Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Pois sobejam aparelhos à Bahia para se poder fortificar, entenda-se que lhe não faltam para se poder fazer grandes armadas com que se possa defender e ofender a quem contra o sabor de Sua Majestade se quiser apoderar dela, para o que tem tantas e tão maravilhosas e formosas madeiras, para se fazerem muitas naus, galeões e galés, para quem não faltarão remos, com que se êles possam remar, muito extremados, como já fica dito atrás; pois para se fazer muito tabuado para estas embarcações sobeja cômodo para isso, porque há muitas castas de madeiras, que se serram muito bem, como em seu lugar fica dito; para as quais o que falta são serradores, de que há tantos na Bahia escravos de diversas pessoas, que, convindo ao serviço de Sua Majestade trabalharem todos e fazer tabuado, ajuntar-se-ão pelo menos quatrocentos serradores escravos muito destros, e duzentos escravos carpinteiros de machado; e ajuntar-se-ão mais quarenta carpinteiros da ribeira, portugueses e mestiços, para ajudarem a fazer as embarcações, os quais se ocupam em fazer navios que na terra fazem, caravelões, barcas de engenho e barcos de toda a sorte. O que resta agora de madeira para fazerem estas naus e galés são mastros e vergas; disto há mais aparelho na Bahia que nas províncias de Flandres; porque há muitos mastros inteiros para se emastrearem naus de toda a sorte, e muitas vergas, o que tudo é mais forte do que os de pinho e de mais dura (mas são mais pesados), o que tudo se achará à borda da água. Bem sei que me estão já perguntando pela pregadura para essas armadas, ao que respondo que na terra há muito ferro de veias para se poder lavrar, mas que enquanto se não lavra será necessário vir de outra parte; mas se a necessidade fôr muita, há tantas ferramentas na terra de trabalho, tantas ferragens dos engenhos que se poderão juntar mais de cem mil quintais de ferro; e porque tarde já em lhe dar ferreiro, digo que em cada engenho há um ferreiro com sua tenda, e com os mais que têm tenda na cidade e em outras partes se pode juntar cincoenta tendas de ferreiros, com seus mestres obreiros.
C A P Í T U L O CXC
Em que se apontam os quais aparelhos que há para se fazerem estas armadas.
Parecerá impossível achar-se na Bahia aparelho de estopa para se calafetarem as naus, galeões e galés que se podem fazer nela, para o que tem facilíssimo remédio; porque há nos matos desta província infinidade de árvores que dão embira, como temos dito, quando falamos da propriedade delas, a qual embira lhe sai da casca que é tão grossa como um dedo; como está pisada é muito branda, e desta embira se calafetam as naus que se fazem no Brasil, e todas as embarcações; de que há tanta quantidade como já dissemos atrás, a qual para debaixo da água é muito melhor que estopa, porque não apodrece tanto, e incha muito na água, e as costuras que se calafetam com a embira ficam muito mais fixas do que as que se calafetam com estôpa, do que há muita quantidade na terra. E se cuidar quem ler estes apontamentos que não haverá oficiais que calafetem estas embarcações, afirmo-lhe que há estantes na Bahia mais de duas dúzias, e achar-se-ão nos navios, que sempre estão no porto, dez ou doze, que são calafates das mesmas naus, e há muitos escravos, também, na terra, que são calafates por si sós, e à sombra de quem, o sabem bem fazer.Breu para se brearem estas embarcações não temos na terra, mas é por falta de se não dar remédio a isto; porque ao longo do mar, em terras baixas de areia, é tudo povoado de umas árvores que se chamam camaçari, que entre a casca e o âmago lançam infinidade de resina branca, grossa como terebentina de Beta, a qual é tão pegajosa que se não tira das mãos senão com azeite quente, a qual, se houver quem lhe saiba fazer algum cozimento, será muito boa para se brearem com ela os navios, e far-se-á tanta quantidade que poderão carregar naus desta resina; e porque se não podem brear as naus sem se misturar com a resina graxa, na Bahia se faz muita de tubarões, lixa e outros peixes, com que se alumiam os engenhos e se breiam os barcos que há na terra, e que é bastante para se adubar o breu para muitas naus, quando mais que se à Bahia forem biscainhos ou outros homens que saibam armar às baleias, em nenhuma parte entram tantas como nela, onde residem seis meses do ano e mais, de que se fará tanta graxa que não haja embarcações que a possam trazer à Espanha.
C A P Í T U L O CXCI
Em que se apontam os mais aparelhos que faltam para as embarcações.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.