Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Ao menos, agora, cada um de nós tem nas “publicações a pedido” dos jornais diários e em cada tipografia uma elevada tribuna em que solta a voz e fala como um deputado. E dantes? Dantes, quem falava ou escrevia fora do compasso marcado pela batuta do governo fazia uma viagem à África, ou, pelo menos, deixava o seu nome escrito no livro do carcereiro.
Morto por um raio seja eu, se troco o meu tempo pelo tempo do mando e quero, se troco o direito que tenho hoje de pensar em voz alta, de discutir e de censurar, pelo antigo dever de uma cega obediência e de um silêncio de catacumbas.
Patronato sempre houve, e patronato há ainda. Mas o patronato de outrora difere muito do patronato de hoje.
Eis algumas das diferenças que se podem notar entre o velho e o novo.
O patronato do outro tempo usava de calções, e o da atualidade de calças.
O patronato do outro tempo andava de dia e se mostrava ufano no meio da praça: o da atualidade anda de noite, e, de ordinário, se esconde pelos becos. No entanto, o novo sai de carruagem, como acontecia ao velho.
O patronato do outro tempo dizia sempre: ordeno isto! O patronato da atualidade, diz: arranjemos isto!
Ao patronato do outro tempo tirava-se o chapéu com todo o respeito e consideração; ao patronato da atualidade manda-se ao diabo sem a menor cerimônia.
O patronato do outro tempo ostentava-se, apoiando-se na coluna do arbítrio; o patronato da atualidade esconde-se atrás do sofisma.
O patronato do outro tempo aparecia aos olhos do povo nas janelas do palácio, trajando brilhante fardão. O patronato da atualidade vive embrulhado em um grande capote e agachado embaixo da mesa de cada um dos ministros.
Em uma palavra, o patronato do outro tempo era franco e patentemente ousado, e o patronato da atualidade é manhoso e só tenebrosamente ousado.
Notai, porém, que a franqueza do patronato velho não era uma virtude, era, pelo contrário, um defeito profundo do sistema. Essa franqueza era a ostentação do arbítrio.
Dir-me-eis que o patronato novo, por isso mesmo que é manhoso, sofístico e disfarçado, torna-se muito perigoso. Convenho. Ao menos, porém, quando o percebemos e descobrimos, temos o direito de pôr-lhe a calva à mostra e de maçá-lo sem dó nem piedade.
Concordo ainda em que, não poucas vezes, no nosso tempo ousa o patronato erguer-se com a audácia antiga, porque a vaidade e a filáucia de alguns figurões os faz crer que eles nasceram predestinados para serem tutores e curadores obrigados do povo, e que, portanto, devem todos curvar-se ao império de sua vontade e ainda em cima render graças a Deus pelo favor e benefício imenso que da sua irresistível influência resulta para o país. Mas, em que lhes pese, cada cidadão tem na constituição do Império um baluarte inexpugnável contra as intoleráveis pretensões desses reizinhos improvisados, e no direito de censurar uma arma sempre poderosa e temida para atacar os abusos e os patronatos dos tais senhores.
Concluo: sempre houve, ainda há, e muito, e nunca deixará de haver mais ou menos patronato. Dantes, porém, as vítimas sofriam as injustiças dos potentados sem queixar-se nem murmurar, e agora quem sofre pode levantar a voz, fazer-se ouvir, achar um eco na opinião pública, e muitas vezes consegue ver triunfante o seu direito, e fugirem desapontados e pagãos os altivos afilhados dos mais orgulhosos padrinhos.
Última conseqüência: viva a constituição do Império!
Está concluída a introdução ou terminado o prólogo da anedota que agora passo a referir.
Na época em que viveu o desembargador Petra, a Câmara Municipal marcava o maximum dos preços dos gêneros de primeira necessidade e fiscalizava o mercado, impedindo que se vendessem ao povo gêneros alimentícios deteriorados.
Aquele desembargador presidia a Câmara Municipal como juiz de fora, que era, e portanto, a seu cargo principalmente estava o cuidado de garantir ao povo gêneros alimentícios em bom estado e por um preço não exagerado.
Nesse ponto, era o desembargador Petra muito severo, e um certo mercador de farinha de mandioca, fornecedor das casas de alguns fidalgos mais influentes, tinha sido por ele mais de uma vez condenado, em conseqüência de vender farinha avariada ao povo, e ainda em cima, de ter urna balança infiel.
O negociante, cansado de sofrer a retidão do juiz, apelou para os milagres do patronato.
Um dia em que o desembargador Petra dava audiência, aproximou-se dele o negociante de farinha e apresentou-lhe um aviso ou portaria do ministro em que era ordenado ao juiz de fora que não incomodasse mais o fornecedor dos fidalgos.
O desembargador leu primeiro para si e depois em alta voz a ordem do governo, e em seguida beijou respeitosamente o aviso ou portaria e disse:
– Pode ir descansado e furtar à sua vontade: o governo o autoriza a roubar ao povo. Eu hei de cumprir as ordens do governo, e V. Mce. fará muito bem si furtar dez vezes mais do que furtava até agora.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.