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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Têm os amoipiras a mesma linguagem dos tupinambás; e a diferença que têm é em alguns nomes próprios, que no mais en-tendemse muito bem; e têm os mesmos costumes e gentilidades; mas são atraiçoados e de nenhuma fé, nem verdade.Na terra onde este gentio vive estão mui faltos de ferramentas, por não terem comércio com os portugueses; e apertados da necessidade cortam as árvores com umas ferramentas de pedra, que para isso fazem; com o que, ainda que com muito trabalho, roçam o mato para fazerem suas roças; do que também se aproveitava antigamente todo o outro gentio, antes que comunicasse com gente branca.E para plantarem na terra a sua mandioca e legumes, cavam nela com uns paus tostados agudos, que lhes servem de enxadas. Os quais amoipiras trazem o cabelo da cabeça copado e aparado ao longo das orelhas, e as mulheres trazem os cabelos compridos como os tupinambás. Pesca este gentio com uns espinhos tortos que lhe servem de anzóis, com que matam muito peixe, e a flecha, para o que são mui certeiros, e para matarem muita caça.Trazem os amoipiras os beiços furados e pedras neles como os tupinambás; pintam-se de jenipapo, e enfeitam-se como eles; e usam na guerra tambores que fazem de um só pau, que cavam por dentro com fogo tanto até que ficam mui delgados, os quais toam muito bem; na mesma guerra usam de trombetas que fazem de uns búzios grandes furados, ou da cana da perna das alimárias que matam, a qual lavram e engastam num pau. Em tudo o mais seguem os costumes dos tupinambás, assim na guerra como na paz, dos quais fica dito largamente no seu título. Estes amoipiras têm por vizinhos no sertão detrás de si outro gentio, a que chamam ubirajaras, com quem têm guerra ordinariamente, e se matam e comem uns aos outros com muita crueldade, sem perdoarem as vidas, quando se cativam.


C A P Í T U L O CLXXXII


Que trata brevemente da vivenda dos ubirajaras e seus costumes.


Pelo sertão da Bahia, além do rio de S. Francisco, partindo com os amoipiras da outra banda do sertão, vive uma certa nação de gente bárbara, a que chamam ubirajaras, que quer dizer "senhores dos paus", os quais se não entendem na linguagem com outra nenhuma nação do gentio; têm contínua guerra com os amoipiras, e cativam-se, matam-se e comem-se uns aos outros, sem nenhuma piedade.Estes ubirajaras não viram nunca gente branca, nem têm notícia dela, e é gente muito bárbara, da estatura e cor do outro gentio, e trazem os cabelos muito compridos assim os machos como as fêmeas, e não consentem em seu corpo nenhuns cabelos que, em lhes nascendo, não arranquem.Fazem estes ubirajaras suas lavouras, como fica dito dos amoipiras, e pescam nos rios com os mesmos espinhos, e com outras armadilhas, que fazem com ervas; e matam muita caça com certas armadilhas que fazem, em que lhes facilmente cai.A peleja dos ubirajaras é a mais notável do mundo, como fica dito, porque a fazem com uns paus tostados muito agudos, de comprimento de três palmos, pouco mais ou menos cada um, e são agudos de ambas as pontas, com os quais atiram a seus contrários como com punhais; e são tão certos com eles que não erram tiro, com o que têm grande chegada; e desta maneira matam também a caça, que, se lhes espera o tiro, não lhes escapa, os quais com estas armas se defendem de seus contrários tão valorosamente como seus vizinhos com arcos e flechas; e quando vão à guerra, leva cada um seu feixe destes paus com que peleja, e com estas armas são muito temidos dos amoipiras, com os quais têm sempre guerra por uma banda, e pela outra com umas mulheres, que dizem ter uma só teta, que pelejam com arco e flecha, e se governam e regem sem maridos, como se diz das amazonas; dos quais não podemos alcançar mais informações, nem da vida e costumes destas mulheres.Começa a vida e costumes dos tapuiasComo a tenção com que nos ocupamos nestas lembranças foi para mostrar bem o muito que há que dizer da Bahia de Todos os Santos, cabeça do Estado do Brasil, é necessário que não fique por declarar a vida e costumes dos tapuias, primeiros possuidores desta província da Bahia, de quem começamos a dizer o que se pode alcançar dêles, começando no capítulo que se segue.


C A P Í T U L O CLXXXIII

(continua...)

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