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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Os ciúmes de Matilde irritaram Gil Soares. Para ambos, tornou-se o lar doméstico um purgatório; e Ana Campista, confidente da pobre esposa, e fazendo espiar todos os passos do marido infiel, ficou senhora dos segredos de um e de outra.

Na véspera do dia de Natal de 1787, Matilde foi jantar com Ana Campista, e depois da longa conferência que teve com ela, resolveu-se a passar a noite em sua companhia, com evidente satisfação do marido, que se despediu até ao dia seguinte, e retirou-se logo que anoiteceu.

Leôncio Peres ceou, como costumava, com o genro e a filha; mas as 9 horas da noite, saía o velho pela porta do seu quarto para adormecer profundamente alguns minutos depois.

Lourenço se admirara muito de que sua mulher não quisesse ir à missa do galo, sendo, como era, tão religiosa que nunca perdia festa alguma. Habituado, porém, a não discutir, e somente a obedecer às resoluções de Ana Campista, deu as boas noites a ela e a Matilde, e foi entregar-se ao mais tranqüilo sono.

Às 11 horas da noite, Ana e Matilde achavam-se envolvidas em longas mantilhas pretas, que escondiam completamente as formas e quase completamente o rosto de ambas.

– E teu marido não acordará? – perguntou Matilde com voz

trêmula.

– Não. Lourenço é um marido modelo. Dorme um sono só.

Esse, porém, dura apenas das 9 horas da noite até ao romper do dia.

– Mas... se por acaso acordasse?

– Dormiria outra vez – respondeu Ana com acento decididoe seguro.

– Sim... mas amanhã...

– Amanhã eu o faria pedir-me perdão de se ter acordado.

– Ana!

– Vamos.

E tomando a mão de Matilde, Ana Campista dirigiu-se à por ta da rua, que foi aberta de manso por uma escrava fiel.

As duas senhoras saíram e começaram a caminhar apressadas.

Mantilhas! Mantilhas! Já passou o tempo das mantilhas, e as senhoras talvez não calculem o que perderam.

O belo sexo condenou e proscreveu a mantilha, porque essa imensa capa, que envolvia inteiramente uma mulher, não deixava ostentar a gentileza do corpo, nem a riqueza dos enfeites e das jóias. Condenou-a e proscreveu-a, porque a mantilha era o manto com que se cobriam geralmente as velhas, as pobres e as mendicantes.

Como a vaidade faz errar as senhoras!

Condenada e proscrita por todas as moças e por todas as senhoras faceiras, a mantilha, que era um romanesco e cômodo recurso para as jovens e matronas de todas as classes e posições no século passado, e ainda no princípio deste, tornou-se desde alguns lustros em objeto de irrisão, e nem é mais permitido às próprias mendicantes, a quem os gaiatos, ao encontrá-las assim vestidas, perseguem cruelmente, gritando: “Barata! barata!”

Entretanto, a mantilha, que se usava tanto no Brasil, e que, como todos sabem, não era um manto curto, que é o que significa esse nome, porém, sim, um manto de pano preto, e tão longo que caía da cabeça até aos pés e envolvia a mulher toda, escondendo-a desde os cabelos até à barra do vestido, a mantilha era dantes tanto um espesso véu, em que se ocultava a pobreza e a velhice, como uma nuvem, que encobria uma estrela brilhante. Era ao mesmo tempo o manto da mendicidade e o disfarce da riqueza. Um expediente de amor e um recurso do ciúme.

Ah! quantos romances não pôde dar a mantilha do século passado!

E as senhoras condenaram e proscreveram as mantilhas! Coitadinhas! Perdem-se sempre pela sua vaidade.

Mas, como eu ia dizendo, Ana Campista e Matilde caminhavam apressadamente, levando suas mantilhas tão fechadas diante do rosto, que apenas seus olhos brilhantes podiam ser descobertos e apreciados pelos curiosos, que abundavam no meio das ondas do povo que en chiam as ruas.

Admitindo que os meus companheiros de passeio principiem a interessar-se pela história que vou contando, sou obrigado a pedir-lhes perdão, porque é força que eu a interrompa por momentos, para dizer em duas palavras alguma coisa sobre as festas do Natal na cidade do Rio de Janeiro, tais como elas eram no século passado e ainda em alguns anos do atual.

As festas do Natal estendiam-se, como ainda hoje, do dia 25 de dezembro do ano que acabava até 6 de janeiro do novo que começava. Nelas, porém, predominavam os dias de Natal, de Ano Bom e de Reis.

O dia de Natal era notável pela missa chamada do galo, pelas ceias alegres que a precediam e que tão famosas eram, e pelos presépios que se abriam ao público, e a que concorriam chusmas de visitadores.

No fim do século passado, os presépios mais estimados do Rio de Janeiro eram três. O da ladeira de S. António, que os religiosos franciscanos apresentavam anualmente. O do convento da Ajuda, mais pequeno que o precedente talvez, porém mais curioso e atrativo, porque ao mesmo tempo em que se viam as figuras do presépio, se ouviam cantos religiosos e análogos ao assunto, entoados pelas freiras. E incontestavelmente superior a ambos, o presépio do Livramento, na casa que fica ao lado direito da capela de N. S. do Livramento.

(continua...)

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