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#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

E os cabelos? Os belos cabelos pretos de Rosalina, que dantes tão vaidosamente se ostentavam ao sol com seus reflexos de azul-ferrete? Coitados! Choravam agora escondidos e presos nos caprichosos penteados cheios de flores artificiais e pedrarias. Mas na sua raiva, tinham razão os cabelos, que tão bonitos como aqueles, compravam-se falsos penteados; porém tão belos cabelos como dantes mostrara Rosalina, só os pudera ostentar quem os possuísse naturais.

Em suma, Rosalina já não era uma rapariga, era uma senhora.

Conhecia todos os segredinhos das salas, já sabia ostentar um sorriso fingido as visitas de cerimônia, aturava maçadas sociais com aparente alegria, ajeitava a fisionomia a sorrir e ficar triste, segundo a ocasião, como impõe a sábia delicadeza, tinha amizades convencionais, ares de proteção e tinha também sempre engatilhado nos lábios um formidável — Oh! — para todas as pessoas que lhe mereciam respeito e acatamento.

Estava completa a obra.

O ouro derretera-se, dele levantaram-se as duas espirais de fumo — Civilização e Hipocrisia. Estas duas forças combinadas possuem um fluído capaz de transformar um anjo em mulher e uma mulher em demônio.

Rosalina respirou esse fluído e aprendeu a grande ciência da vida — sabia esquecer, sabia odiar e sabia mentir.

Quando a gente chega a conhecer tanta coisa não pode mais, nem precisa aprender o que é ser boa e honesta. Maffei cada vez estava pior.

A despeito da tua tão próspera fortuna, entristecia progressivamente como um velho urso de feira; vivia cada vez mais concentrado e sombrio, procurando o isolamento e a solidão.

Afetava uns instantes de prazer quando se metia na roda dos amigos; chegava mesmo, com força de vontade, a arranjar uma espécie de sorriso artificial, com que os obsequiava; consistia essa espécie de sorriso em dilatar os lábios, avincar as peles franzidas do rosto, que lhe sustentavam as mandíbulas, e por entre os dentes soprar uns sons bestiais, que se podiam classificar entre uma nota desafinada de clarinete e o ronco gutural de um porco.

Estava no entanto civilizado — tinha cabeleireiro próprio, vestia-se com distinção, bebia licores que estragam o estômago e o cérebro, e jogava tão bem como qualquer fidalgo de alta linhagem.

Que faltava, pois?

Simplesmente duas coisas — esperar mais algum tempo e casar a filha com algum titular de pura nobreza e reumatismo gotoso. Bela expectativa!

Da família, foi Ângela quem menos se modificou. Cada vez mais devota, encerrava-se no quarto, indignada contra tudo e contra todos. — Que não a procurassem! Não se queria comunicar com pessoa alguma. O que, digamos de passagem, sobremaneira satisfazia o ex-pescador, que pensava consigo: — Ora que diabo vai fazer nas salas esta velha ridícula e burguesa, senão incomodar a mim e divertir os mais? Antes trate ela de liquidar este restinho de vida, que para pouco ou nada lhe poderá servir.

Contudo, ia a boa mãe Ângela bocejando as suas intermináveis orações e transformando insensivelmente a religiosidade em mania. Mais dois passos e despenhava com certeza aquela carga de ossos no idiotismo.

CAPÍTULO III

Fatal metamorfose!

Maffei e a filha rolavam pelos despenhadeiros da sociedade; dera-lhes o primeiro empurrão a cobiça, a posse o segundo, depois o orgulho e finalmente o vício. No cair vertiginoso, tentaram, baldadas vezes, agarrar-se às asperezas do precipício e não conseguiam mais que sujar as mãos, porque a lama faz escorregar e suja.

Afigurava-se-lhes, entretanto, estarem a voar para cima; têm destes efeitos singulares as grandes quedas. Às vezes supomos subir quando evidentemente caímos. Viam tudo luzir em torno deles, sem se lembrarem que a lama também tem o seu brilho, em lhe batendo a luz... do ouro.

E caíam! caíam sempre, porque o mal é como a lua - cresce ou diminui, nuca estaciona.

Uma noite, seriam duas da madrugada, os salões da casa da rua de Toledo reverberavam ao clarão aristocrático das mangas multicores de cristal.

Era noite de baile.

O baile tem um quê de morcego - só aparece à noite e rouba as cores às raparigas.

Havia grande folgança na casa, porque muito se ria e dançava; a festa chegara às fases do frenesi e da loucura.

Em uma das salas, porém, lívido, monstruoso e feroz, encerrado ali como uma fera na jaula, o jogo devorava, silenciosamente, terras, palácios, jóias, dinheiro e reputação; era um tragar de jibóia - engolia sem mastigar.

O silêncio indicava que o monstro fazia a digestão surda e pesada, porém fortíssima — desgasta o ouro e o diamante com a imperturbalidade e pachorra de um cônego velho e gastrônomo, que rumina, com apetite e método, o fruto da caridade do povo.

A consciência sentia vertigens de olhar por muito tempo para aquele grupo, espécie de autômato, movido pela cobiça e governado pela força abstrata do vício.

No meio da mesa, brilhava como um centro planetário, o monte de moedas de ouro, em torno do qual toda a força e atenção dos circunstantes gravitavam impacientes e desordenadas.

(continua...)

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