Por Domingos Olímpio (1903)
— Aqui está, seu doutor – exclamou ela, indicando o soldado, com um soberbo gesto de indignação – Aqui está o asa-negra que me persegue, pensando que eu sou da laia dele... Este homem me atormenta com malcriações, com cartas... Espere... Tenho uma comigo...
E retirou do seio, de envolta com o cacho de cravos murchos, a última, carta de Crapiúna.
— Eis – continuou trêmula de cólera – a carta que este... não-sei-que-diga... me mandou hoje...
O Promotor tomou a carta; leu-a, sorriu-se e passou-a ao delegado, segredando-lhe:
— Há, talvez, em tudo isso um drama de amor.,
— De pouca vergonha, seu doutor, atalhou Luzia – Ele devia saber que sou uma rapariga direita...
Depois de ler a carta, voltou-se o Delegado para o soldado, que até então mantinha ares de bazófia:
— Que quer dizer isto?...
— Saberá vossa senhoria que não é nada... – balbuciou ele, sorrindo irônico.
— Nada!... Que significam as suas palavras de ameaça?...
— É um modo de falar para fazer medo e caçoar com ela... Negócio de namoro...
— Namoro, seu atrevido... Pois o senhor fica responsabilizado por qualquer falta de respeito, ou tudo quanto suceder a esta moça... – Por causa disso – observou o escrivão Antônio Rufino – é que ele foi removido da polícia do Curral do Açougue...
— Eu não quero fazer mal a ela, seu Delegado. De mais a mais não é crime a gente querer bem e pretender uma moça dessas...
— Não admito observações. Retire-se... Veja como se porta!...
Crapiúna fez continência e deu meia volta, com inexcedível garbo militar, lançando a Luzia sarcástico olhar de desafio.
— Vá descansada, moça – disse-lhe o Promotor, com meiguice – Sua mãe reclama os seus cuidados. Quanto a Alexandre, a justiça empregará todos os meios e esforços possíveis para descobrir o verdadeiro autor do delito. Estou persuadido que é inocente.
— Deus lhe pague, meu senhor... Deus lhe dê saúde e felicidade... Queira perdoar a minha ousadia... Fiquei fora de mim... – Suspirou ela, com lágrimas na voz.
E compondo as dobras do amplo lençol de mandapolão, saiu lentamente, desconsoladamente, acabrunhada de dor e vergonha.
O Promotor voltando-se, então, para o Delegado e os Comissários, ponderou:
— Não será esta carta um indício precioso?... Na minha opinião, deve ser vigiado aquele soldado.
CAPÍTULO VIII
Teresinha informara a tia Zefa do caso de Alexandre, procurando, com tortuosas e vagas digressões, amortecer o choque demasiado rude, e substituir a filha ausente, preparando o caldo, ,ajudando a velha a mudar de posição, e convencendo-a de tomar o remédio, que tinha um sabor mau de azinhavre.
— Deus te pague – repetia a velha, fazendo uma careta de repugnância e escarrando com ruído – e perdoe os teus pecados. Bem sabia que o teu coração é bom... Ai... o que te falta é cabeça...
— A minha sina é que não foi boa... – observou a moça com requintes de ternura e meiguice – Se a gente pudesse adivinhar; se soubera o que me havia reservado quando saí de casa...
— E Luza que não volta!...
— Se não fossem os cuidados estaria melhor, porque o puxado vai passando...
— É o remédio... Tome outra vez...
— Já estou encharcada de mezinha... Coitada da minha filha!...
— Descanse que ela não tarda aí...
— Pobrezinha! ... O dia inteiro, com uma triste xícara de café escoteiro.
Ao escurecer regressou Luzia. Vinha taciturna e triste, rendida de fadiga. Tomou a bênção à mãe; apertou Teresinha contra o seio, numa demorada e silenciosa expansão de reconhecimento, e deixou-se cair acocorada à soleira da porta do quarto, em postura de desânimo, os cotovelos fincados sobre os joelhos e a cabeça apoiada nas mãos.
— Seu de-comer – disse-lhe Teresinha – está guardado...
— Não tenho fome...
— Ao menos uma xícara de café...
— Deixa-me descansar.
— E Alexandre, filha? – inquiriu a velha plangente.
— Está preso!... Levaram-no para a cadeia como um mal-feitor...
— Diz-me o coração – atalhou Teresinha – que ele está penando
injustamente... Mas... deixem estar que vou farejar o ladrão... Conheço uma velha que faz a adivinhação da urupema e sabe rezar o respônsio de Santo Antônio. Não há furto que não descubra. Uma coisa é ver, outra é dizer. Parece que tem parte com o cão...Meu Deus perdoai-me...
— São abusões – murmurou a velha.
— Pois amanhã cedo vou atrás dela, da Rosa Veado, que mora na Fortaleza, nos quartos da Lianor, e vosmecê há de ver...
— Pode ir embora, Teresinha – disse-lhe Luzia, quebrando o longo silêncio – Você já fez muito por nós...
— Eu?!... Ai, gentes! Que grande incômodo!... Agora é que fico mesmo aqui ajudando. Durmo ali, na esteira, junto do jirau, ou em qualquer parte. Basta ter onde encostar a cabeça...
E, acendendo fogo num cigarro de papel amarelo, continuou contando casos maravilhosos da feitiçaria de Rosa Veado que, além dessa habilidade, era insigne parteira, muito cuidadosa, muito feliz.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.