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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Não se pode descrever o assombro de Maurícia ao dar com as vistas em Bezerra na sala do sítio. A medonha visão, que lhe aparecera no boqueirão e se desvanecera quase inteiramente no trajeto para a casa de Martins, surgia agora novamente, envenenando-lhe o espírito e repassando-lhe de fel a malfadada existência. Terríveis ameaças vinham com esta visão merencória e truculenta. O passado de que Maurícia desenterrara a página, que lera a Ângelo, ressurgiu a seus olhos com todos os episódios, dando-lhe a feição de uma tragédia.

— Eu logo vi que não havia de enganar-me - disse ela tristemente.

E acrescentou no mesmo instante:

— Que será de mim, se esse homem me jungir outra vez ao carro de sua tirania?

E porque a esse tempo tinha passado a primeira impressão do assombro, Maurícia volveu imediatamente sobre seus passos. Ângelo, que tinha ainda preso ao seu braço o dela, deixou-se arrastar irresistivelmente. O acaso os unira, e a fatalidade parecia não querer soltá-los. O abismo, em que um esteve perto de cair, ameaçou o outro. O pensamento de escapar a esse abismo era comum a ambos.

— Fujamos daqui, Sr. Dr. Ângelo. Deus me livre de ser vista por meu carrasco. Parece-me que para afugentar-se espavorida a minha liberdade, bastaria que ele me cobrisse com seu olhar sinistro.

Foi profundamente abalada que Maurícia disse estas palavras, arrancos de seu ânimo quase exausto. Sentia-se presa da febre e do frio ao mesmo tempo. Em sua alma, havia fogo e gelo - o fogo do desespero; o gelo do terror.

Deram a andar em demanda do portão, protegidos pelas sombras das árvores a que as da noite aumentavam o vulto e a densidão.

— Há talvez excesso nos seus receios, D. Maurícia - disse Ângelo, depois de um momento de silêncio. Quem a poderá obrigar a viver com este homem? A senhora não pertence ao acaso! Não é dona das suas ações?

— Pertenço-me e sou senhora das minhas ações - respondeu ela. Mas a verdade é que ele me aterra como se fora um duende. Não está em mim deixar de temê-lo. Contra esse homem só fui forte em um momento da vida - o da minha separação.

— Recobre os ânimos — prosseguiu o bacharel. Voltar à companhia dele, ou ficar livre como até hoje, são coisas que dependem exclusivamente da sua vontade. Não tem vivido longe dele durante três anos? Por que o teme? Demais, a senhora não está só. Ao seu lado pulsa um coração virgem e amigo, onde predominam dois sentimentos intensos — o amor e a dedicação. Exija qualquer prova destes sentimentos que ela não será recusada, nem retardada.

Ângelo tinha na voz estranhas vibrações. Seu corpo estremecia nervosamente. Fulgiam-lhe no espírito clarões sinistros. Era a terceira vez que o seu amor se revelava. Maurícia, que se considerava de fato ameaçada no que tinha mais caro de seu, não pode fazer-se desentendida como das outras vezes. Os perigos que se levantaram contra a sua tranqüilidade eram maiores do que os que ameaçavam a sua honra.

— Eu preciso realmente de proteção, Sr. Dr. Ângelo. Dentre os parentes que tenho só confio em Eugênia e no marido; mas a moral severa em que foram educados talvez não lhes consinta fazerem comigo uma barreira contra as pretensões do meu perseguidor. Não lhe farão a menor resistência, quando ele declarar que pretende restabelecer a moralidade no seu lar, não obstante saberem que ele foi o único perturbador da nossa harmonia, a causa da nossa separação.

— Desculpe-me D. Maurícia. Isto que prevê parece-me impossível de realizarse. Não somente uma, mas muitas vezes, tenho ouvido Martins e D. Eugênia terem para o Bezerra acerbas censuras.

— É verdade, mas logo que se trate de reconciliar-nos, hão de mudar de parecer, e serão os primeiros a promover o nosso congraçamento. Não é isto o que sucede a todas as famílias em casos análogos?

O desânimo entrara no espírito da infeliz senhora.

— Considero-me desamparada. Por que motivo hei de ocultar a minha fraqueza? Se meu marido pretender chamar-me para a sua companhia, terei necessidade de bater à porta de alguém para pedir que me livre das garras do monstro.

Estas revelações íntimas foram arrancadas pela gravidade das circunstâncias. Conhecendo tal gravidade, Maurícia não teve reservas, nem as podia ter. Demais, o afeto pelo bacharel, ao primeiro hesitante e tímido, ia ganhando de instante a instante proporções avultadas em sua alma, que até então fora uma vasta região desocupada. Os temores, os perigos vieram auxiliar em seu desenvolvimento as inclinações do seu coração. No seio da intensa sombra íntima em que nadava sua alma solitária e vacilante, surdira, como para lhe servir de companhia, pirilampo gentil e namorado, que devia ter em breve o luzeiro de um astro. Por que havia de fugir Maurícia à deleitosa impressão trazida pela primeira luz que rompia suavemente a noite do seu coração?

O amor nascia aí, como nasce semente fecunda em solo feracíssimo; e, com o amor, nascia a confiança inseparável deste sentimento, às vezes enganosa, mas quase sempre cega.

(continua...)

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