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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

No outro dia, com efeito, o futuro bacharel seguia no expresso para Baturité em companhia do Dr. Castro, presidente do Ceará.

Lia-se na Província:

“Segue amanhã, pela manhã, com destino a Baturité, a fim de visitar a importante fábrica Proença, o Exmo. Sr. Presidente da Província. Acompanham o ilustre amigo do Ceará os nossos distintos amigos e correligionários Srs. Dr. José de Souza Nunes e José Pereira, nosso colega de redação. S. Exª. pretende demorar-se alguns dias naquela cidade.”

Maria do Carmo leu com surpresa a notícia da Província e não pôde conter um gesto de despeito. Era desse modo que o Sr. Zuza estava doido por ela! Ir-se embora sem ao menos lhe comunicar! Nem sequer deixara um bilhetinho, um cartão com duas palavras, duas somente! Que custava escrever num pedaço de papel — Vou e volto?

Zangara-se deveras, atirando a folha para um lado, trombuda, furiosa.

Estava tudo acabado, não falaria mais no Zuza, não lhe escreveria: que fosse bugiar! Moças havia muitas no Ceará: que procurasse uma lá a seu jeito e ela por sua vez trataria de arranjar noivo, mas noivo para casar, noivo sério, noivo de bem! Entretanto, Maria não tinha feito reparo na despedida do Zuza, um soneto em decassílabos, com sílabas demais nuns versos e de menos noutros. Adeus — era o título e vinha na terceira página da Província. Depois é que viu por que a Lídia mostrou-lhe.

— Já estavas fazendo mau juízo do rapaz, hein? disse a Campelinho.

— Certamente, confirmou Maria. Nem ao menos teve a lembrança de me avisar!

— Como querias tu que ele avisasse se ainda não lhe respondeste a carta?

Maria esteve pensando com o jornal na mão, lendo e relendo os versos, e, meio arrufada meio risonha:

— Embora! O dever dele era me participar. O homem é que faz tudo...

E na manhã seguinte, muito cedo, pulou da rede e foi no bico dos pés, embrulhada no lençol, ver passar o trem através da vidraça.

A locomotiva disparou numa rapidez crescente, soltando rolos de fumo e fagulhas que pareciam uma irrisão aos olhos da normalista. A sineta, num badalar contínuo, acordava os moradores do Trilho, àquela hora ainda nos lençóis.

Maria viu passar a enfiada de vagões estralejando sobre os trilhos e esteve muito tempo em pé ouvindo o silvo longínquo da locomotiva que ia, como uma coisa doida, sertão adentro! Começou então a sentir-se só; teve vontade de abrir num choro histérico como se lhe houvessem feito uma grande injustiça. Voltou para a tepidez do seu quarto e lá deixou-se ficar até sair o sol, com um peso no coração, encolhida na rede, sem ânimo para levantar-se, desejando um querer que era vago, extraordinário, que lhe punha arrepios intermitentes na pele. Que bom se o Zuza estivesse ali com ela, na mesma rede, corpo a corpo, aquecendo-a com seu calor... Àquela hora onde estaria ele? Talvez em Arronches...; não, já devia ter chegado a Mondubi... Imaginava-o metido num comprido guarda-pó de brim pardo, tomando leite fresco na estação, ao lado do presidente, tirando do bolso da calça um maço de notas de banco, muito amável, rindo... Depois o trem apitava. Havia um movimento rápido de gente que embarcava às pressas, e... lá ia outra vez por aqueles descampados afora, caminho da serra que se via ao longe, rente com as nuvens, como aquelas cadeias colossais de montanhas onde há gelos eternos e que na geografia têm o nome de Alpes... De repente lembrou-se:

“— E se o trem desencarrilhasse...?” Ia adormecendo quando lhe veio à mente esta idéia. Sentou-se na rede, esfregando os olhos, como se tivesse acordado de um pesadelo. “— Se o trem desencarrilhasse o presidente morreria também...”

...Teve um consolo. Não, o trem havia de chegar em paz com todos os passageiros. Espreguiçou-se toda com estalinhos de juntas e, maquinalmente, deixou escapar um — ai! ai! — muito lânguido e prolongado.

Lá fora recomeçava a labuta quotidiana. A criada puxava água da cacimba; o cargueiro de água potável enchia os potes; cegos cantavam na rua uma lengalenga maçante, pedindo esmola numa voz chorada; vendedores ambulantes ofereciam cajus... Havia um ruído matinal de cidade grande que desperta.

Nesse dia Maria do Carmo não foi à Escola Normal: que estava incomodada, com uma enxaqueca muito forte.

João da Mata tomou-lhe o pulso, mandou que mostrasse a língua, muito solícito, com cuidados de pai: — “Não era nada, uma defluxeira.” E largou-se para a Repartição, palitando os dentes.

A Lídia, essa tinha liberdade plena em casa da mãe, ia à Escola quando queria e, se lhe convinha, lá não punha os pés. Deixou-se ficar também com a Maria. — Tinham muito que conversar.

— Que saudades, hein? começou a Campelinho.

Estavam sós, na sala do amanuense. D. Terezinha tinha ido à casa da viúva mostrar um corte de fazenda que o Janjão lhe comprara.

Maria, derreada na cadeira de balanço, fechou o volume que estivera lendo, e, com um bocejo: — “É verdade, o diabo do rapaz não lhe saía da lembrança. Nem um castigo... Mas estava muito desgostosa da vida, já andavam inventando histórias, calúnias...”

(continua...)

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