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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


A primeira coisa que convém para se fortificar a Bahia é que tem pedra de alvenaria e cantaria, de que há em todo o seu circuito muita comodidade, e grande quantidade para se poder fazer grandes muros, fortalezas e outros edifícios; porque de redor da cidade há muita pedra preta, assim ao longo do mar como pela terra, a qual é de pedreiras boas de quebrar, com a qual se fazem paredes mui bem liadas; e pelos limites desta cidade há muita pedra molar, como a de alvenaria de Lisboa, com que se faz boa obra; e ao longe do mar, meia légua da cidade, e em muitos lugares mais afastados, há muitas lagoas de pedra mole como tufo, de que se fazem cunhais em obra de alvenaria, com as quais se liam os edifícios que se na terra fazem, e se afeiçoam os cunhais destas lajes com pouco trabalho, por estarem cortados pela natureza conforme o para que são necessários.Quando se edificou a cidade do Salvador, se aproveitaram os edificadores e povoadores dela de uma pedra cinzenta boa de lavrar, que iam buscar por mar ao porto de Itapitanga, que está sete léguas da cidade na mesma Bahia, da qual fizeram as colunas da Sé, portais e cunhais e outras obras de meio relevo, e muitas campas e outras obras proveitosas; mas depois se descobriu outra pedreira melhor, que se arranca dos arrecifes que se cobrem com a preamar da maré de águas vivas ao longo do mar, a qual pedra é alva e dura, que o tempo nunca gasta, mas trabalhosa de lavrar que gasta as ferramentas muito; de que se fazem obras mui primas e formosas, e campas de sepulturas mui grandes; e parece a quem isso tem atentado que esta pedra se faz da areia congelada; porque ao longo dos mesmos arrecifes, bem chegados a eles, é tudo rochedo de pedra preta, e estoutra é muito branca, depois de lavrada; mas não é muito macia, a qual quando a lavram faz sempre uma grã areenta, e acham-se muitas vezes no âmago destas pedras cascas de ostras e de outro marisco, e uns seixinhos de areia, pelo que se tem que esta pedra se formou de areia e que se congelou com a frialdade da água do mar, o que é fácil de crer, porque se acham por estas praias limos enfarinhados de areia, que está congelada e dura como pedra, e alguns paus de ramos de árvores também cobertos desta massa tão dura como se foram de pedra.


C A P Í T U L O CLXXXVIII


Em que se declara o cômodo que tem a Bahia para se poder jazer muita cal, como se faz.


A maior parte da cal que se faz na Bahia é das cascas das ostras, de que há tanta quantidade que se faz dela muita cal, a que é alvíssima, e lisa também, como a de Alcântara; e fazem-se dela guarnições de estuque mui alvas e primas; e a cal que se faz das ostras é mais fácil de fazer que a de pedras; porque gasta pouca lenha e com lhe fazerem fogo que dure dez, doze horas, fica muito bem cozida, e é tão forte que se quer caldeada, e ao caldear ferve em pulos como a cal de pedra de Lisboa. Quanto mais que, quando não houvera este remédio tão fácil, na ilha de Itaparica se faz muita, que se vende a cruzado o moio; a qual cal é muito estranha, porque se faz de umas pedras que se criam no mar neste sítio desta ilha e em outras partes, as quais são muito crespas e artificiosas para outras curiosidades, e não nascem em pedreiras, mas acham-se soltas em muita quantidade. Estas pedras são sobre o leve, por serem por dentro organizadas com alfebas. Esta pedra se enforna em fornos de arcos, como os em que coze a louça, com sua abóbada fechada por cima da mesma pedra, mas sobre os arcos está o forno todo cheio de pedra, e o fogo mete-selhe por baixo dos arcos com lenha grossa, e coze numa noite e um dia, e coze muito bem; cuja cal é muito alva, e lia a obra que se dela faz como a de Portugal, e caldeiam-na da mesma maneira; mas não leva tanta areia como a cal que se faz das ostras e de outro qualquer marisco, de que também se faz muito alva e boa para todas as obras. Quanto mais que, quando não houvera remédio tão fácil para se fazer infinidade de cal como o que está dito, com pouco trabalho se podia fazer muita cal, porque na Bahia, no rio de Jaguaripe, e em outras partes, há muita pedra lioz, como a de Alcântara, com umas veias vermelhas, a qual pedra é muito dura, de que se fará toda obra-prima, quanto mais cal, para o que se tem já experimentado e coze muito bem; e se se não valem dela para fazerem cal é porque acham estoutro remédio muito perto, e muito fácil; e para as mesmas obras e edifícios que forem necessários, tem a Bahia muito barro de que se faz muita e boa telha, e muito tijolo de toda a sorte; do que há em cada engenho um forno de tijolo e telha, nos quais se coze também muito boa louça e formas que se fazem do mesmo barro.


C A P Í T U L O CLXXXIX


Em que se declara os grandes aparelhos que há na Bahia para se nela fazerem grandes armadas.

(continua...)

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