Por Aluísio Azevedo (1895)
Quando encarei com Virgílio pela primeira vez, meu coração disse-me baixinho: “Ei-lo aí está, o invasor! Prepara-te, pobre fortaleza, que vais ser tomada de assalto e conquistada!” Rendi-me logo ao primeiro ataque — o seu primeiro olhar venceu-me. Não sei o que me segredou estar ali naquele moço, tão sério e tão amável, quem devia ser o meu companheiro no risonho mundo, que os olhos da minha alma, e os meus sentidos ainda mal acordados, pressentiam com frêmitos de felicidade.
Eu era um bom partido: além do dote, havia de herdar muito de minha avó; já não tinha pai nem mãe. Esta última desgraçada circunstância era ainda considerada uma vantagem pelos burgueses mal-educados, que vêem na sogra e no sogro os principais inimigos da sua tranqüilidade; como se a tranqüilidade absoluta fosse coisa possível no casamento comum.
O casamento é quase sempre um duelo, em que um dos dois adversários tem de ser vencido; os sogros nada mais são que as testemunhas oficiais, imediatamente interessadas na luta.
O meu dote tirava-me pois da ridícula situação em que se acham muitas moças, coitadas! que não podem, como eu podia, escolher noivo. Virgílio, pelo seu lado, era também um excelente partido; de sorte que nenhum de nós dois teve de representar, nas salas em que nos encontramos e namoramos, o triste e odioso papel de caçador ou de caça.
Meu coração não me enganara quando mo apontou como o ente destinado a iniciar-me na vida sexual. Desde o nosso primeiro encontro, senti logo que ele pensaria em mim com insistência, e comecei a associá-lo a todos os meus devaneios de donzela; comecei a amá-lo.
A flor da minha cândida feminilidade expandia-se enamorada, ao idílico frêmito das asas de outro, que lhe esvoaçavam em torno.
Caía então em longas cismas deliciosas, suspirava sem saber por quê, dormindo, abraçava-me aos travesseiros, estendendo os lábios à procura dos beijos de alguém, que meus braços e meu colo reclamavam com impaciência.
E era sempre e só com Virgílio que eu tinha desses sonhos. Quando ele me pediu em casamento, passei a noite inteira a chorar de alegria. Toda eu palpitava ao anelo daquelas núpcias. Os seus meses de nosso namoro pareceram-me séculos de invariáveis mágoas, tanto eu morria por poder confiar-lhe toda a minha ternura e darlhe toda a minha dedicação. Sentia-me ansiosa para lhe mostrar, para lhe provar, quanto eu era meiga, pura, casta; para lhe provar quanto e quanto o amava; para lhe mostrar por palavras, e por atos, e por ações de todo o instante, e por toda, toda a vida, tudo aquilo que eu sentia e que até aí não me permitira o pudor que lhe dissesse ou demonstrasse.
Oh! Que loucura apressar essa época feliz!
E amei-o, amei-o com todo o entusiasmo de minha alma desejando-o mais e mais de dia para dia, vendo nele o melhor, o mais perfeito dos homens, o único digno de ser amado, o único que eu amaria sempre.
E quanto é belo o amor de uma virgem! Quanto ele é mais forte, mais sincero e mais corajoso que o primeiro amor do homem! O adolescente só vê o seu primeiro sonho de amor através do prisma da poesia; todo o homem é poeta nos arroubos da puberdade; não deseja possuir a mulher que ama, quer ao contrário divinizá-la, fazer dela um ídolo sagrado, diante do qual se ajoelhe compungido e contrito, sem lábios, e sem voz, e sem mãos, senão ára a divina prece; sem olhos senão para as estrelas confidentes do seu enlevo. E ela — não! a mulher desde o seu primeiro amor de donzela, já é a mulher, já é a carne, já é o pecado. Menos dominada pela poesia ideal, volta-se mais para o paraíso dos céus. Não vê no homem desejado e amado um ídolo venerando, mas nele vê o senhor e dono do todo o seu ser.
O ideal existe sempre, apenas o dela é mais natural e humano.
O homem na puberdade, ama só com o espírito; a manifestação do seu amor é um transbordamento de resíduos de leituras romanescas e reminiscências poéticas. O seu primeiro amor nunca aproveita para a geração. É muito raro, é raríssimo, encontrar um homem que constituísse casal com o seu primeiro amor; em geral todo o pai, todo o chefe de família, tem, guarda, e conserva, depois do casamento, escondido aos olhos da mãe de seus filhos, a saudade e o culto daquela a quem ele consagrou, na puberdade, as poéticas e suspirosas primícias do seu coração. E a virgem, essa ama logo com todo o seu ser, com todo o seu corpo imaculado. E goza em sentir-se pronta a dar esse mimoso corpo, todo inteiro, ao carnal despotismo do seu amante; goza em senti-lo ameaçado pelas mãos sensuais que se estendem avidamente para ele; goza em abandoná-lo, vencida, e deixá-lo invadir, rasgar, e deixá-lo alterar todo transformando-o de um corpo de virgem em um corpo de mulher.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.