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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Trajava comprida blusa pardo sobre calças que, por haverem pertencido a quem quer que fosse muito mais alto, formavam embaixo volumosa rodilha, apesar de estarem dobradas. A cabeça, trazia um chapéu de palha de carandá sem copa, de maneira que a melena lhe aparecia toda arrepiada e erguida em torcidas e emaranhadas grenhas.

—Oh! exclamou Cirino ao ver entrar no círculo de luz tão estranha figura, isto deveras é um tico de gente.

—Não anarquize o meu Tonico, protestou sorrindo-se Pereira. Ele é pequeno... mas bom. Não é, meu nanico?

O homúnculo riu-se, ou melhor, fez uma careta mostrando dentinhos alvos e agudos, ao passo que deitava para Cirino olhar inquisidor e altivo.

—0 Senhor vê, doutor, continuou Pereira, esta criaturinha de Cristo ouve perfeitamente tudo quanto se lhe diz e logo compreende. Não pode falar... isto é, sempre pode dizer uma palavra ou outra, mas muito a custo e quase a estourar de raiva e de canseira. Quando se mete a querer explicar qualquer coisa, é um barulho dos seiscentos, uma gritaria dos meus Recados, onde aparece uma voz aqui, outra acolá, mais cristãzinhas no meio da barafunda.

—É que não lhe cortaram a língua, observou Cirino.

—Não tinha nada que cortar, replicou Pereira. De nascença é o defeito e não pode ser remediado. Mas isto é um diabrete, que cruza este sertão de cabo a rabo, a todas horas do dia e da noite. Não é verdade, Tico?

O anão abanou a cabeça, olhando com orgulho para Cirino.

—Mas é filho aqui da casa? perguntou este.

—Nhor-não; tem mãe à beira do Rio Sucuriú, daqui a quarenta léguas, e envereda de lá para ca num instante, vindo a pousar pelas casas, que todas recebem com gosto, porque é bichinho que não faz mal a ninguém. Aqui fica duas, três e mais semanas e depois dispara como um mateiro para a casa da mãe. E uma espécie de cachorro de Nocência. Não é, Tico?

Fez o mudo sinal que sim e apontou com ar risonho para o lado da moça.

Pereira, depois de todas aquelas explicações que o anão parecia ouvir com satisfação, disse, voltando-se para este, ou melhor abaixando-se em cima da sua cabeça:

—Agora, meu filho, vai ao curral grande e apanha para mim uma mãozada de folhas de laranjeira da terra... daquele pé grande que encosta na tronqueira.

Mostrou o homúnculo com expressivo gesto que entendera e saiu correndo.

Ia Cirino deixar o quarto, não sem ter olhado com demora para o lugar onde estava deitada a enferma, quando Pereira o chamou:

—Ó doutor, Nocência quer beber um pouco de água. . . Fará mal?

—Aqui não há limões-doces? indagou o moço.

— E um nunca acabar... e dos melhores.

—Pois então faça sua filha chupar uns gomos.

Pereira, depois de ter paternalmente arranjado e dispostos os cobertores ao redor do corpo da menina, acompanhou Cirino que, parado à porta de saída, estava mirando as primeiras estrelas da noite.

—Vosmecê achou doutor, perguntou o mineiro com voz um tanto trêmula, algum perigo no que tem aquele anjinho

—Não, absolutamente não, respondeu Cirino. Verá o Senhor que, daqui a três dias, sua filha não tem mais nada.

—Malditas febres!... Quando não derrubam um cristão, o amofinam anos inteiros... Eu não quisera que minha filha ficasse esbranquiçada, nem feia .. As moças quando não são bonitas, é que estão doentes... Ah! mas ia me esquecendo dos limões-doces... Que cabeça! . . .

Adiantou-se Pereira no terreiro e, pondo as mãos junto à boca chamou com voz forte:

—Ó Tico!

Prolongado grito respondeu-lhe a certa distância

O mineiro pôs-se a assobiar com modulações à maneira dos índios.

Houve uns momentos de silencio; depois veio correndo o anão e, chegando-se para perto, mostrou por sinais que não ouvira bem o recado.

—Uns limões-doces, já!... Nocência está com sede...

Disparou o pequeno como uma seta, sumindo-se logo na densa escuridão que já se espessara entre as árvores do pomar.

CAPÍTULO VII

O NATURALISTA

A minha filosofia toda resume-se em opor a paciência as mil o uma contrariedades de que a vida está inçada.

(Hoffmann, O Reflexo Perdido).

Serena e quase luminosa corria a noite. No paro campo do céu cintilava, com iriante brilho, um sem-número de estrelas, projetando na larga fita da estrada do sertão, misteriosa e dúbia claridade.

Pelo caminhar dos astros havia de ser quase meia-noite; e, entretanto, a essa hora morta, em que só vagueiam à busca de pasto os animais bravios do deserto, vinham a passo lento, pelo caminho real, dois homens, um a pó, outro montado numa besta magra e já meio estafada.

Mostrava o pedestre ser, como de feito era, um simples camarada, e vinha com grossa e comprida vara na mão rangendo diante de si lerdo e orelhudo burro, sobre cujo lombo se erguia elevada carga de canastras e malinhas, cobertas por um grande ligam

(continua...)

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