Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Era um perfeito cavalheiro, o visconde. Residia ora em Petrópolis, quando já não suportava o calor na Corte, ora no seu rico palacete das Laranjeiras, pelo inverno chuvoso e nublado. Para as transações da Bolsa tinha escritório na Rua da Alfândega, onde ocupava uma saleta de frente e uma alcova com toilette de mármore e outros objetos indispensáveis ao asseio de um homem. Idade média (pouco mais de quarenta anos), muitíssimo conservado, sem um fio branco na cabeça, olhos vivos, todo ele irrepreensível, tinha fama de beleza entre as mulheres, que o admiravam, não tanto pela fortuna, mas especialmente pela correção do trajo e pelo estranho conjunto das linhas fisionômicas. Muita gente achava-lhe pontos de semelhança com Luís Furtado que se orgulhava disso, que era uma honra para ele, uma grande honra! Por duas vezes o tinham saudado na Rua do Ouvidor julgando cumprimentar o Santa Quitéria: Sr. visconde!... — e ele correspondera delicadamente. Era um engano que o honrava.

O visconde descera de Petrópolis na manhã daquele dia para não faltar ao convite do secretário.

— Dou-lhe os meus parabéns — disse ele a Furtado. E voltando-se para D. Branca, antes de sentar-se: — Peço licença a V. Exa., para um presentezinho à pequena, uma simples lembrança.

D. Branca, humilhada, recebeu a dádiva do banqueiro, que este entregou dentro de uma caixinha de veludo grená. Era uma jóia de ouro e brilhante, uma linda medalha para pescoço.

— Oh, Sr. visconde!...

D. Sinhá quis logo ver o que era:

— Veja, mamãe, veja que bonita!

A dama de honra de Sua Majestade a Imperatriz tomou, cautelosamente, o brinde, assestou o lorgnon e achou, com efeito, lindo, muito lindo!

A jóia correu de mão em mão, arrebatando um - oh! - de cada boca. O Dr.

Condicional lembrava-se de ter visto coisa semelhante na vitrina do Farani. D. Branca não se esqueceu de apresentar Adelaide ao visconde.

— "Sua amiga Adelaide, esposa do Sr. Evaristo de Holanda, comprovinciano e amigo de Furtado..."

E a conversa continuou animada, picante, com um acentuado caráter de brasileirismo, entrecruzando-se as vozes, as opiniões, os ditos espirituosos.

O Dr. Condicional, que se sentara ao lado do desembargador, fez a apologia do Instituto Histórico, do que o velho magistrado era membro, discorrendo sobre os últimos trabalhos do barão da Corte Real, apresentados ao Instituto, e sobre os progressos da geografia e das letras no nosso país.

Lousada, inclinava a cabeça para ouvir melhor, e saboreava os elogios de Valdevino Manhães como quem escuta uma música voluptuosa, uma vaga harmonia encantadora, os olhos entrecerrados, meio adormecidos, a boca imóvel, serenamente imóvel...

De repente estalava uma risada e ele abria os olhos, com um sustozinho, pigarreando.

— E V. Exa. já apresentou algum trabalho, Sr. Desembargador? — inquiriu, por delicadeza, o poeta.

— Ainda não, meu amigo, ainda não, mas tenho pronta uma refutação aos Irmãos Pinzón do conselheiro Lisboa.

— Uma refutação?

— Exatamente, umas notas sobre os primeiros descobridores da América, uns documentos importantíssimos, que valem toda a fortuna dos Rothschilds...

O visconde de Santa Quitéria, ao ouvir falar nos Rothschilds, deitou o rabo do olho.

— ... Calcule o senhor que os fenícios, muito antes de Pinzon, numa época remotíssima, andaram no Amazonas...

— No Amazonas, desembargador? — repetiu Manhães com espanto.

— Pois não, no Amazonas... admira-se? Quanto mais se eu lhe disser que os Cananeus andaram na Paraíba do Norte! Pois é a pura verdade. Encontrei na biblioteca de Sua Majestade um fac-símile de inscrições fenícias descobertas numa pedra da Paraíba.

— Mas, então, Colombo não descobriu a América?

— Não senhor... Colombo não descobriu coisa alguma...

E o desembargador, pausadamente e circunspectamente, explicou a magna questão do ovo de Colombo.

— E o senhor, tem escrito muito? — inquiriu depois ao êmulo de Gonçalves Dias.

— Oh, muito. V. Exa não imagina! O pior é que no Brasil ainda não há editores. V. Exa decerto conhece o meu poema...

— Qual deles?

— Eu só escrevi um poema até hoje...

— Ah!... Como intitulou?

— Então V. Exa. não conhece? - insistiu o literato com surpresa.

— Homem, eu, para lhe falar a verdade, em matéria de verso, só conheço os Lusíadas, que tenho em casa.

Valdevino Manhães deu um jeitinho ao pincenê, verificou que as violetas estavam na lapela, e, como se acabasse de ouvir uma horrorosa blasfêmia, uma heresia medonha, exclamou, fitando os olhos do magistrado:

— Só os Lusíadas?!

— Só os Lusíadas.

Nesse instante aproximava-se um criado oferecendo sorvetes em conchazinhas de porcelana, e um ar frio inundou o ambiente.

— Só os Lusíadas! repetiu o poeta, estendendo a mão à bandeja.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1415161718...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →