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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

E as lavadeiras não se calavam, sempre a esfregar, e a bater, e a torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercício. Ao passo que, em torno da sua tagarelice, o cortiço se embandeirava todo de roupa molhada, de onde o sol tirava cintilações de prata.

Estavam em dezembro e o dia era ardente. A grama dos coradouros tinha reflexos esmeraldinos; as paredes que davam frente ao Nascente, caiadinhas de novo, reverberavam iluminadas, ofuscando a vista. Em uma das janelas da sala de jantar do Miranda, Dona Estela e Zulmira, ambas vestidas de claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz surda, indiferentes à agitação que ia lá embaixo, muito esquecidas na sua tranqüilidade de entes felizes.

Entretanto, agora o maior movimento era na venda à entrada da estalagem. Davam nove horas e os operários das fábricas chegavam-se para o almoço. Ao balcão o Domingos e o Manuel não tinham mãos a medir com a criadagem da vizinhança; os embrulhos de papel amarelo sucediam-se, e o dinheiro pingava sem intermitência dentro da gaveta.

— Meio quilo de arroz!

— Um tostão de açúcar!

— Uma garrafa de vinagre!

— Dois martelos de vinho!

— Dois vinténs de fumo! — Quatro de sabão!

E os gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons. Ouviam-se protestos entre os compradores:

— Me avie, seu Domingos! Eu deixei a comida no fogo!

— Ó peste! dá cá as batatas, que eu tenho mais o que fazer! — Seu Manuel, não me demore essa manteiga!

Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de saias arrepanhadas no quadril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha de uma panela à outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira aos trabalhadores assentados num compartimento junto. Admitira-se um novo caixeiro, só para o frege, e o rapaz, a cada comensal que ia chegando, recitava, em tom cantado e estridente, a sua interminável lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite frito predominava. O parati circulava por todas as mesas, e cada caneca de café, de louça espessa, erguia um vulcão de fumo tresandando a milho queimado. Uma algazarra medonha, em que ninguém se entendia! Cruzavam-se conversas em todas as direções, discutia-se a berros, com valentes punhadas sobre as mesas. E sempre a sair, e sempre a entrar gente, e os que saiam, depois daquela comezaina grossa, iam radiantes de contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar.

Num banco de pau tosco, que existia do lado de fora, junto à parede e perto da venda, um homem, de calça e camisa de zuarte, chinelos de couro cru, esperava, havia já uma boa hora, para falar com o vendeiro.

Era um português de seus trinta e cinco a quarenta anos, alto, espadaúdo, barbas ásperas, cabelos pretos e maltratados caindo-lhe sobre a testa, por debaixo de um chapéu de feltro ordinário: pescoço de touro e cara de Hércules, na qual os olhos todavia, humildes como os olhos de um boi de canga, exprimiam tranqüila bondade.

— Então ainda não se pode falar ao homem? perguntou ele, indo ao balcão entender-se com o Domingos.

— O patrão está agora muito ocupado. Espere!

— Mas são quase dez horas e estou com um gole de café no estômago!

— Volte logo!

— Moro na cidade nova. É um estirão daqui!

O caixeiro gritou então para a cozinha, sem interromper o que fazia:

— O homem que ai está, seu João, diz que se vai embora!

— Ele que espere um pouco, que já lhe falo! respondeu o vendeiro no meio de uma carreira. Diga-lhe que não vá!

— Mas é que ainda não almocei e estou aqui a tinir!... observou o Hércules com a sua voz grossa e sonora.

— Ó filho, almoce ai mesmo! Aqui o que não falta é de comer. Já podia estar aviado!

— Pois vá lá! resolveu o homenzarrão, saindo da venda para entrar na casa de pasto, onde os que lá se achavam o receberam com ar curioso, medindo-o da cabeça aos pés, como faziam sempre com todos os que ai se apresentavam pela primeira vez.

E assentou-se a uma das mesinhas, vindo logo o caixeiro cantar-lhe a lista dos pratos.

— Traga lá o pescado com batatas e veja um martelo de vinho.

— Quer verde ou virgem?

— Venha o verde; mas anda com isso, filho, que já não vem sem tempo!

CAPÍTULO IV

Meia hora depois, quando João Romão se viu menos ocupado, foi ter com o sujeito que o procurava e assentou-se defronte dele, caindo de fadiga, mas sem se queixar, nem se lhe trair a fisionomia o menor sintoma de cansaço.

— Você vem da parte do Machucas? perguntou-lhe. Ele falou-me de um homem que sabe calçar pedra, lascar fogo e fazer lajedo.

— Sou eu.

— Estava empregado em outra pedreira?

— Estava e estou. Na de São Diogo, mas desgostei-me dela e quero passar adiante.

— Quanto lhe dão lá?

— Setenta mil-réis.

— Oh! Isso é um disparate!

— Não trabalho por menos...

— Eu, o maior ordenado que faço é de cinqüenta.

— Cinqüenta ganha um macaqueiro...

— Ora! tenho aí muitos trabalhadores de lajedo por esse preço!

— Duvido que prestem! Aposto a mão direita em como o senhor não encontra por cinqüenta mil-réis quem dirija a broca, pese a pólvora e lasque fogo, sem lhe estragar a pedra e sem fazer desastres!

(continua...)

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