Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
– Louca! O mundo te cobriria de ridículo ou de ignomínia.
– Oh! É assim? Pois bem, matar-me-ei.
– E o teu belo viúvo não se divertirá menos por isso.
– Sim... sim... Mas que farias tu?
– Não se trata de mim, Matilde.
– Mas. Se se tratasse?
– Não aconselharei a mulher alguma que faça o que eu faria.
A serpente ia-se arrastando para dar o bote.
– Não aconselha, porém fala. Que farias?
– Não te direi.
– Ana! Não és mais a minha amiga fiel.
– Ingrata? Depois do que acabo de fazer por ti!
– Dize, pois, que farias?
Ana respondeu em voz baixa, mas terrível.
– Vingar-me-ia!
– Vingar-me? Oh! Sim. Porém como?
Ana Campista olhou para Matilde com piedade, e depois dis-
se-lhe:
– Vai chorar.
– Ana!
– Quem no teu caso não compreende qual é a vingança quedeve tomar é uma criança, a quem só cumpre chorar.
Uma luz infernal brilhou aos olhos de Matilde, e o demônio que acendera essa luz contemplou com um rir de triunfo a exaltação e o delírio da esposa traída.
III
Estava aberto o caminho da perdição de Matilde, e para precipitá-la por ele conspiravam o ciúme, a vaidade ofendida, o amor justamente ressentido, um espírito exaltado, uma natureza ardente e a educação mal dirigida.
E além de tudo isso, velava sinistra ao lado de Matilde a traição com a máscara da amizade.
– Vingar-me-ei! – repetiu a infeliz com um tom que indicavajá um pensamento criminoso.
– Sim – observou Ana Campista. – Um amor cura-se comoutro amor.
Era ainda um conselho pérfido que prometia o castigo do esposo infiel com a infâmia da esposa traída, como se a desonra desta não tivesse de atenuar de certo modo a maldade daquele.
Mas o provérbio imoral fizera estremecer Matilde.
– Um outro amor! – disse ela, atraiçoando-se. – Um outroamor! E eu que...
– Acaba. Já és amada por um belo mancebo.
– Quem to disse?
– Agora mesmo começavas a confessá-lo.
Matilde corou. Ana Campista alterou-lhe o rubor da face, envenenando com um beijo insano a rosa do pudor.
– Quem é o teu apaixonado? – perguntou.
– É Lopo de Freitas, que me requesta em toda a parte ondeencontra, apesar da aspereza com que o trato.
– É um moço nobre, bonito, discreto e rico. Quantas invejariam a tua felicidade! Ah! o Sr. Gil Soares paga-te bem essa tua surdez aos protestos de amor de Lopo de Freitas.
A lembrança da ingratidão de Gil Soares era naquele momento inspirada pelo Demônio.
– Pode-se lá deixar de ser surda? – murmurou sinistramente
Matilde.
Alguns momentos depois, Ana Campista perguntou:
– Vês muitas vezes Lopo de Freitas?
– Não.
– Pois é fácil vê-lo.
– Onde?
– Na ópera.
– Raramente vou à ópera.
– Queres ir comigo depois de amanhã?
– Irei.
Facilmente pode-se calcular como passaram os dois dias que correram entre a noite de Natal e a da ópera, a que deviam ir Ana Campista e Matilde.
A casa da ópera era naquele tempo defronte das primeiras janelas do lado direito do palácio dos vice-reis, exatamente a mesma casa que depois ficou sendo uma dependência do paço, e que ainda hoje se vê paralela ao edifício da Câmara dos Deputados.
Não direi agora o pouco que tenho conseguido saber a respeito dessa casa da ópera. Porque tal assunto será tratado em um dos nossos próximos passeios.
Ana Campista e Matilde não faltaram à ópera. Estavam ambas vestidas com elegância e primor, e enquanto uma, pela fascinação da voluptuosidade. fazia esquecer que não era formosa, a outra avassalava corações com o poder de sua beleza, mais fulgurosa ainda naquela noite por uma indizível exaltação que parecia em luta com o receio.
Defronte delas mostrava-se um cavalheiro radiante de mocidade. Tinha olhos pretos, a fronte alta, rosto pálido e belos dentes. Estava vestido como um peralta do seu tempo. Era Lopo de Freitas.
Acaso ou prevenção de quem facilmente se adivinha, Lopo escolhera um lugar onde, volvendo apenas os olhos, podia contemplar Matilde. Ainda não tinham sido introduzidos no Rio de Janeiro os binóculos teatrais e naquela casa da ópera um binóculo seria um pleonasmo, como atualmente se diz no Ginásio. Além disso Lopo tinha bonitos olhos e excelente vista.
É inútil dizer que o mancebo inebriava-se, devorando com um olhar abrasador o lindo rosto de Matilde, que, pela primeira vez, não se mostrava enfadada com essa adoração atrevida.
Representava-se a ópera intitulada Guerras do Alecrim e Mangerona, do nosso Antônio José da Silva, o chamado Judeu, a quem o horrível tribunal da Inquisição fez queimar em uma de suas infernais fogueiras.
O público aplaudia com ardor o espirituoso semicúpio, enquanto Lopo de Freitas repetia com os olhos a Matilde as finezas que D. Gilvaz e D. Fuas rendiam a D. Clóris e a D. Nize.
Entretanto, Matilde tolerava apenas, mas não correspondia ainda às demonstrações de amor do seu namorado.
D. Fuas cantou na cena os versinhos seguintes:
Se chego a vencer
De Nize o rigor,
De gosto morrer Você me verá.
Porém, se um favor
Alenta o viver,
Quem morre de amor
Mais vida terá.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.