro dias no empenho da descoberta de um procurador, como desejava, e perdi o meu tempo: estudei com a minha luneta magica nada menos que trinta e tantos procuradores e achei-me sempre de mal a pior! pareceram-me todos eles verdadeiros procuradores do epigrama de Bocage, os que se diziam melhores e passavam por mais hábeis e dedicados, eram os piores pela mais refinada arteirice, e profunda malícia.
No fim dos quatro dias senti-me tonto, aborrecido, desesperado, e com a convicção tristíssima, de que não encontraria procurador, que pudesse merecer a minha confiança.
—Que homens! disse comigo mesmo; que gente desmoralizada, ardilosa e má! isto será talvez devido à influência do oficio: eles têm tantas vezes de procurar, de trabalhar em proveito de causas injustas, têm tantas vezes de contrariar a verdade, a justiça, a inocência, e o direito, que acabam por habituar-se ao dolo, à mentira, e ao sacrifício de todas as noções do dever. Há de ser assim, e nem pode ser de outro modo; porque a minha luneta mágica, que me faz ver no intimo dos corações, não me deixa cair em falsas apreciações.
—Mas todos eles maus e nem um único bom ao menos sofrível... é demais! não quero tão cedo continuar na descoberta de procurador; estou cansado de ver homens ruins; tratarei de consolar-me contemplando as graças do sexo encantador.
O último dos quatro mal afortunados dias fora de abrasadora calma; ao declinar da tarde dirigi-me ao Passeio Público.
Era a primeira vez que eu visitava, com a certeza de poder apreciar pela visão, esse pequeno, mas preciosíssimo jardim, onde a população da cidade pode ir gozar das árvores sombra e imperceptível respiração purificadora do ar, das flores encanto e perfumes, do mar o aspecto sublime, da terra limitada amostra da opulência majestosa da natureza do nosso Brasil, e das magias da tarde a suave frescura da viração.
Entrei no Passeio Público, e com apressada curiosidade fui vendo e gozando os deleitosos quadros da relva verdejante, dos grupos de arbustos graciosos, das árvores gigantes, das correntes d'água, das pontes, do outeiro dos jacarés, do terraço que se torna admirável pela vista das montanhas, dos rochedos e do mar, das fortalezas e das ilhas, das praias e da cidade formosa, mas recreio da cidade ofuscadora, a que demora fronteira.
Tudo isso era novo para mim, tudo, todas essas maravilhas da criação, todos esses belos testemunhos, todas essas obras do trabalho e da arte dos homens.
(continua...)
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