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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

O marido por muito tempo procurou reagir contra esses hábitos sedentários; expôs à mulher os inconvenientes de uma existência sem exercício, sem preocupação de espécie alguma, ofereceu-lhe livros, lembrou-lhe a jardinagem, falou de tudo o que podia honestamente prender o espírito de uma senhora ou obrigá-la a qualquer esforço físico; mas nada conseguiu; Carolina não se abalara e, quando o marido insistia muito nas suas costumadas censuras, ela respondia com todo o descanso:

— Ora, seu Roberto, deixe cada um com seu gênio!...

E Carolina ficou no que era.

Esteve grávida, e a gravidez só lhe parecia antipática, porque a obrigava a sair um tanto dos seus hábitos sedentários. O filho tomou a resolução de morrer antes do nascimento. E fez bem.

Contrastava vivamente com o tipo da dona da casa, uma de suas visitas mais constantes e mais da sua intimidade — D. Josefina de Brito; a mesma que no primeiro capítulo, por ocasião do gorado casamento de Gregório, tão indignada se mostrou, na qualidade de madrinha, com o estranho procedimento do noivo.

D. Josefina era a antítese perfeita da amiga. O que tinha esta de flácida e moleirona, tinha a outra de ativa, impaciente, curiosa e ralhadeira. Nunca ficava sossegada num lugar: de manhã à noite vivia a saracotear pela casa, a dar fé de tudo, até que enfiava o vestido, punha a capa e corria às amigas para boquejar sobre os conhecidos.

Falava de tudo e de todos sem o menor escrúpulo, e desconfiava de toda a espécie de homem, passados, presentes e futuros. O longo e rigoroso celibato, a que sempre vivera amarrada e que por muito tempo lhe zurzira os nervos, acabara por torná-la frenética e ruim. Josefina tudo perdoava a qualquer pessoa, menos a felicidade do amor, nem admitia que alguém tomasse a sério isso a que ela chamava "Mal de tolos!"

Nesse ponto extremava perfeitamente com a outra, que se comprazia em acompanhar voluptuosamente o progresso de qualquer namoro, e até a auxiliá-lo; o que muito devia aproveitar a Gregório, como efetivamente teremos ocasião de ver mais adiante.

Mas deixemos tudo isso à margem, para nos ocuparmos da segunda razão que levou Gregório a jantar todos os domingos com o Dr. Roberto.

Essa razão era a circunstância especial de haver se retirado para a Europa a família com quem morava o rapaz.

Tal razão aparecerá pouco óbvia à primeira vista, porém não é. O leitor, se nunca morou em família ou se nunca teve de separar-se daquela com quem convivera indefinidamente, não poderá avaliar o alcance do que avançamos; mas, se ao contrário, o leitor é um desses muito infelizes, que de um momento para outro se vêem privados das pessoas com quem habitava, para seguir um destino de desordem e boêmia, o leitor nesse caso avaliará o peso de nossas considerações e sentirá o valor da opressão em que ficou o nosso pobre herói com a partida da família entre a qual vivia.

É preciso ter experimentado o que isso é, para saber quanto custa. Antes da separação não seríamos capazes de imaginar o estado em que ficamos; então, até se nos afigurava que a coisa não havia de ser objeto de pena e mágoa.

Suponhamos que a vida exterior, com seus teatros, as suas palestras de café, os seus almoços ruidosos e cheios de riso, as suas aventuras picantes, as suas peripécias, as suas alegrias efêmeras, compensariam perfeitamente a convivência habitual e burguesmente amiga daqueles com quem morávamos. Ilusão! pura ilusão! A rua, o teatro, as sofres, os passeios, a conversa descuidosa dos amigos, não substituem absolutamente o que nos falta em casa. Todo esse conjunto de impressões, todo esse barulho de gozos, mais ou menos passageiros, não nos enchem o vácuo insondável deixado por aqueles, em cujos corações nos podíamos refugiar confiantemente, quando voltávamos desiludidos e cansados de percorrer toda a escala das falsas sensações exteriores.

Abençoados lares. Quão pouco é necessário para o bom resultado de vosso mister sagrado e consolador! Uma pequena vivenda humilde e pobre, um pouco de sol, um pouco de ar, o produto de algumas horas de trabalho, tudo isto iluminado de amor e boa vontade — e eis aí os elementos de uma felicidade completa.

(continua...)

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