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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Ao terminar o canto, encontraram-se os olhos de Lopo e de Matilde, e tanto fogo havia nos do mancebo, que Matilde abaixou os seus e mostrou o rosto inundado do rubor do pejo.

A ópera auxiliava Lopo de Freitas, porque logo depois veio a cena em que D. Clóris cantou por sua vez:

Dirás ao meu bem

Que não desconfie,

Que adore, que espere,

Que não desespere,

Que à sua firmeza

Constante serei;

Que firme eu também

A tanta fineza,

Amante constante

Extremos farei.

Lopo e Matilde tornaram a olhar-se e sorriram ambos da coincidência daqueles cantos com as falas dos seus corações.

O sorriso de Matilde não escapou a Ana Campista.

– Até que enfim! – disse esta ao ouvido da amiga, ao mesmo tempo em que lhe apertava a mão.

O resto do espetáculo foi para Matilde cheio de novos sorrisos, daqueles sorrisos sacrílegos que murcham depressa, cedendo o rosto às lágrimas e o coração aos remorsos.

Algumas semanas de galanteio acabavam de perder Matilde. A vingança a impelira, a vaidade incensada e satisfeita embriagou-a. E pouco a pouco, uma paixão infrene arrastou-a ao precipício.

Ana Campista protegia um amor criminoso, que devia servir aos seus cálculos.

Lopo de Freitas pediu uma entrevista a Matilde. O prazo e o lugar foram marcados.

Uma noite, e já muito tarde, abriu-se a porta da casa de Lourenço Taques e outra vez saíram duas mulheres de mantilha, que caminharam apressadas e silenciosas e passavam diante da igreja de N. S. do Parto, quando uma delas parou, estremeceu e murmurou, tremendo:

– O recolhimento!

Mas imediatamente, parecendo ceder a uma força irresistível,

disse:

– Vamos!

E continuou em rápida marcha até chegar, quase no fim da rua do Parto, a uma casa térrea, cuja porta, já entreaberta, então de todo se abriu para dar entrada às duas senhoras.

Lopo de Freitas recebeu de joelhos a Matilde, a quem Ana acabava de arrancar a mantilha.

A estrada do vício é íngreme e escorregadia, e quem uma vez começou a descer por ela, tarde ou nunca mais pode parar.

As entrevistas de Lopo e de Matilde repetiram-se muitas vezes.

A esposa indigna correu precipitada para o abismo onde a esperava o maior opróbrio.

O mundo, que tudo vê e arrasa todos os mistérios, descobriu esses amores impuros, e a murmuração e a reprovação pública marcaram com o ferrete da infâmia a mísera Matilde.

Ana Campista triunfava, pois, e contando já com a mais completa vitória, sempre, porém, hábil e astuta, começava a provocar, como involuntariamente e sem comprometer-se, a atenção e os anelos de Gil

Soares.

O libertino deixou-se pouco a pouco atrair pela mulher voluptuosa que lhe acendia a imaginação adivinhadora de irresistíveis encantos. Cercou-a de cuidados, ousou fazer-lhe a confissão do seu amor, e tomou-se ainda mais vivamente apaixonado pelo desdém fingido com que Ana Campista o repeliu.

Ana esperava ainda. A mulher a quem profundamente aborrecia e a quem dava o nome de amiga, a esposa do homem que lhe inspirara uma paixão reprovada pagava-lhe com hedionda miséria o crime de haver gozado alguns dias de amor e de felicidade. Sua vingança poderia talvez estar saciada. Mas o domínio exclusivo e indispensável do coração de Gil Soares só lhe parecia seguro, quando uma barreira ou um abismo o separasse de Matilde.

Tal reparação era, portanto, a sua idéia implacável.

Uma carta anônima foi em breve patentear a vida ignominiosa de Matilde aos olhos de Gil Soares, que, arrebatado e furioso, não podendo ocultar os seus ciúmes, perdeu o mais seguro de certificar-se da verdade, porque os dois amantes, acautelando-se temerosos, interromperam as suas entrevistas.

Ana Campista, contrariada em seus planos por esse prudente proceder, receou ver arrefecer-se a paixão criminosa de Matilde, e para inflamá-la de novo, correu a derramar o veneno de pérfidos conselhos no seio da desgraçada.

Matilde seguiu de olhos fechados o caminho por onde quis conduzi-la a traição. Um dia em que foi visitar sua mãe, fingiu-se, de súbito, tão incomodada, que não pôde voltar para casa.

Matilde contava que seu marido, habituado a passar as noites em orgias, a deixasse só com sua mãe. Não calculou, porém, com as suspeitas de um marido desconfiado.

Gil Soares, com efeito, deixou-a só. Mas retirou-se suspeitoso.

O incômodo de Matilde desapareceu com a partida do marido. E a mãe da inconsiderada moça sorriu àquela milagrosa cura, vendo apenas um inocente capricho no que a filha ocultava um desígnio criminoso.

A mãe de Matilde morava no largo da Ajuda. Era uma boa velha, observadora fiel dos costumes antigos. Às 9 horas da noite rezou o seu terço, e às 10 dormia.

À meia-noite, uma voz abafada e trêmula pronunciou na rua a palavra – segredo!

Daí a poucos minutos Matilde e Ana Campista seguiam juntas para o Passeio Público, onde entraram pela porta lateral, que lhes foi aberta por Lopo de Freitas, que conseguira obter a chave.

Os dois amantes sentaram-se ao lado um do outro no banco de um dos caramanchões cobertos de jasmins.

(continua...)

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