Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Estes presépios conservavam-se abertos e patentes ao público em todas as noites, desde a do Natal até à de Reis.

O presépio do Livramento era propriedade e glória do célebre cônego Filipe. As figuras que ali se apresentavam eram de barro e tinham dois palmos de altura, e de tanta fama gozava esse presépio que o príncipe regente, depois rei d. João VI, o visitou por mais de uma vez.

Como já disse, o proprietário desse presépio foi aquele sempre lembrado cônego Filipe, que se imortalizou por trinta mil simplicidades. Uma vez, por exemplo, indo esse cônego pregar em uma festa fora da cidade, hospedou-se na casa do festeiro, e, como chovesse muito durante a noite e houvesse uma goteira exatamente por cima da cama em que devia dormir o cônego, este passou a noite inteira sentado na cama a receber no prato do rosto a água que caía da goteira. No dia se guinte, lamentou-se o pregador da sua triste e maçante vigília.

– Oh! Sr. cônego! – disse o festeiro. – Por que não afastou V.Rev.ma para longe da goteira a sua cama?

– Homem! – respondeu o cônego. – Você tem toda a razão.Mas essa só lembra ao Diabo!

E como esta muitas outras.

Ao dia do Natal seguia-se o de Ano Bom, que era o das visitas, dos presentes, dos banquetes e dos obséquios.

E enfim, o dia de Reis fazia-se muito apreciado pelas cantatas de reis, que começavam na noite de 5 e repetiam-se na de 6 de janeiro.

Eram numerosos os reis que corriam a cidade, cantando às portas das casas das famílias amigas, que ofereciam a esses obsequiadores ceias opíparas e riquíssimas e variadas mesas de doces. Havia cantador de reis que atacava dez ou doze ceias em uma noite e não tinha indigestão.

Os cantadores de reis compunham-se de mancebos e moças, de ordinário vestidos à camponesa, e de alguns grotescos mascarados, a quem competia alegrar as companhias, provocando risadas.

Percorrendo a cidade em diversas direções, reuniam-se enfim todos os cantadores de reis no pátio do convento da Ajuda, onde terminava a festa alegremente, em um outeiro mais ou menos brilhante. As freiras davam motes do alto das janelas e por entre as grades, e os poetas glosavam como podiam e de improviso, mas quase sempre com metrificação livre.

Dou apenas uma ligeira idéia destas festas, de que espero tratar mais de espaço. Agora é impossível continuar a discorrer sobre este assunto, visto que nos cumpre acompanhar duas senhoras de mantilha que não devemos perder de vista.

Ana Campista e Matilde, depois de um quarto de hora de acelerada marcha, entraram no largo da Carioca, foram subindo a ladeira de S. Antônio, demoraram-se apenas alguns momentos diante do presépio, continuaram a subir, e chegaram enfim ao pátio da frente do convento e igreja, onde já havia muito povo, embora ainda fosse um pouco cedo para a missa do galo.

Cheio estava o pátio. Mas tornava-se notável que a quase tota lidade dos fiéis que aí se achavam se desviassem de um grupo de mancebos e de moças, que assim se mostrava isolado. Contudo, o observador conhecia bem depressa a causa dessa separação, que era um protesto dos bons contra o sacrilégio da libertinagem em uma noite de tão santas recordações.

O grupo condenado ostentava ali à face de todos a vilania dos costumes de mancebos desmoralizados e de mulheres loucas que não se envergonhavam de uma conversação licenciosa e misturada de frenéticas risadas.

As duas senhoras recém-chegadas tinham-se misturado com a multidão; e Ana Campista, estendendo o braço para fora da mantilha, mostrou a Matilde Gil Soares no meio do grupo reprovado, tendo pelo braço a mais petulante daquelas mulheres sem nome.

Basta! – murmurou Matilde, segurando-se ao braço da falsa amiga.

– Ainda não – respondeu Ana Campista.

A missa começou à meia-noite em ponto, e finda ela o povo que enchera a igreja desceu pela ladeira, como um exército que desfila.

Ana e Matilde seguiram de perto o grupo licencioso, que foi ruidosamente visitar o presépio do convento de Ajuda, seguindo daí para o do Livramento. Gil Soares não deixara um só instante o braço da mulher que acompanhava desde o pátio da igreja de S. Antônio.

– Basta! – balbuciou de novo Matilde.

– Ainda não – repetiu Ana Campista.

Voltando do Livramento, o grupo foi pouco a pouco se dissolvendo ao som de gargalhadas e de zombarias. Finalmente, acharam-se sós Gil Soares e a sua indigna companheira, que, parando à porta de uma casa de triste aparência, bateu com força, e, apenas a viu aberta, entrou com aquele marido que atraiçoava sua mulher.

A porta fechou-se.

– Basta! basta! – disse Matilde em convulsivo tremor.

– Agora sim, basta! – respondeu Ana Campista.

E voltaram ambas para a casa, onde entraram às 4 horas da madrugada.

Lourenço Taques dormia ainda a sono solto.

As duas senhoras arrancaram as mantilhas e sentaram-se extenuadas de fadiga.

Depois de algum tempo dado ao descanso, Ana Campista rompeu o silêncio.

– Então? – perguntou.

– É um infame! – exclamou Matilde. – Hoje mesmo separar-me-ei desse monstro.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...149150151152153...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →