Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

Bom-Crioulo que se debruçara na amurada, assim que o viu saltar no escaler: — Inglês bruto! murmurou entre dentes, e ficou-se com sua indignação, olhando a água calma... Ele ali estava, enfim, na baía do Rio de Janeiro, depois de uma ausência de seis longos meses! Precisava ir à terra naquele mesmo dia para arranjar o negócio do quarto da Rua da Misericórdia, antes que o pequeno se arrependesse; tinha umas compras a fazer...

Mas, havia ordem para não desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda a guarnição passou a tarde numa sensaboria, cabeceando de fadiga e sono, ocupado em pequenos trabalhos de asseio e manobras rudimentares. — Diabo de vida sem descanso! O tempo era pouco para um desgraçado cumprir todas as ordens. E não as cumprisse! Golilha com ele, quando não era logo metido em ferros... Ah! vida, vida!... Escravo na fazendo, escravo a bordo, escravo em toda a parte... E chamavase a isso de servir à pátria!

Anoiteceu. Noite estrelada, cheia de silêncio, profundamente calma e reparadora. A guarnição da corveta dormia sem abalos um sono tranqüilo e delicioso de oito horas, ao ar livre, sobre o convés desbastado.

Bom-Crioulo nem sequer pensou em Aleixo: estava incapaz de trocar palavra, sucumbido pela canseira, o corpo mole reclamando conforto, o espírito parado; todo ele sem ânimo para cousa alguma. Trabalhara brutalmente; não havia resistir à fadiga. Momentos há em que os próprios animais caem extenuados... Deitou-se a um canto, longe de todos, e adormeceu imediatamente num sono cataléptico. Ao primeiro toque d’alvorada espreguiçou-se, abrindo os olhos com surpresa, e sentiuse alagado. — Oh! ... — Passou a mão no lugar úmido, tateando, e verificou, cheio de indignação, cheio de tédio, com um gesto de náusea, a irreparável perda que sofrera inconscientemente durante o sono — um verdadeiro esgotamento de líquido seminal, de forças procriadoras, de vida, enfim, que “aquilo” era sangue transformado em matéria! Se ao menos tivesse gozado... Mas não sentira nada, absolutamente nada, mesmo em sonho! Dormira toda a noite como um porco, e o resultado ali se achava no lençol — quase um rio de goma prolífica!

E triste, desesperado, maldizendo a natureza na linguagem torpe das galés, ergue-se e foi juntando a roupa de cama bruscamente, atabalhoadamente, como se alguém houvesse concorrido para a sua “desgraça”.

Entrou pelo dia com ares de quem não quer se incomodar, o semblante carregado numa sombria expressão de aborrecimento, falando pouco e em tom grosseiro, ameaçando: — que o deixassem, que o deixassem; não queria brincadeira; ainda rachava a cabeça dum!

Os outros pediam-lhe desculpa, humilhavam-se, adulavam-no, porque sabiam que “o negro era meio doido”.

À tarde, porém, esse estado nervoso amainou, graças ao Aleixo que lhe fora perguntar, com certo interesse e com uma meiguice na voz de adolescente, se ele, Bom-Crioulo, estava disposto a ir à terra.

— Por que não? Já estava concedida a licença.

— Ah! pensei que tinha se esquecido.

— Qual esquecido! Pois eu não te disse que hoje mesmo havíamos de arranjar nosso ninho?

E muito carinhoso:

— Espero em Deus estrear hoje...

Faltava, entretanto, a licença do grumete. Aleixo não se animava a pedir que o deixassem ir à terra, com receio de uma negativa. Bom-Crioulo encorajou-o — Não fosse tolo! Isso a gente dizia que voltava logo, que era um instante, ou então forjava qualquer história...

— Dize ao imediato que tens um padrinho rico em terra, uma cousa assim...

Aleixo criou ânimo, e daí a pouco voltava muito satisfeito, risonho, dando pinchos.

— Não havia nada como a gente ser um menino bonito! Até os oficiais gostavam...

Bom-Crioulo é que não gostou da pilhéria. Ferrou o olhar no pequeno — hum!

hum! — como para o fulminar. Mas o grumete corrigiu prontamente: — Brincadeira, menino, brincadeira... pois não se podia brincar?

— Isso não são brinquedos, repreendeu o negro. Eu quando gosto de uma pessoa gosto mesmo e acabou-se! Já lhe disse que ande muito direitinho...

Vestiram-se e abalaram no escaler das cinco horas, depois da ceia.

— Vamos primeiro tomar um golezinho de jeribita, disse Bom-Crioulo ao saltar no cais Pharoux. Aqui mesmo no quiosque ... É preciso esquentar os rins.

— Eu não quero.

— Hás de tomar nem que seja um copo de maduro.

— Maduro?

— Sim, maduro: é uma bebida muito boa.

Foram andando...

O relógio das barcas marcava seis horas menos um quarto, e a cidade, mergulhada no crepúsculo, adormecia lentamente, caía pouco a pouco numa estagnação de praça abandonada, num triste silêncio de aldeia longínqua...

Acendiam-se as luzes e rareavam os transeuntes no Largo do Paço. Um ou outro retardatário, em pé na sombra, e sujeitos que saltavam dos bondes em frente à estação das barcas, conduzindo embrulhos. O velho pardieiro dos Braganças, o sombrio casarão, em que, durante quase um século, a monarquia fez reclamo de suas pratas, imobilizava-se lugubremente, ermo e fechado aquela hora.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1415161718...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →