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#Romances#Literatura Brasileira

O Homem

Por Aluísio Azevedo (1887)

"Eu vim para o meu jardim, irmã minha esposa; seguei a minha birra aromática; comi o favo com o mel; bebi o meu vinho com o meu leite. Comei, amigos, e bebei, e embriagai-vos, caríssimos!

"Eu durmo e o meu coração vela; eis a voz do meu amado que bate; dizendo: — Abre-me, irmã minha pomba minha, imaculada minha, porque sinto a cabeça cheia de orvalho, e me estão correndo pelos anéis do cabelo, as gotas da noite."

E estes, como todos os outros versículos de Salomão, lhe punham no espírito uma embriagues deliciosa, atordoavam-na como o perfume capitoso e melífluo de flores orientais ou como um vinho saboroso e tépido que a ia penetrando toda, até a alma, com a sua doçura aveludada e cheirosa. E, de pois de repeti-los muitas e muitas vezes, corria a tomar nas mãos a imagem de Cristo, e abraçava-a, e cobria-a de beijos, soluçando e murmurando: "Meu amado, meu irmão, meu esposo!" E dizia-lhe em segredo, num delírio crescente: "Eu sou a tua pomba imaculada; sou o mel de que teus lábios gostam; sou o leite fresco e puro com que tu te acalmas; tu és o vinho com que me embriago!"

— Isto acaba mal! Isto com certeza acaba muito mal! exclamava entretanto o Dr. Lobão, furioso contra o Conselheiro, sobre quem ele fazia recair toda a responsabilidade do estado de Magdá. — Pois já não bastavam os terríveis elementos que havia para agravar a moléstia?... Como então deixou nascer e desenvolver-se o demônio daquela beatice, que só por si era mais que suficiente para derreter os miolos a qualquer mulher?!

Uma tarde, na semana santa, ela saiu em companhia da velha e voltou sem sentidos no fundo de um carro. Tinham ido ouvir um sermão na Capela Imperial, e Magdá fora aí mesmo acometida por um ataque de convulsões em delírio.

O Conselheiro revoltou-se formalmente contra a irmã:

Aquilo era um abuso que orçava pela petulância! era um desrespeito ao que ele determinara dentro de sua casa e com relação à sua própria filha! Por mais de uma vez havia declarado já que a Sra. D. Madalena não podia ir à igreja e muito menos demorar-se aí horas e horas; e fazia-se justamente o contrário! Se D. Camila não podia passar sem isso, que fosse sozinha! Podia lá ficar o tempo que quisesse, fartar-se de sermões e rezas, deliciar-se com aquela bela atmosfera impregnada de incenso e bodum de negros! Que fosse; ninguém se privava de ir, mas, com um milhão de raios! não arrastasse consigo uma pobre doente para pô-la naquele estado! Era muito bonito, não tinha dúvida! Ele em casa a desfazer-se com cuidados de meses e meses para minorar os sofrimentos da filha, a fazer sacrifícios para a ver boa; e a besta da irmã a destruir tudo isso em poucas horas! Não! não tinha jeito! A continuarem as coisas por aquele modo, ele ver-se-ia obrigado a tomar sérias providências contra semelhante abuso! Se D. Camila não se queria conformar com o que ditava o bom senso, que tivesse paciência, mas voltaria por uma vez para o convento!

E o que mais o irritava era o modo fraudulento porque tudo aquilo se fazia; eram as confidências secretas, as combinações em voz misteriosa, a espécie de conspiração que havia contra ele, entre Magdá e a velha. Enganavam-no: saiam para "dar um passeio pela praia", e agora ficava descoberto o que eram os tais passeios! Roubavam-lhe até o amor e a confiança de sua filha! — Dantes, Magdá não dava um passo, nem mesmo pensava em fazer fosse o que fosse, sem primeiro consultá-lo, ouvi-lo; e agora — evitava-o; falava-lhe em meias palavras; parecia ter segredos inconfessáveis! Dissimulava!

— Tudo isso é da moléstia! Explicou o Dr. Lobão, cujas visitas à casa do Conselheiro rareavam ultimamente, porque o feroz médico vivia muito preocupado com o estabelecimento de uma casa de saúde, que acabava de montar fora da cidade. Mas o pobre pai não se consolava com a explicação do doutor e sofria cada vez mais por amor da sua estremecida enferma. Magdá, com efeito, estava agora toda cheia de dissimulações e reservas; parecia viver só exclusivamente para uma idéia secreta, um ideal muito seu, que ela colocava acima de tudo e de todos. Faziase muito manhosa, muito amiga de sutilezas, de disfarce, empenhando-se em esconder as suas mais simples e justificáveis intenções e fazendo acreditar que existiam outras de grande responsabilidade. Os passeios clandestinos que continuava a dar coma tia, cegando a vigilância do Conselheiro, para estar algum tempo na igreja, tinham para ela um irresistível encanto de fruto proibido, e a preocupação em esconde-los constituía o melhor interesse de sua existência.

(continua...)

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