Por Aluísio Azevedo (1884)
— Não posso compreender um homem sem qualquer distinção. Um título serve para disfarçar a nulidade do nome. Creio que não terás a pretensão de imaginar que possuís um nome!
— Como assim?! Pois eu não...
— Teu nome não existe; não tens uma individualidade, não tens por onde te possas distinguir dos outros! Se disser o — João Borges — é como se dissesse o — José da Silva; ninguém sabe quem é, ninguém conhece!
— Mas, filha, cada um é conhecido na sua roda. Eu sou conhecido na praça!...
— Que praça!...
— A praça do comércio.
— Ora! fez a mulher com desdém — isso não é ser conhecido; ainda se fosse na praça pública, vá!
O Borges fez um gesto severo.
— Se tivesse talento, acrescentou a mulher, lançar-te-ias na literatura, ou na política, ou no teatro, ou na guerra de qualquer país. Mas nem é bom pensar nisso! Tuas ambições limitam-se a uma patente da guarda-nacional, a uma faixa de subdelegado ou à presidência de alguma irmandade religiosa; coisinhas que eu abomino, como a expressão mais chata e mais ridícula da estupidez burguesa!
— Mas, filha, nem eu sou subdelegado, nem nunca prestei serviço à guardanacional; e, desde que torceste o nariz às irmandades, nunca mais aceitei cargos, tanto da ordem de Nossa Senhora da Candelária, como do Sacramento e da de S. Francisco!
— Grande fúria! exclamou a mulher. O que sei é que não tens um título, e é preciso que o tenhas!
— Isso é o que menos custa! disse o Borges. — Serei comendador, arranjarei a comenda da Rosa!
— Comendador! Estás doido! Isso não é um título! Eu só aceito de barão para cima. Comendador! Comendador todo o mundo o é! Ora, comendador! Com efeito!
— E se eu arranjar um baronato? Heim?! Se eu o arranjar, prometes ser mais condescendente?...
Filomena respondeu passando-lhe os braços em volta do pescoço, e dandolhe um beijo na face.
— Pois juro-te que serás baronesa ou coisa que o valha. Hoje tudo isso se obtém com muita facilidade do governo português...
— Mas receio a demora! volveu Filomena. Ardo de impaciência por ser alguma coisa — baronesa! condessa! viscondessa! oh! como é bonito! como é poético. "A Sra. condessa quer se dar ao incômodo de entrar?... A Sra. baronesa já se retira?..." Oh! excelente! encantador! Lamento apenas não ter me lembrado disto há mais tempo; a estas horas podíamos estar já no gozo do titulo! Receio a demora!
— Não; talvez não demore muito, Sra. viscondessa! disse o marido galhofeiramente, tomando as mãos da mulher.
— E se fôssemos a Portugal tratar disso?... lembrou ela. Ainda não fizemos uma viagem!...
— Pois vamos lá a Portugal! disse o Borges.
E ficou resolvido que partiriam, logo que estivessem dadas as providências necessárias para a compra do título.
Durante o resto desse dia, Filomena mostrou-se muito chegada ao marido. À noite, às costumadas visitas, não se cansaram de falar na próxima viagem. Borges estava radiante, a mulher nunca o tratara tão carinhosamente. Os amigos chegavam a estranhá-lo. Abriram-se garrafas de um Tokai magnífico, que o futuro titular recebia diretamente da Hungria, e o mestre de obras bebeu entusiasmado à sua felicidade.
— É agora! dizia consigo esfregando as mãos. É agora que se decide o negócio!
Mas o ferrolho ainda não se abriu dessa vez.
— Pois veremos quem vence, exclamou ele, atirando-se furioso na sua cama de solteiro. Ou eu conseguirei, quanto antes, entrar naquele quarto, ou leva tudo o diabo nesta casa! Arre! Nem sei até o que me parece semelhante coisa!
Não pôde dormir o pouco que lhe restava da madrugada, e, mal surgiam no horizonte os primeiros raios do dia, já o Borges estava de pé.
— Cecília! gritou ele, vendo passar a criada por defronte da porta do seu quarto. Espere aí, que tenho o que lhe dizer.
A criada fez um gesto de surpresa, vendo o marido de sua ama tão sobressaltado.
— Você é uma boa rapariga! principiou ele. É fiel, bem procedida e diligente!...
Cecília olhou-o espantada.
— Eu sempre tive boas intenções a seu respeito, continuou o Borges. Minha mulher está satisfeitíssima com o seu serviço!
— São bondades... balbuciou a rapariga, abaixando os olhos.
— Não! A verdade diz-se!... Sou-lhe grato, sou! Para que negar?... e fique sabendo que hei de ajudá-la no seu casamento!...
A fisionomia da criada iluminou-se, e, sem dizer palavra, ela pôs-se a torcer e destorcer o seu avental de algodão.
— Sei das suas intenções com o Roberto, e estimo que se casem. Pode contar com o enxoval!
Cecília quis beijar-lhe a mão.
— Não tem que agradecer. Olhe! guarde isto para comprar um vestido novo.
E o Borges meteu-lhe nos dedos uma nota de vinte mil réis.
— Oh! meu rico amo! exclamou ela com os olhos úmidos de comoção — como vosmecê é bom! Eu e mais o Roberto havemos de lhe agradecer por toda a vida!
— Bem, bem! disse o Borges, mas preciso que você me preste um serviço, um pequeno serviço...
Cecília adiantou-se mais, cheia de solicitude.
— É quase nada!
E abaixando a voz depois de olhar cautelosamente para os lados:
— Desejo penetrar hoje no quarto de minha mulher.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.