Por Adolfo Caminha (1894)
Desde 1726 têm sido empregados esforços inauditos a fim de se aprofundar essa parte do famoso rio; mas, foi em 1875 que o governo dos Estados Unidos contratou definitivamente esse serviço com Mr. Eads, e é bem provável que em futuro não muito remoto esteja o porto franqueado a todos os navios do mundo, graças à perseverança e aos esforços de hábeis engenheiros.
A visita foi curta, mas proveitosa.
Tomamos novamente a barca, e às cinco horas da tarde atracávamos no forte Jackson, velha fortaleza abandonada, à margem direita do rio. Lá estava ainda, imóvel e muda, a descomunal artilharia que Farragut, o velho almirante, comandara na guerra sanguinolenta dos separatistas, que terminou com a tomada de Nova Orleans.
Os velhos canhões dormiam seu sono de bronze, lá dentro, nos corredores escuros como os de uma Bastilha, e a nós, estudantes de história naval, inspiravam não sei que respeito sagrado. Perante eles falávamos baixo, como para não os acordar...
A fortaleza é grande, mas só tem a importância arqueológica que a história lhe empresta; não resistiria, talvez, às modernas baterias. Opulenta vegetação rasteira cresce-lhe em derredor. O seu aspecto é sombrio como o de um cemitério: as grossas paredes denegridas e o silêncio que a cerca dão-lhe um cunho misterioso de cripta subterrânea e produzem no visitante uma incômoda sensação de abandono e tristeza. Em cada canto parece surgir a sombra de um confederado clamando vingança.
Retiramo-nos em marcha fúnebre, calados e supersticiosos.
Dormimos ainda essa noite sobre o rio para amanhecermos em Nova Orleans. Já estávamos com saudade do Barroso.
Continuaram as manifestações de amizade ao Brasil.
O neto do imperador, jovem e irrequieto, embalde procurava fugir às insistências da aristocracia local e por diversas vezes desejou ter nascido simples burguesinho, como qualquer de seus colegas.
E digamos aqui, muito à discrição, Sua Alteza podia ser um belo moço, um digno cavalheiro, um excelente amigo e camarada, mas... Sua Alteza era um péssimo príncipe. A sua grande aspiração era a vida livre, sem peias, essa vida alegre e boêmia que se esgota depressa nos cafés-concertos e nos restaurantes.
Não gostava de continências e desprezava o juízo imbecil dos que lhe apodavam de estróina. O certo é que esse juízo em nada o comprometia perante o high-life americano que o estimava suficientemente. Ele era o representante imediato da família imperial, era o alvo predileto de todas as manifestações ao Brasil na grande festa internacional.
Seria ocioso, senão monótono e fatigante, descrever, uma por uma, em todos os seus detalhes, com todas as suas cores mirabolantes, essas manifestações, profundamente fraternais e democráticas, com que nos recebeu a distinta sociedade de Nova Orleans. Bailes, regatas, passeios improvisados, concertos, brindes — e não raro a tolda do nosso belo cruzador converteu-se em esplêndido salão de baile, acordando a sons de orquestra e gritos de alegria o silêncio agreste das margens do Mississipi.
É este o único consolo daqueles que andam no mar em serviço da pátria — o repousar em terra amiga. Vão-se as saudades para dar lugar à franca expansão dos corações: a alma do marinheiro transforma-se, como por encanto, num bestiário de alegrias de uma ingenuidade incomparável, e ele ri com os outros, canta e sentese tão bem como se estivesse em seu próprio país, no meio de seus amigos e de seus parentes. Encantadora ilusão, que só dura enquanto ele não abre as velas mar em fora nessa interminável derrota de argonautas que vão atrás do bezerro de ouro da felicidade...
Não direi, não, o que nos divertimos, as múltiplas sensações por que passou o nosso espírito nessa Luisiana que o Mississipi embala com o ritmo nostálgico de suas águas cor de barro. Seria desdobrar a natureza humana tão complexa e misteriosa.
Vamos adiante, consultemos o caderno de notas.
25 de abril... — Estávamos na Páscoa, à festa risonha e popular da ressurreição do Cristo. Até então nenhum desgosto, nenhuma tristeza, nenhuma mágoa toldara o céu puríssimo de nossas alegrias. Vagávamos em mar de rosa, egoístas de felicidade, sereno o espírito, aberto o coração a todos os influxos bons. Boa vida, por um lado, essa de quem viaja sem grandes preocupações, no bojo de um navio patrício.
Eis que, de repente, uma nota dissonante e sombria chamou-nos à realidade pungente da vida humana: morrera um nosso companheiro de bordo, o Leocádio..., que digo eu? um desses heróis anônimos que usam gola ao pescoço, um pobre marinheiro que a fatalidade arrebatou de sua terra natal para morrer tísico em pais estranho.
Ninguém imagina a dolorosa impressão que produz a morte de um companheiro de viagem longe da pátria, num hospital desconhecido.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. No país dos ianques. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=20929 . Acesso em: 27 mar. 2026.