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#Contos#Literatura Brasileira

O Esqueleto

Por Aluísio Azevedo (1890)

Ria a bom folgar.

A Domitila, recusando-se embora a pagar-lhe imediatamente os mil cruzados prometidos, recheava-lhe a bolsa, de constante, e permitia-lhe algumas diabruras, que o arredassem por momento da vigilância sobre a prisão de Branca.

E d. Bias fazia-se agora de pagador, e falava alto e fanfarronava à vontade entre aquela gente que lhe ia escorropichando os pichéis.

Fez-se branco, pois, trêmulo como um esqueleto de museu agitado pelo vento, quando o Satanás bateu-lhe ao ombro fortemente.

Mas recuperou logo a presença de espírito. Estava diante do inimigo. E se lhe faltava a coragem de desembainhar a nunca desembainhada durindana, compreendia a necessidade de esgrimir a mentira - a única arma que ele sabia manejar.

- Bem hajas pelo teu regresso! disse. Tu desapareceste de repente, e eu tinha, entretanto,importantes comunicações a fazer.

- E eu ando à procura dessas comunicações, fez o Satanás com a voz soturna, sentando-se do outro lado da mesa e esvaziando um copo que ali estava.

- Então, pergunta. As minhas idéias, assim, se concatenarão melhor e com mais vantagens parati.

- Pois bem! O que é feito de Branca?

- Que Branca?

- A minha filha! Aquela moça loura que desapareceu bruscamente depois do crime da rua doConde.

- Era tua filha!

- Sim.

- Pois não sei! afirmou d. Bias resolutamente.

Descobrindo que a sua encarcerada era filha do Satanás, o magro fantasma de d. Quixote teve ímpetos de revelar-lhe tudo. Perpassou-lhe no cérebro a idéia de ajoelhar-se, de rojar-se ao chão, de dizer ao escultor:

- Tua filha! Sou eu quem a tem prisioneira. Mas perdoa-me. Eu, só eu te a posso restituir. Vemcomigo. Vem buscá-la. Mas perdoa-me. Conserva-me a vida. E dá-me os mil cruzados que a Domitila me prometeu.

Mas d. Bias amava Branca. A meiga e triste filha do Satanás deixava que ele a abraçasse. Sorria numa alegria infantil de louca. E muito baixinho dizia-lhe ao ouvido uma suave cantilena de amores: - Paulo! meu Paulo!

Por isso ele afirmou:

- Não sei.

O Satanás não lhe permitiria com certeza o prolongamento desses idílios de prisão. E d. Bias amava Branca.

Também o outro não insistiu.

Não eram essas propriamente as revelações que esperava. Perguntara por perguntar, para dar saída a essa idéia que o obsedava, que lhe fazia o mais forte e o mais insistente das preocupações. E, sem mais referir-se ao caso, continuou o inquérito relativamente aos pródromos do drama.

- Como soubeste que lá em cima, na minha casa, havia gente a se matar?

- Eu te conto, Satanás. Eu conto.

- E toma tento em ti. Fala a verdade. Por que se não...

E um grande murro sobre a mesa completou-lhe o pensamento. D. Bias começou assim:

- Naquela noite, sabia de uns amores misteriosos, que não te relatarei nem por quinhentos milhões de diabos, nem que venha o inferno todo inteiro em guerra aberta contra mim, porque sou fidalgo das Espanhas e nunca meus lábios traíram o segredo da reputação de uma mulher.

O Satanás olhou-o muito sério, com a força violenta do seu olhar de fogo.

- Escuta! d. Bias. Trata de dizer-me a verdade e deixa-te dessas retóricas.

- Mas...

- O melhor é perguntar. O que fazias tu na rua do Conde por aquelas horas da noite?

D. Bias, então, sentiu uma grande necessidade de expandir-se, de dizer a verdade toda inteira àquele homem que ele se habituara sempre a temer, que o dominava com todo o prestigio da sua força, e que estava ali, defronte dele, a crestá-lo com a chama insistente do seu olhar de fera.

E disse tudo. Disse como d. Pedro o chamara para uma empresa amorosa, como eles se tinham ido postar diante da casa de Branca, como o tinham visto a ele, Satanás, entrar e sair, como tinham entrado depois, como tinham garrotado e amordaçado d. Emerenciana, como o príncipe subira e estivera lá em cima a sós com Branca como a casa tinha sido assaltada pelo valente capitão das guardas, como ele, d. Bias, tinha fugido e vindo lhe pedir socorro.

- Miserável! praguejou o Satanás.

E, para saciar logo a sua sede de vingança, para dar aos músculos nessas grandes tempestades de idéias que lhe espatifava o cérebro, o escultor suspendeu d. Bias pela cintura e atirou-o com durindana e tudo para o meio da sala.

Depois saiu, possesso, louco de raiva, qual fera bravia em cio de vinganças.

D. Bias levantou-se, a mão aos copos da espada, numa compostura honesta de homem insultado, que exige uma reparação imediata e sanguinolenta.

- Por S. Tiago de Compostela! Os fidalgos não fazem assim! Brigam lealmente e não fogem como este Satanás de todos os infernos.

Lá fora Pallingrini foi-se acalmando com a frialdade da noite.

O vento caía-lhe sobre as faces como uma ducha, chamando-o à realidade da vida. E ele fez-se mais quieto, diminuiu o passo, que trouxera acelerado até então, e pôs-se a meditar.

Queria uma vingança, vingança completa, vingança de italiano.

(continua...)

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