Por Aluísio Azevedo (1884)
O Paiva encarregara-se do menu. Estava radiante; parecia empenhado na direção do almoço, como se tratasse de um trabalho difícil e glorioso. Escolhia pratos esquisitos e determinava os vinhos que os deviam acompanhar.
— Este Paiva é terrível para um menu! observou o Simões em ar de troças.
— Não! disse aquele. — Não admito que ninguém dirija um almoço melhor do que eu!
— Sim, considerou o Coqueiro — mas vais ver por que preço sai tudo isso!...
— Não faz mal!...apressou-se Amâncio a declarar. — Sinto-me tão bem entre os senhores...há tanto tempo não tinha um momento livre, que...
— Bem, de acordo, respondeu Coqueiro — mas é preciso deixar esse tratamento de “senhor”.
Entre rapazes não deve haver cerimônias, mal-entendidos; somos colegas, temos de ser amigos, por conseguinte tratemo-nos desde já por “tu ”! Não és da mesma opinião, ó Paiva?
In totum! respondeu este, abraçando Amâncio pela cintura. – Nós cá somos camaradas velhos! vem de longe!
E parecia querer provar que seus direitos sobre o comprovinciano eram muito mais legítimos que os dos outros dois; que Amâncio lhe pertencia quase exclusivamente, como um tesouro, como uma fortuna que se traz do berço. E, para deixar isso bem patente, fazia-se muito íntimo com ele: batia-lhe nas pernas; evocava recordações; lembrava-lhes as correrias das província:
— Ah! Nós éramos muito camaradas! Lembras-te Amâncio daquele passeio que fizemos ao Portinho?...
Em que o Malheiros tomou uma bebedeira de charuto, perguntou o interrogado a rir. — Naquele dia do barulho no Liceu; quando o Chico moleque foi expulso!...
— É verdade! que fim levou esse rapaz! Quis saber o Paiva. — Era um bom tipo. Inteligente!
— Morreu, coitado! de bexigas. Ultimamente estava no comércio.
— E aquele pequeno, o ...
— Qual?
— Aquele bonito, de cabelos grandes ...ora, como se chamava ele? ... o ...
— Ah! exclamou Amâncio, soltando uma risada — o Dominguinhos?
— Isso! isso! Dominguinhos justamente! Que fim levou?
— Não sei, não! Creio que seguiu para Manaus com a família. Um bobo! Lembras-te da troça que lhe fizemos no convento?...
E os dois riram-se muito com a mesma idéia.
Simões, que até ali parecia pouco disposto à pândega, foi-se animando na proporção das garrafas que se enxugavam. O almoço aquecia. João Coqueiro propôs um brinde a Amâncio e declarou, depois de lhe fazer muitos elogios, que folgaria imenso com ser recebido no rol de seus amigos.
Amâncio abraçou-o e prometeu que o iria visitar no primeiro Domingo.
— Vá feito! sustentou o Coqueiro. Ali não há cerimônia, minha família é muito despida dessa coisas.
— Ah! mora com a família? interrogou o provinciano.
— Sou casado, respondeu o outro. — Isso, porém, nada quer dizer. Apareça.
Ficou decidido que Amâncio iria sem falta no próximo Domingo.
Simões principiou então a falar sobre o casamento; daí passou às mulheres:
descreveu a sua indiferença por elas. Só lhes conhecia dois gêneros: “a mulher cínica e a mulher hipócrita”.
Paiva Rocha protestava: — Havia muita mulher honesta, verdadeiros anjos de virtude! E que deixassem de falar! em certas ocasiões uma boa rapariga tinha o seu cabimento! Sim! Quem não gostava da estética?...
Amâncio era da mesma opinião, e queixou-se de sua infelicidade no Rio a esse respeito.
— Ainda é cedo! elucidou o Salustiano. — Quando te começarem as aventuras, hás de ver o quer vai por essa sociedade!
— Não é tanto assim! opôs o Coqueiro. — Vocês são todos homens dos extremos!
E voltando-se confidencialmente para Amâncio :
— O doutor, decerto, encontrará uma mulher perigosa, de quem deve fugir como o diabo da cruz; mas terá também ocasião de ver algumas raparigas bem educadas, honestas e inteligentes. Não as vá procurar na alta sociedade, não, que aí se escondem as piores! mas indague-as por baixo, na mediocracia, que as há de descobrir. E olhe, se quer aceitar um conselho de amigo, case-se! Não há melhor vidinha! Estou casado há três anos e ainda não tive um segundo de arrependimento! ...Ao menos conserva-se a saúde, desenvolve-se o espírito e trabalha-se mais ...O método, homem! o método é o segredo da existência.
E, puxando a cadeira par mais perto de Amâncio, falou-lhe em voz baixa. Que no Rio de Janeiro era preciso ter um amigo sincero, não que “primasse nos menus ”, mas que fosse capaz, que tivesse imputabilidade mora! — Amâncio estava defronte de duas estradas; uma que conduzia à verdadeira felicidade e outra que conduzia à desordem, ao vício e à completa desmoralização! Que se não deixasse levar pelos pândegos!... (E olhava à esconsa os dois outros companheiros). Aquilo era gente sem nada a perder!... Amâncio, enfim, que aparecesse no Domingo e teriam ocasião de falar mais de espaço. Não deixasse de ir: havia muito que dizer e conversar.
Amâncio prometeu de novo.
O almoço chegara ao ponto em que todos os comensais falam todos ao mesmo tempo e em voz alta. Havia agitação; afogueavam-se as faces ao reflexo vermelho das paredes do gabinete. Simões discutia com o Paiva a incompetência dos professores da Politécnica.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.